Exemplificando

Dos 16 aos 19 anos, eu tinha mania de trabalhar em videolocadoras. Gostava do contato com filmes e sobretudo de poder leva-los para assistir em casa. Levava sempre uns três que via quase mudos, de madrugada, pra não acordar ninguém e minha mãe não reclamar que eu estava acordada àquela hora e que meu organismo não ia se desenvolver e que eu não ia crescer (como se eu precisasse crescer mais… uma pessoa que aos 13 anos já tinha 1, 70 m…).

E foi numa dessas madrugadas que vi, pela primeira vez, O destino bate à sua porta (The postman always rings twice), de Bob Ralfeson, um remake feito em 1981 com Jessica Lange e Jack Nicholson e roteiro de David Mamet. A noite corria calma, não fosse a tensão sexual crescente entre Cora e Frank, mas então veio a cena. A cena, meus amigos, em que a tensão vira ação sobre uma mesa. A cena ao final da qual eu estava, e esta é uma descrição real do caso: com os lábios semi-abertos, salivando, o coração disparado e as mãos retesadas. Ah, mamãe, e você achando que a gente não cresce de madrugada…

Quanta coisa uma mesa comporta além de boa comida…

Do mesmo modo que há fucking music, há fucking movies, e esse é um dos maiores. Anos depois, ainda suo só de pensar naquela cena. E Lacan sabe porque estou escrevendo esse post agora, precisamente um dia após descrever um certo tipo de homem que me interessa.

A minha malha de significantes colocou os dois no mesmo saco, o homem que me interessa e o Frank do filme… livre-associação… Fui ao youtube procurar a cena pra postar aqui, mas  não achei. Encontrei, contudo, um outro fragmento, e nele o Frank mostra porque é objeto do meu desejo, o modo como não pede licença para toma-la, o olhar de posse indiscutível e inelutável, e a mão…. ahhhhh…. a mão no pescoço dela, a mão conduzindo, tomando.

Pena que dos anos 70 pra cá os homens vêm sendo criados pelas avós.

Paulatinamente usurpados de suas condições de machos.

Restam os filmes. E quem sabe, vendo-os, um dias eles reaprendam…

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Sobre mistakegirl

Vaca profana por princípio e vocação... la leche buena toda em mi garganta, la mala leche para los puretas... Ver todos os artigos de mistakegirl

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