Oráculo

Muita gente costuma ler a bíblia, consultar o horóscopo ou as pérolas de sabedoria que cabem em livrinhos que mal ocupam espaço na bolsa. Eu, de minha parte, tendo a achar que o século XX tem dois oráculos: Cazuza e Rubem Braga. Está tudo lá.

E foi assim que neste momento de perplexidade e frustração, fui beber na fonte de Rubem Braga, e encontrei um resumo das minhas projeções, e, por que não, ainda que doloroso, o encerrar de um capítulo.

E tudo em crônicas de um mesmo livro, o Borboleta Amarela, que está dentro do 200 crônicas escolhidas.

(…)
Eu fiquei tão feliz que me nasceu uma flor na lapela e uma namorada no braço; e marchava entre árvores feéricas. Quando ouvi os primeiros tiros, nós todos deitamos no chão e respondemos alegremente as metralhadoras derrubavam flores, mas as flores viraram pássaros e saíram voando ate conseguirem formar no céu a palavra Paz; então nos levantamos rindo e nos abraçamos com aleluias. (…) Então tivemos a consciência de que estávamos sendo televisionai minha namorada se disfarçou numa jovem casuarina; sentei-me no chão apoiei a cabeça no seu tronco e adormeci. Quando acordei, ela era outra mulher e passava a mão na n cabeça e me dizia: “agora eu me chamo Teresa”. Eu não quis perguntar por quê; tive receio de que ela me contasse alguma coisa triste e me ergui dizendo rapidamente: “vamos ao Pavilhão La Fiesta”(…) Ela, porém, fez um sorriso de dúvida, ou de pena, e partiu. Quando olhei em torno vi que não havia mais ninguém. Eu estava sozinho na penumbra e no silêncio; sentei-me em uma pedra e fiquei apenas olhando uma parede cinzenta, uma parede uma parede lisa, triste. Uma parede.

(Quermesse, p.148)

(…)
No oitavo dia sentimos que tudo conspirava contra nós. Que importa a uma grande cidade que haja um apartamento fechado em alguns de seus milhares de edifícios; que importa que lá dentro não haja ninguém, ou que um homem e uma mulher ali estejam, pálidos, se movendo na penumbra como dentro de um sonho? Entretanto a cidade, que durante uns dois ou três dias parecia nos haver esquecido, voltava subitamente a atacar. O telefone tocava, batia dez, quinze vezes, calava-se alguns minutos, voltava a chamar; e assim três, quatro vezes sucessivas.

Alguém vinha e apertava a campainha; esperava; apertava outra vez; experimentava a maçaneta da porta; batia com os nós dos dedos, cada vez mais forte, como se tivesse certeza de que havia alguém lá dentro. Ficávamos quietos, abraçados, até que o desconhecido se afastasse, voltasse para a rua, para a sua vida, nos deixasse em nossa felicidade que fluía num encantamento constante.

Eu sentia dentro de mim, doce, essa espécie de saturação boa, como um veneno que tonteia, como se meus cabelos já tivessem o cheiro de seus cabelos, se o cheiro de sua pele tivesse entrado na minha. Nossos corpos tinham chegado a um entendimento que era além do amor, eles tendiam a se parecer no mesmo repetido jogo lânguido, e uma vez, que, sentado, de frente para a janela por onde se filtrava um eco pálido de luz, eu a contemplava tão pura e nua, ela disse: “Meu Deus, seus olhos estão esverdeando”:

Nossas palavras baixas eram murmuradas pela mesma voz, nossos gestos eram parecidos e integrados, como se o amor fosse um longo ensaio para que um movimento chamasse outro: inconscientemente compúnhamos esse jogo de um ritmo imperceptível, como um lento bailado.

Mas naquela manhã ela se sentiu tonta, e senti também minha fraqueza; resolvi sair, era preciso dar uma escapada para obter víveres; vesti-me lentamente, calcei os sapatos como quem faz algo de estranho; que horas seriam?

Quando cheguei à rua e olhei, com um vago temor, um sol extraordinariamente claro me bateu nos olhos, na cara, desceu pela minha roupa, senti vagamente que aquecia meus sapatos. Fiquei um instante parado, encostado à parede, olhando aquele movimento sem sentido, aquelas pessoas e veículos irreais que se cruzavam; tive uma tonteira, e uma sensação dolorosa no estômago.

Havia um grande caminhão vendendo uvas, pequenas uvas escuras; comprei cinco quilos. O homem fez um grande embrulho de jornal; voltei, carregando aquele embrulho de encontro ao peito, como se fosse a minha salvação.

