Arquivo do mês: setembro 2011

pero que las hay, las hay

Mas então, eu gosto de dançar. Não gosto de me arrumar, ir pra uma boite, ou coisa que o valha fazer tipo e pular primitivamente ao som de uns barulhos atordoantes que eu não aprecio, com pessoas esbarrando em mim, cheiro de cigarro e fila no banheiro.

Gosto de dançar em casa.

O maravilhoso advento do MP3, sistematizou essa minha verve, pois tenho uma playlist especificamente dançante para cada ocasião, “faxina”, “cozinhando”, “amigos doidos em casa”, “amigos caretas em casa”, “família”, “dançando agarradinho”, “tristeza excruciante”, “dançando com lobos e sobrinhas”, “mórbida alegria”, e “aprés le baseadô”.

Sendo esta última, a seleção musical que mais interessa a este espaço, em particular.

Mulheres há que colocam lingeries matadoras, mas eu nem consigo medir meus seios para comprar um corselet. Tem aquelas que fazem streeptease, situação em que eu inevitavelmente seria acometida de um acesso de riso. Há mulheres que dançam sensuais, provocantes, remexendo o ventre, e outras que conseguem parecer lindas mesmo intereagindo com um poste. Mas eu não tenho essas habilidades e se tentasse, certamente pisaria das minhas próprias miçangas, sobrecarregando, assim, meu estoque de manchas púrpuras.

Até no que seriam “fotos sensuais”, eu preciso de um bonequinho caricato pra me lembrar de não me levar tão a sério.

Não sirvo para gestos insinuantes nem para gemindos guturais.

Minha busca é pela conexão total entre o meu corpo e o som. Apenas danço, livremente, como se não houvesse amanhã. E acho que é tanta endorfina, e a música me inebria de tal modo, que sou tomada por uma luxúria eufórica, e sexo é o único desdobramento possível.

Em alguma outra encarnação eu devo ter sido queimada numa fogueira, por causa disso.

Eis uma de minhas prediletas, que tem como agravante, ser um poema de Cortázar:


Shangrilá

Esta ainda não é uma atualização psicografada. Mas foi por pouco, uma vez que já ia eu passando desta para a melhor.

Meu ofício envolve utensílios de consideravel poder letal. Raramente tenho problemas com eles, apesar de todo o meu estabanamento, mas hoje foi dia.

Vou poupá-los dos detalhes sangrentos e passar ao desfecho: acabei indo conhecer um pronto-socorro de São Paulo. E por que isso lhes há de interessar?

Bem, porque fiquei numa enfermaria cujos leitos eram separados por cortinas opacas e circulares e do cubículo ao lado do meu, saíam barulhos realmente intrigantes.

É difícil crer que tais coisas possam acontecer com uma só pessoa. Mas, acreditem, é pouco diante do que se passa comigo.

Vai daí que comecei a ficar nervosa, não pela situação em si, mas me deu um medo irracional de que alguém chegasse e abrisse aquela cortina e visse o que quer que se passasse ali dentro, que, a julgar pelo barulho não era nada lícito. Fiquei paralisada esperando os gritos indignados que decerto ouviria em breve, apavorada como se tivesse culpa no cartório.

Mas ninguém chegou, e em alguns minutos esgueirou-se pela cortina uma senhora. Uma senhora bem classe média, com sua bolsa de matelassê, unhas “renda” e cabelo “imédia-mais-uma-lavagem-e-eu-fico-verde”. Não sei que idade ela teria, talvez uns 60, mas a questão não era a idade, e sim a postura. Há senhorinhas de 30. Ela era uma senhorinha. Sentou-se em uma cadeira à frente da minha baia, e pôs-se a usar o celular. Explicava para a pessoa do outro lado, a quem chamava de “bem” (tem coisa mais classe média???) que o “seu Aristides”, bom, reproduzirei:

– Ô “bem”, viu, eu tô aqui no hospital, vim trazer o seu Aristidê que levou um choque lá em casa, “bem” (…) não, “bem”, ele tá bem, viu, não precisa viM não que eu ele tá bem, o doutor já examinô, “bem”, fica aí em Guará. Eu tô aqui esperando, que eu vou passar no caixa pra pagar ele e depois vou levar ele no Tatuapé, “bem”, não preocupa não, viu (…) ele disse que a obra não vai parar não “bem” (…) se eu demorar, é que é hora do transito, “bem”.

Ouvi tudo isso com os olhos fechados e o corpo rijo, posição da qual só saí ao ouvir o médico chegar e abrir o cubículo, vencida pela curiosidade de ver o seu Aristides. Mas não conseguia, apenas escutava os conselhos médicos, que ele já estava bem, precisava tomar cuidado, essas coisas, até que finalmente sai de lá de dentro o seu Aristides.

