Arquivo da categoria: uma ou duas coisas

Naturalismo

A diferença de gêneros é coisa importante.

Certa feita, Carlos Drumond de Andrade, condoído e solidário com uma Girafa macho ainda virgem, moradora do zoologico do Rio de Janeiro, publicou uma Crônica em 9 de maio de 1981, no Jornal do Brasil, “A Solidão do Girafo” ( http://www.sibila.com.br/index.php/poemas/463-brasilia ) onde pleiteava a ida do Girafo para uma instituição brasiliense onde, dizia-se, havia uma Girafa louquinha por assunto.

” (…)
Sei que deformo teu nome, trocando a letra final, mas já é tempo de dissipar a ambiguidade das designações genéricas, em meio à indefinição crescente dos sexos, observada na sociedade humana. Quando já não se sabe ao certo quem é varão quem é varoa, pelo menos se saiba distinguir o pavão da pavoa ou pavona, o elefanto da elefanta, o sabiau da sabiá, o cisno da cisna, o tigro da tigra, em vez de nos socorrermos do aditamento macho e fêmea. Se distinguimos gato e gata, por que não foco e foca, tamanduó e tamanduá, tatu e tatua? (Deixo aos entendidos o levantamento da nominata completa.) Fica mais fácil e constitui merecida homenagem à pequena, mas divina, diferença que tornou viável o milagre da vida.”

Isto lhes conto porque recebi hoje dois espirituosos e-mails que, sob lindos leques azuis, teciam “homenagem à pequena, mas divina, diferença que tornou viável o milagre da vida”. À moda não dos Girafos, postos a esperar melancolicamente que lhes removam para Brasília. Mas ao feitio dos pavões, aves proativas que primam por embevecer as fêmeas, que devem, via de regra, nem que seja para não desapontá-los, quedar-se boquiabertas diante de tal espetáculo da natureza. Assim:

Mas sabias tu, nobre leitor, que tal como os malandros modernos que até chacoalham num trem da Central, os pavões de hoje, viajam com as famílias, fazem caminhadas, sobem e descem morros, conhecem de cabo a rabo o repertório dos irmãos Gershwin, sabendo inclusive diferençar Ira de George, além de jogar futebol, tênis e até nadar? Resistir, que pavoa há de?

Espero que não resolvam abrir os dois leques ao mesmo tempo, esses meus pavões. As consequências seriam imprevisíveis.

Ora, direis: Mistake, garota, andas a assistir demasiado ao Mundo Animal, e deverei concordar, observando, contudo… que mais é que somos, não é mesmo, leitor amigo? senão instintivos animais com o agravante de ter esta queda para os mais variados pecados, como bem se viu hoje, por aqui. E para que não imagines que somente pela fauna é que me interesso, ressalto – porque sempre é bom fazer saber – que também a flora nos presenteou com um belo exemplar de orquídea de dominação Vulva Pavona.

E sigo como Von Marcius, aguardando o que me epreita nas florestas da vida.


É improvável, é impossível

Poucas sensações me submetem a maior angústia do que desejar alguém que por circunstâncias, ainda que temporárias, ainda que justas, eu não possa ter.

O maravilhoso reino da internet é pródigo em criar estas situações.

Escrever num blog o que eu tenho a dizer, sem necesseriamente precisar ter respostas para aquilo que por princípio estou lançando para todos e para ninguém me pareceu uma maneira interessante de me proteger deste tipo de coisa.

E em certa medida tem dado certo. O que ocorre é que eu não preciso ficar falando e vendo putaria para desejar alguém. Meu desejo se dá num estrato meio incipiente e esvanecido. Se constrói com palavras colocadas aqui e ali. Atitudes inesperadas. Virilidades indisfarçadas, ainda que nunca deliberadas. E a mais variada gama de coisas estranhas. Quando dou por mim, lá estou, tomada pela Peggy Lee cantando Fever!

E aí, amiguinho, posso dar pra meio mundo que de nada vai resolver, porque o meu desejo é pessoal e intransferível e para sossegar é uma lenha.

Estou dizendo isso porque vivo combinando comigo mesma que vou ficar na minha, que não vou dar assunto porque a louca do sexo à moda antiga sou eu. E as pessoas em geral, tão bem adptadas às novas tecnologias, parecem se sentir muito satisfeitas com palavras e punhetas.

Não é o meu caso. Eu sou a louca sexo à moda antiga. Talvez esse amor incondicional que eu tenha por gente, me faça quere-las inteiras, quando eu decido assim. Sou um ser antropofágico. Então tenho que ficar o tempo todo me lembrando de não perder a linha. Porque eu tenho uns surtos de frustração meio bravos de segurar e quer saber? Prefiro assim.