E levei dois, três minutos, na sala de janelas absurdamente abertas, diante de um desconhecido, para compreender que o milagre acabara; alguém viera e batera à porta, e ela abrira pensando que fosse eu, e então já havia também o carteiro querendo o recibo de uma carta registrada, e quando o telefone bateu foi preciso atender, e nosso mundo foi invadido, atravessado, desfeito, perdido para sempre — senti que ela me disse isso num instante, num olhar entretanto lento (achei seus olhos muito claros, há muito tempo não os via assim, em plena luz), um olhar de apelo e de tristeza onde entretanto ainda havia uma inútil, resignada esperança.

(Os Amantes, p.164)

(…)
Com franqueza, não me animo a dizer que você não vá. Eu, que sempre andei no rumo de minhas venetas, e tantas vezes troquei o sossego de uma casa pelo assanhamento triste dos ventos da vagabundagem, eu não direi que fique.

Em minhas andanças, eu quase nunca soube se estava fugindo de uma coisa ou caçando outra. Você talvez esteja fugindo de si mesma, si mesma caçando; nesta brincadeira boba passamos todos, os inquietos, maior parte da vida – e às vezes reparamos que é ela que se vai, está sempre indo, e nós (às vezes) estamos apenas quietos, vazias, parados, ficando. Assim estou eu. E não é sem melancolia que me preparo para você sumir na curva do rio – você que não chegou a entrar na minha vida, que não pisou na minha barranca, mas, par um instante, deu um movimento mais alegre à corrente, mais brilho às espumas e mais doçura murmúrio das águas. Foi um belo momento, que resultou triste, mas passou.

Apenas quero que dentro de si mesma haja, na hora de partir, uma terminação austera e suave de não esperar muito; de não pedir à viagem alegrias muito maiores que a de alguns momentos. Como este, sempre maravilhoso, em que no bojo da noite, na poltrona de um avião ou de a trem, ou na convés de um navio, a gente sente que não está deixando umas uma cidade, mas uma parte da vida, uma pequena multidão de caras e problemas e inquietações que pareciam eternas e fatais e, de repente, somem como a nuvem que fica para trás. Esse instante de libertação é grande recompensa do vagabunda; só mais tarde ele sente que uma pessoa feita de muitas almas, e que várias, dele, ficaram penando na cidade abandonada. E há também instantes bons, em terra estrangeira melhores ~e o das excitações e descobertas, e as súbitas visões de beleza sonhadas. São aqueles momentos mansos em que, de uma j anela ou da mesa de um bar, de repente, a cidade estranha, no palor do crepúsculo, respirar suavemente como velha amiga, e reconhece que aquele perfil de casas e chaminés já é um pouco, e docemente, coisa sua.

Mas há também, e não vale a pena esconder nem esquecer isso, aqueles momentos de solidão e de morno desespero; aquela surda saudade que não é de terra nem de gente, e é de tudo, é de um ar em que se fica mais distraído, é de um cheiro antigo de chuva na terra da infância, de qualquer coisa esquecida e humilde – torresmo, moleque passando bicicleta assobiando samba, goiabeira, conversa mole, peteca, qualquer bobagem. Mas então as bobagens do estrangeiro não rimam com a gente, ruas são hostis e as casas se fecham com egoísmo, e a alegria dos outros que passam rindo e falando alto em sua língua dói no exilado como bofetadas injustas. Há o momento em que você defronta o telefone na mesa da cabeceira e não tem com quem falar, e olha a imensa lista de nomes desconhecidos com um tédio cruel.

Boa viagem, e passe bem. Minha ternura vagabunda e inútil, se distribui por tanto lado, acompanha, pode estar certa, você.

A viajante, p.159

(…)
Mas essa conversa de rolinha, vocês comprendem, é para disfarçar meu desaponto pelo sumiço da borboleta amarela. Afinal arrastei o desprevinido leitor ao longo de três crônicas, de nariz no ar, atrás de uma borboleta amarela. Cheguei a receber telefonemas: “eu só quero saber o que vai acontecer com essa borboleta”. Havia, no círculo das pessoas íntimas, uma certa expectativa, como se uma borboleta amarela pudesse promover grander proezas no centro urbano. Pois eu decepciono a todos, eu morro, mas não falto à verdade: minha borboleta amarela sumiu. Ergui-me do banco, olhei o relógio, saí depressa, fui trabalhar, providenciar, telefoar… Adeus, pequenina borboleta amarela.

(A Borboleta Amarela, p. 170)

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Sobre mistakegirl

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