Um senhorzinho bem básico, de roupa manchada de tinta, pele curtida e um bigodinho alla Cantinflas. Seu Aristides pegador. E sua senhorinha infinitamente satisfeita que ia amparando-o cheia de cuidados rumo ao Tatuapé, essa terra das delícias, da qual o “benhê” nem suspeitava, e a qual, certamente nunca a terá levado.

Quero ir pro Tatuapé! Ave “seu” Aristides!

Ah, os caminhos do tesão…


Depois de acompanhar os festejos do dia de São Cosme e São Damião na terça e presenciar um despacho para Iemanjá num chafariz ontem, aguardem para qualquer momento uma atualização psicografada deste blog.


Levantando a bola

Paolo Conte é uma mistura italiana de Roberto Carlos, em popularidade e Chico Buarque, em lirismo. Lembra-me o Ivon Curi também, e isso pra mim é um grande elogio.

Todo o filme italiano, ou de qualquer outra parte, mas que mencione a Itália, da década de 90 pra cá tem pelo menos uma canção dele, em geral a mesma, que é “Via con me”.

Alguma idade, elegância inata, voz rascante, chansonier. Mi piace.

A canção que traz Paolo Conte aqui ao meu espaço, é Parigi. Dois amantes, sob a chuva, em Paris, enlouquecidos de amor e desejo, procuram o hotel mais próximo, e nele mergulham um no outro. Não é uma fuck music. Mas é uma bela canção que fala disso que é fazer amor.

Lo so, lo so che questo non è cipria, è sorriso…
e sì, che non è luce, è solo un attimo di gloria
e riguarda me, che sono qui davanti a te sotto la pioggia
mentre tutto intorno è solamente pioggia e Francia…

Chissà cosa possiamo dirci in fondo a questa luce…
quali parole, luce di pioggia e luce di conquista…
hum… lasciamo fare a questo albergo ormai così vicino,
così accogliente, dove va a morir d’amore la gente…

Io e te, chissà qualcuno ci avrà pure presentato…
e abbiamo usato un taxi più un telefono più una piazza…

Io e te, scaraventati dall’amore in una stanza,
mentre tutto intorno è pioggia, piggia, pioggia e Francia…


Matinas Laudes

Como eu disse a um amigo que mencionou meus horários pouco ortodoxos: matinal, nem o cereal. Mas a aurora é um momento que me interessa.

A aurora é o instante em que o dia está vulnerável, como quando na savana africana os animais vão beber água no rio, e ali, abaixados, ficam, mesmo os maiores, à mercê de seus predadores. A alvorada é a hora em que o dia bebe água.

A aurora faz silêncio. Um silêncio tão doente do vizinho reclamar. O ar está parado e o frio é descomunal, faz recordar o mar, que leva a onda consigo, deixando a areia fria e desguarnecida.

É durante a aurora que as tropas de anjos são passadas em guarda, razão por que não temos ninguém por nós quando o sol está para nascer.

Qualquer atitude tomada nesse período é como uma ultrapassagem numa ponte.

E é por isso que sexo na alvorada é formidável. Em todas as suas modalidades.

Há a trepada matinal, que interrompe o sono porque um dos dois acorda, possivelmente para puxar a coberta. E sempre, sempre há um pau duro na aurora. Certo como os impostos. Dá-se antes de escovar os dentes, então você ainda não retomou da noite, a sua identidade. Quem está ali é seu corpo. Macio e quente. Aconchegante. Nada a dizer. Está combinado que vocês vão transar. Sem muito assunto, sem preliminares, só porque é assim que é.

Há a trepada que é para encerrar a noite. Ela envolve sono e um desejo infinito de não perder nem um minuto daquela pessoa. É uma briga contra a inquestionável necessidade fisiológica de dormir. Tem um quê de calma e contravenção, porque sente-se que não há de ser moralmente correto estar ali, movendo-se em busca do último orgasmo da noite, enquanto o mundo está prestes a acordar para, diligentemente, dar início às suas funções.

E, há a derradeira. Vocês vão se despedir em seguida. E você quer guardar tudo o que puder, e levar os pedaços daquela pessoa para fazerem companhia aos seus. Porque despedidas nos arruínam em pedaços. É dolorida, triste e há desespero nela. Não é incomum que haja lágrimas na trepada derradeira. Como se fosse o sol desvirginando a madrugada, quero sentir a dor dessa manhã.

Cuida para com os seus gemidos não acordar nenhum demônio, é provável que sob sua influência concupiscente você esqueça o trabalho, o dentista, as brigas, e não leve as crianças pra escola. Lembra que não haverá anjos disponíveis.

Na aurora, são só você e os seus demônios.


SOS

Escrevi um post chamado Matinas Laudes. Aí, fui acessar do celular pra consertar um erro, e – peças que o touch screen nos prega – simplesmente joguei tudo no lixo.