Por isso, falemos do tempo e dos expressionistas. Falemos da arquitetura gótica. Falemos sobre o quão lúgubre e magnífica é a literatura Russa. E da pena que foi o desaparecimento de Robert Jonhson.

Mas nos abstenhamos, eu vos peço, daquilo que não podemos bancar.


Lira

São Paulo. Ninguém sabe de mim, ninguém me vê. Entretanto, há sexo escondido em cada esquina. Perigo iminente. Devoramento provável. Autofagia. Gosto de vagar por São Paulo. Um sentimento heavy. Like a rolling stone.

Preciso desconectar, uma esquina se aproxima.


arrebol

Não sei quem foi a entidade marota que me deu forma em sua forja. Mas alguém devia tê-lo advertido de que a este ser, em particular, faltou a pele.

Não adormeço, porque todos os sentimentos me perpassam, me penetram.

Não sossego, porque não posso encontrar paz no desejo.


Autismo

Murilo Mendes, grande, GRANDE poeta, a quem ando lendo meio compulsivamente, diz:

“Eu sou um cavalo troiano, dentro de mim cabe o mundo”.

Dentro de mim cabe amor de se amar com o corpo, cabe amor de se amar com a alma. Mas que de todo o jeito é amor. Cabem palavras que posso dizer ou não. Cabem trepadas que de tão bem dadas, não me venham dizer que não houve. Porque dentro de mim eu me dou de tal modo que meus seios estão machucados pela barba dele, e os pelos dela me deixaram róseas as bochechas. Dentro de mim eu quis um outro mundo inventado tão direitinho que virei um avesso de gente e agora só posso viver lá, dentro de mim.

Porque fora de mim mora o bicho papão.

E uma moréia meio desbotada e surda que me morde insistentemente o nariz, a exigir que eu saia da toca onde as moréias costumam habitar e eu digo a ela que se vá, e pacientemente explico que mandei-a embora de dentro de mim porque cá dentro não cabem monstros. E é por isso que eu prefiro dentro de mim. Ela que se contente com meu nariz e quando ele não mais lhe apetecer que se sirva de minhas orelhas inúteis, ou que procure outro.


Estou muito confusa quanto a algumas tendências minhas.

Se de um lado anseio por sexo para além e todos os limites que meu cotidiano me impõe, por outro, me pergunto para que. É uma constatação empírica o fato de que eu não gozo assim, à toa. Precisa ter tesão, e tesão requer admiração, empatia intelectual. E isso é tão raro.

Como é que faz?


anacrônica

e essa sensação que me acompanha de ter nascido na hora errada, no lugar errado…. inadequação…


Amnésia

Um dia, não lembro qual, dei pra você de lado.

Não lembro como começou. Não lembro como terminou. Não lembro do gozo.
Não lembro dos sons. Não lembro de quase nada, e daquilo que lembro, não lembro, sinto.

Sinto ainda. Sinto claramente.

A tua mão direita, grande, áspera, pressionando o meu abdome.

E sinto sobretudo o teu pau. Não lembro como entrou de mim, nem como saiu dali, mas sinto o movimento. Não sei se tomamos vinho, se estávamos na sua casa, se foi uma trepada rápida num intervalo comercial. Mas sinto você entrando, sinto você saindo.

Sexo é tão banal. Não há novidade alguma nessa transa de que me lembro sem me lembrar. Dei do mesmo modo e tantas vezes antes, depois…

Mas não é de nenhuma das trepadas anteriores ou posteriores que me lembro agora. Não é por nenhum outro pau que me molho agora.

Sensação de um movimento que me contrai por dentro.

Sexo é tão banal. Toda vez é alguém entrando, alguém saindo, alguém recebendo, e variações sobre o mesmo tema.

Mas, eu sinto. E molho.


sem mais.

OBJETOS

LUIZ FELIPE PONDÉ

Pergunto filosoficamente: como achar uma mulher gostosa sem pensar nela como um objeto?

Humiledemente confesso que, quando penso a sério em mulher, muitas vezes penso nela como objeto (de prazer). Isso é uma das formas mais profundas de amor que um homem pode sentir por uma mulher.

E, no fundo, elas sentem falta disso. Não só na alma como na pele. Na falta dessa forma de amor, elas ressecam como pêssegos velhos. Mofam como casas desabitadas. Falam sozinhas.
Gente bem resolvida entende pouco dessa milenar arte de amor ao sexo frágil.

Sou, como costumo dizer, uma pessoa pouco confiável. Hoje em dia, devemos cultivar maus hábitos por razões de sanidade mental. Tenho algumas desconfianças que traem meus males do espírito.
Desconfio barbaramente de gente que anda de bicicleta para salvar o mundo (friso, para salvar o mundo).

