Conjecturas

Tesão é um substantivo comum de dois gêneros, mas, para além da semântica, cada sexo experiencia isso de modos que, pelo visto, diferem bastante.

E é muito incômodo saber que eu não posso sentir o que o meu parceiro sente. Que eu nunca vou saber. Que somos bipartidos nessa, e talvez POR ESSA experiência vital.

Um dia eu conversava com um amigo que é cego de nascença, sobre como ele lidava com a ausência de um referencial tão importante como as cores. Ele dizia que as cores não faziam tanta falta, mas que ele ficava muito curioso de entender como eram algumas coisas que misturavam cor e textura. Por exemplo, ele me perguntou: como é a nuvem?

Então eu passei horas descrevendo cumulus, nimbus e extratos, peguei um chumaço de algodão, mencionei o algodão doce, fiz o diabo, e ele disse que tinha uma vaga idéia, mas cuja aplicabilidade era tão improvável, que ele continuava confuso, até porque lhe faltava a dimensão do que pode ser o céu, e portanto de como estes algodões todos podem estar espalhados por lá.

Bom, se a gente continua essa discussão, ela vai parar em Sócrates, Wittgenstein e Cortazar. Aquela história de que só é possível descrever um objeto, mas nunca apreende-lo. Por mais perfeita que seja a sua descrição de uma cadeira, se você disser que ela é branca, de ferro e vime, tem um arranhado, e borrachinhas nos pés, você vai estar dizendo como a cadeira se parece, mas não o que de fato é a cadeira. Filosofia da Linguagem, ontologia, o escambau. Mas como este não é um comentário do sagaz Pior Homem do Mundo no Pequenos Delitos, vou deixar de falação e dizer a que vim.

Tal qual meu querido amigo cego, não consigo alcançar o que seja o tesão masculino, mas moooorro de vontade de saber.

Saber qual é a sensação correspondente em um homem, se de algum modo eu lhe desperto desejo. Como o corpo dele reage ao comando indiscutível que sua mente lhe dá, de que precisa me tocar. Como é para ele, se a gente se beija com calma e fundo até minh’alma se sentir beijada? Como é se de repente, no meio da roda viva, com os transeuntes por testemunha, a gente continua abraçado e a minha mão, pousada levemente sobre a perna dele, se lhe aproxima da virilha e ali se detém, inocentemente. O que se passa no corpo dele se subitamente os sons e luzes externos se apagam e somos só nós, num pedaço surdo de universo, como no Aleph de Borges, um Aleph de desejo. O que se passa, fisiologicamente, quando, nesse momento, ele se dá conta de que precisamos sumir dali, mas um torpor o impede de tomar qualquer providência que não seja me beijar e num esforço enorme para não atentar ao pudor, ele mantem uma mão caprichosamente firme nos meus quadris, e com a outra acaricia minha nuca como se ela fosse o legítimo representante de todo o meu corpo. Como reage o seu próprio corpo quando por uns segundos ele não consegue lembrar do nome dele? Que se passa com este homem se eu digo ofegante que eu o quero, e quero naquele momento, e minhas mãos se tornam mais pesadas na perna dele? O que acontece quando ele nota que se não ficarmos sozinhos agora, ele vai morrer? Como é que se dá a decisão de que nada mais importa, de que se dane a porra toda. Porque ele quer a mim, e sob nenhuma hipótese vai deixar de me ter?

Eu sei o que eu sinto em cada etapa deste processo. Mas… como é para ele?

Como são as nuvens? How high is the sky?

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Sobre mistakegirl

Vaca profana por princípio e vocação... la leche buena toda em mi garganta, la mala leche para los puretas... Ver todos os artigos de mistakegirl

5 respostas para “Conjecturas

  • Maria

    Ahhh, vim só pra dizer que eu tenho, eu tenho uma tatoo do Klimt lindaaa, rs

    Quanto ao post, não tenho muito q comentar. Compartilho das mesmas dúvidas…

    Bjs

  • marina

    quero ver a sua tatoo do klimt…

  • Juan da Marina

    seus textos são cheios de referências, prá alguém e prá ninguém ao mesmo tempo …
    mas de uma coisa eu tenho certeza, “Down in the Depths (on the Ninetieth Floor)”, não é uma música que fala de um arranha céu em New York.

  • Trodat

    hummmm…complicou. Eu até sabia o que comentar, mas citar Down in the Depths agora me deixou sem ação. Acho melhor a gente se concentrar na tatoo do Klimt primeiro para dar uma respirada…ufffff!!!!!

  • mistakegirl

    Maria! Não são muitas a ter um Klimt tatuado… onde e que obra?
    Marina, minha borboleta, ainda não tenho o Klimt, isso foi um comentário no blog da Maria… mas que não seja por isso, tatoos, há algumas, por aqui…
    Juanito, estou com o Trodat, sua citação me confundiu, mas só porque foi posta aqui. Se tivesse me mandado por e-mail, eu talvez percebesse melhor… Mas a propósito da minha postagem, de fato complicou…

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