Graal

Eu nunca levei muita fé em campanhas. Frequentemente me pergunto por que é que se gasta tanto dinheiro pra dizer aos outros que eles não podem fumar. As pessoas vão fumar. Elas vão fazer o que lhes aprouver.

Mas o fenômeno do uso da camisinha é uma coisa que tem me convencido de que talvez campanhas procedam.

O argumento é muito bom: use camisinha, do contrário você vai pegar AIDS e vai morrer. Se bem que os argumentos contra o cigarro também não são maus: não fume e diminuem radicalmente as possibilidades de você ter câncer, broxar, ter uma trombose, etc etc etc…

Penso que talvez a camisinha funcione mais porque te dá uma opção: você pode continuar tendo prazer, mas precisa deste artifício. Quanto ao cigarro, é a negação. Não fume e ponto final.

Detesto cigarro, mas nem do meu vício por chocolate eu consigo me livrar… como dizer a alguém que pare de fumar se eu acordo no meio da noite, me viro, pego um quadradinho de chocolate na cabeceira, ponho na boca e durmo de novo? Bom, não mata (embora engorde, o que eventualmente pode ser pior), mas trata-se de vício. Vícios são complicados, é muito difícil abdicar de um prazer. O que me traz de volta à minha relação pessoal com preservativos.

Sexo, basicamente, é simbolismo. Muita gente boa já sacou isso antes de mim, não vou me alongar, mas a gente sabe que o tesão de cada um está numa coisa que a outro nada diz. Você gosta de mulheres esquálidas. Ele adora pés. Ela adora tapas. Eu amo barba. Semiologia e sensações profundamente arraigadas em nossas mentes, e constantemente inconscientes.

E estes sinais permeiam cada etapa do processo. O que te desperta o interesse por alguém, o que te desperta o interesse específico pelo ato sexual. E cada um dos elementos que fazem com que esta seja uma transa lenta, rápida, voraz, boa, ruim, morna… tudo símbolo, signos, sinais.

Voltemos então ao Cristianismo, signo fundador e marca de fogo da civilização em cujo berço nascemos. A mulher como receptáculo, a mulher como Santo Graal, para além das teorias esquizóides de Dan Brown, essa é uma noção cristã muito forte. E por alguma via, perdida em meu próprio inconsciente, é também um símbolo vital para a minha sexualidade, em particular.

A consciência absoluta de minha feminilidade requer que os papéis que julgo femininos e masculinos estejam bem marcados, para que eu possa oferecer o que há em mim, a quem eu perceba que saberá receber. Por isso como já disse tantas vezes aqui, meu interesse está em homens que saibam ser homens, o que pode ser bastante complicado, porque vá lá saber o que é ser um homem pra mim? Reconheço que é difícil, já que cultivo valores que foram omitidos desde uma geração antes da minha.

Quanto a mim, ocupo-me obsessivamente em ser mulher. Forte e consciente de mim e dos meus desejos, mas nunca completa. Repudio este mito da mulher que se basta. Ser completa, “não precisar de ninguém, nem de um homem” pressupõe uma mulher que, freudianamente falando “não castrou”, e que portanto, é psicopata.

Partindo desta premissa de feminilidade, sou delicadeza onde ele é força, vulnerabilidade onde ele é posse, entrega onde ele é cuidado. Raramente encontrei esse parceiro, mas quando encontrei foi o sexo mais avassalador que já tive.

Isso tudo está sim a propósito das questões inicialmente levantadas porque como mulher, sou eminentemente Graal. Receber este homem que me quer precisa ser uma coisa inteira, total. Quero as marcas que ele me der, quero o gozo que ele me der, dentro de mim, minhas víceras plenas deste homem que fez de mim, sua. Por um momento? Por uma vida? Não importa, terei sido dele, completamente dele.

Entretanto, tem as campanhas, tem as doenças, e viver numa corda bamba não é muito gostoso quando o chão pra se cair tem lanças apontadas para você.

Assim, enquanto isso, em nosso mundo ocidental, adoecido, mercadológico e cristão, e onde feminino e masculino se confundem, vai-se vivendo parcialmente e trepando-se parcialmente, sob todos os aspectos.

Mas um dia… um dia…

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Sobre mistakegirl

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2 respostas para “Graal

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