Recentemente, em Copenhague, confirmei minha suspeita: a moçada da bike pode ser tão grossa quanto qualquer motorista mal-educado. Trinta e sete por cento da população de lá usa as “magrelas”. E nas ciclovias eles são tão estúpidos, estressados e apressados como qualquer motorista “subdesenvolvido”.

Fecham a passagem de carros e ônibus como se, pela simples presença de seus “eus” perfeitos, o mundo devesse parar diante de tanta “pureza verde”.

Aliás, um modo seguro de ver que alguém NÃO conhece a Europa é se essa pessoa assume como verdade o senso comum de que os europeus são bem-educados. Muitos deles, inclusive, não sabem o que é uma coisa tão banal como uma fila.

Outra coisa insuportável é quem toma banho com pouca água para salvar o planeta. Esse tipo de gente é gente porca que arranjou uma desculpa politicamente correta para não tomar banho direito. Provavelmente não gosta de banho mesmo.

Mas, falando sério, desconfio de homens que não pensam em mulheres como objeto. Pior, são uns bobos, porque, entre quatro paredes, elas adoram ser nossos objetos e na realidade sofrem, porque a maioria dos caras hoje virou “mulherzinha” de tão frouxos que são.

Imagino o quão brocha fica uma mulher quando o cara diz para ela: “Respeito você profundamente, por isso não vou…”.

Pergunto filosoficamente: como achar uma mulher gostosa sem pensar nela como objeto?

A pior forma de solidão a que se pode condenar uma mulher é a solidão de não fazê-la, de vez em quando, de objeto. E esta é uma forma de solidão que se torna cada vez mais comum. E, sinto dizer, provavelmente vai piorar. A não ser que paremos de torturar nossos jovens com papinhos politicamente corretos sobre “igualdade entre os sexos”.

Igualdade perante a lei (e olhe lá…). No resto, não há igualdade nenhuma.

A feminista americana Camille Paglia, recentemente, em passagem pelo Brasil, disse que muitas das agruras das mulheres heterossexuais se devem ao fato de elas procurarem “seres iguais a elas” nos homens. Que pensem como elas, sintam como elas, falem como elas.

Entre o desejo “correto” de ter um “eunuco bem-comportado” e um homem que diga “não” à tortura da “igualdade entre os sexos”, ficam sozinhas com homens que são “mulherzinhas”.

O que é um homem “mulherzinha”? É um homem que tem medo de que as mulheres achem-no machista, quando, na verdade, todo homem (normal) gosta de pensar em mulher como objeto.

Um mundo de “mulherzinhas” acaba jogando muitas mulheres no colo (vazio) de outras mulheres por pura falta de opção. E aí começa esse papinho de que é “superlegal ser lésbica”. Afora as verdadeiras, muita gente está nessa por simples desespero afetivo.

Nada contra, cada um é cada um. Só sinto que muitos homens “desistam” delas porque a velha “histeria” feminina da qual falava Freud (grosso modo, a insatisfação eterna da mulher) virou algo do qual não se pode falar, senão você é machista.

Muito desse papinho “progressista” é conversa fiada para esconder fracassos afetivos, a mais velha experiência humana, mas que nos últimos anos virou moda se dizer que a culpa é do capitalismo, da igreja, do patriarcalismo, da família, de Deus, da educação, do diabo a quatro.

E o pior é que quase todo mundo tem medo de dizer a verdade: uma das formas mais profundas de amor à mulher é fazer delas objeto.


Sítio

Dormia na rede, exausta pelo jogo de queimado da tarde e satisfeita pelo nescau com sanduíche de queijo.

A rede sob as árvores no jardim da frente. Entre uma e outra folha, um raio de sol.

O corpo tenro, ainda úmido e aquecido, sentiu mãos a lhe empurrar a calcinha do biquini para o lado. Mãos a lhe tocar partes secretas de um modo que sua mãe não aprovaria.

Mãos que perscrutavam suas dobras nuas e que traziam a excitação dolorida e maravilhosa de quando uma agulha quente lhe havia torturado por minutos, antes de romper uma bolha inflamada no dedo do pé. Uma sensação esquisita de que aquilo não é bom, mas que algo muito bom advirá.

Os olhos permanecem fechados, com medo, medo de ser descoberta? medo de que acabe? Mas as pernas que se afastam denunciam sua consciência. A primeira entrega de sua viscosidade denuncia seu prazer.

Um cachorro late. Aproximação.

Nada mais será como antes no quartel de Abrantes.

Primos.


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