Claro que agora não consigo achar a lixeira do wordpress, de modo que sumiu mesmo! Nada pode ser tão definitivo! A não ser o número de títulos do Flamengo, por mais que eles chorem pelo que não tem direito.

Mas eu, tricolor, posso requerer a Taça das Bolinhas e pedir que, se alguém tiver recebido no e-mail (tem uns doidos que assinaram esse trem) faça e gentileza de me avisar, porque eu gostaria de obter o texto de volta. Ah! Serve também se alguém souber me apontar a maldita lixeira.


Lira

São Paulo. Ninguém sabe de mim, ninguém me vê. Entretanto, há sexo escondido em cada esquina. Perigo iminente. Devoramento provável. Autofagia. Gosto de vagar por São Paulo. Um sentimento heavy. Like a rolling stone.

Preciso desconectar, uma esquina se aproxima.


Conjecturas

Tesão é um substantivo comum de dois gêneros, mas, para além da semântica, cada sexo experiencia isso de modos que, pelo visto, diferem bastante.

E é muito incômodo saber que eu não posso sentir o que o meu parceiro sente. Que eu nunca vou saber. Que somos bipartidos nessa, e talvez POR ESSA experiência vital.

Um dia eu conversava com um amigo que é cego de nascença, sobre como ele lidava com a ausência de um referencial tão importante como as cores. Ele dizia que as cores não faziam tanta falta, mas que ele ficava muito curioso de entender como eram algumas coisas que misturavam cor e textura. Por exemplo, ele me perguntou: como é a nuvem?

Então eu passei horas descrevendo cumulus, nimbus e extratos, peguei um chumaço de algodão, mencionei o algodão doce, fiz o diabo, e ele disse que tinha uma vaga idéia, mas cuja aplicabilidade era tão improvável, que ele continuava confuso, até porque lhe faltava a dimensão do que pode ser o céu, e portanto de como estes algodões todos podem estar espalhados por lá.

Bom, se a gente continua essa discussão, ela vai parar em Sócrates, Wittgenstein e Cortazar. Aquela história de que só é possível descrever um objeto, mas nunca apreende-lo. Por mais perfeita que seja a sua descrição de uma cadeira, se você disser que ela é branca, de ferro e vime, tem um arranhado, e borrachinhas nos pés, você vai estar dizendo como a cadeira se parece, mas não o que de fato é a cadeira. Filosofia da Linguagem, ontologia, o escambau. Mas como este não é um comentário do sagaz Pior Homem do Mundo no Pequenos Delitos, vou deixar de falação e dizer a que vim.

Tal qual meu querido amigo cego, não consigo alcançar o que seja o tesão masculino, mas moooorro de vontade de saber.

Saber qual é a sensação correspondente em um homem, se de algum modo eu lhe desperto desejo. Como o corpo dele reage ao comando indiscutível que sua mente lhe dá, de que precisa me tocar. Como é para ele, se a gente se beija com calma e fundo até minh’alma se sentir beijada? Como é se de repente, no meio da roda viva, com os transeuntes por testemunha, a gente continua abraçado e a minha mão, pousada levemente sobre a perna dele, se lhe aproxima da virilha e ali se detém, inocentemente. O que se passa no corpo dele se subitamente os sons e luzes externos se apagam e somos só nós, num pedaço surdo de universo, como no Aleph de Borges, um Aleph de desejo. O que se passa, fisiologicamente, quando, nesse momento, ele se dá conta de que precisamos sumir dali, mas um torpor o impede de tomar qualquer providência que não seja me beijar e num esforço enorme para não atentar ao pudor, ele mantem uma mão caprichosamente firme nos meus quadris, e com a outra acaricia minha nuca como se ela fosse o legítimo representante de todo o meu corpo. Como reage o seu próprio corpo quando por uns segundos ele não consegue lembrar do nome dele? Que se passa com este homem se eu digo ofegante que eu o quero, e quero naquele momento, e minhas mãos se tornam mais pesadas na perna dele? O que acontece quando ele nota que se não ficarmos sozinhos agora, ele vai morrer? Como é que se dá a decisão de que nada mais importa, de que se dane a porra toda. Porque ele quer a mim, e sob nenhuma hipótese vai deixar de me ter?

Eu sei o que eu sinto em cada etapa deste processo. Mas… como é para ele?

Como são as nuvens? How high is the sky?


Nuit

Eu, eu ando de passo leve pra não acordar o dia.

Sou da noite, o companheiro mas fiel que ela queria.

(Raul Seixas)


namastê

De repente me deu vontade de não desejar nada. Nem ninguém.

De ser livre. Totalmente livre, para usufruir sem apêgos daquilo que a vida me trouxer. Incluindo as pessoas e seus corpos deliciosos, porque nunca se sabe, né, o que a vida trará.

Estou prestes a virar budista.