Cepa

Correm na minha família duas histórias que, em que pesem os ares folclóricos, são verídicas.

Eram os idos dos anos 30, na tradicional Campos dos Goytacazes, cidade pequena porém decente do estado do Rio de Janeiro e a jovem Nancy ia se casar. Como mandava o costume correram os proclamas e tanto o enxoval quanto os doces a serem servidos na festa foram expostos por um dia inteiro no salão nobre do Palácio de Cultura da cidade.

Mas na casa de minha bisavó, mãe da noiva, o assunto era outro. Nancy era a primeira das cinco irmãs a se casar, e nada podia acalmar as moças que elocubravam freneticamente sobre a noite de núpcias que se aproximava. Entre penalizadas e divertidas, as irmãs anteviam um porvir que certamente chegaria para cada uma delas.

Chegou a noite, o enlace foi rigorosamente dentro do desejado, os noivos foram fotografados ao lado de um grande jarro de gladíolos e então despediram-se, felizes. Mas quem observou com atenção, terá notado olhar cúmplice e aflito entre as irmãs.

Passada a lua-de-mel à bordo de um cruzeiro para Buenos Aires, como era de bom tom, minha bisavó e minhas tias-avós foram receber o casal no pôrto do Rio de Janeiro, onde o jovem marido assumiria suas funções de bacharel.

Abraços efusivos, distribuição de peliças porteñas, novidades sobre as últimas modas na Paris dos trópicos. Os senhores passaram ao fumoir, as senhoras ao licor e as moças foram finalmente deixadas sozinhas, e nada mais do que o olhar inquisitivo das irmãs solteiras foi necessário para que Nancy, compreensiva, descrevesse, sucintamente, sua lua de mel:

– Manas, enfrentei com galhardia.

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O matrimônio de Nancy, a despeito de toda a doçura de Tio Alarico – a qual cheguei a testemunhar – foi sempre marcado por uma flagrante frieza e produziu apenas um filho, tão querido quanto problemático.

O estigma de uma noite de núpcias apenas enfrentada parece ter determinado não só este casamento como o futuro de Virgínia, irmã mais próxima de Nancy, que preferiu a beatice às núpcias e gabava-se de que a máxima intimidade a que se permitiu com um moço foi em certa ocasião, acenar para ele com seu lencinho, da janela – reparem a ousadia – de seu próprio quarto!

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O tempo, como é de seu hábito, passou. E uma a uma as irmãs foram se casando, à exceção de Virgínia, para sempre traumatizada.

E casou-se também, Elena, a irmã mais velha de quem eu viria a ser neta.

Não tive a felicidade de conhecer esta avó e nem seu marido, meu avô Aloyísio. Mas sou parecida com ela a ponto de ser reconhecida na rua, por velhinhas emocionadas, quando vou a Campos. Então é quase como se fôssemos íntimas. Pois além desta senhorinha, a família, impressionada com nossa semelhança sempre me conta histórias como essas que coleciono vida afora, forjando meu baú de prata.

Contam que este foi um casamento muito feliz. Existia entre eles uma franqueza incomum e extensiva aos filhos, inclusive quanto a assuntos sexuais. Meu pai, o filho mais velho, lembra-se de ouvi-la esgueirar-se para o banheiro no meio da noite para fazer a tradicional ducha vaginal pós coito, método contraceptivo disponível à época. E era conhecido e notório o fato de que o irmão mais novo de meu pai, temporão, só foi concebido porque a presença dos sogros na casa intimidou minha avó que teve vergonha de ir proceder à ducha. E assim nasceu Sílvio, que recebeu a alcunha de “o filho da ducha”.

Este casal extraordinário tirava férias conjugais uma vez por ano. Usavam como pretexto o fato de que meu avô havia sido tísico em tempos de menino e que era de bom alvitre fazer sua estação de águas anualmente. Ele ia para Campos dos Jordão ou Caxambu (hábito que meu pai traz consigo) e ela ia para onde lhe desse na veneta. As crianças ficavam com tia Virgínia, que não tendo sido galharda o suficiente para parir os seus, cuidou dos sobrinhos a vida toda, até a minha geração.

Como se vê, minha avó não era caso de galhardia, mas de uma boa vontade infinita…

Pois um dia, novamente nas bodas de alguém, vovó estava sentada à uma mesa a conversar com as irmãs. As crianças batiam o bafo ou cantavam o passaraio e meu avô, normalmente muito circunspecto, acabava-se de dançar o foxtrote com uma certa moça.

Foi quando aproximou-se uma senhôra, de cujas intenções não duvido, com ares bondosos e conspiratórios e chamou a atenção de minha avó para o espetáculo que vovô, já sem a gravata, dava, na pista de dança.

Pois dona Elena virou-se para olhar, sorriu, e disse, para horror da boa sociedade campista:

– Cão que enjeita osso, pau nele!!

E continuou animadamente conversando, para seu próprio gáudio, e o de todos nós, que temos o orgulho de provir desta cepa.

Este casamento durou até que a morte os separou.

Mas eu conto para vocês. Porque minha homenagem a meus avós, é fazê-los personagens de meu blog erótico.

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Sobre mistakegirl

Vaca profana por princípio e vocação... la leche buena toda em mi garganta, la mala leche para los puretas... Ver todos os artigos de mistakegirl

4 respostas para “Cepa

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