Shangrilá

Esta ainda não é uma atualização psicografada. Mas foi por pouco, uma vez que já ia eu passando desta para a melhor.

Meu ofício envolve utensílios de consideravel poder letal. Raramente tenho problemas com eles, apesar de todo o meu estabanamento, mas hoje foi dia.

Vou poupá-los dos detalhes sangrentos e passar ao desfecho: acabei indo conhecer um pronto-socorro de São Paulo. E por que isso lhes há de interessar?

Bem, porque fiquei numa enfermaria cujos leitos eram separados por cortinas opacas e circulares e do cubículo ao lado do meu, saíam barulhos realmente intrigantes.

É difícil crer que tais coisas possam acontecer com uma só pessoa. Mas, acreditem, é pouco diante do que se passa comigo.

Vai daí que comecei a ficar nervosa, não pela situação em si, mas me deu um medo irracional de que alguém chegasse e abrisse aquela cortina e visse o que quer que se passasse ali dentro, que, a julgar pelo barulho não era nada lícito. Fiquei paralisada esperando os gritos indignados que decerto ouviria em breve, apavorada como se tivesse culpa no cartório.

Mas ninguém chegou, e em alguns minutos esgueirou-se pela cortina uma senhora. Uma senhora bem classe média, com sua bolsa de matelassê, unhas “renda” e cabelo “imédia-mais-uma-lavagem-e-eu-fico-verde”. Não sei que idade ela teria, talvez uns 60, mas a questão não era a idade, e sim a postura. Há senhorinhas de 30. Ela era uma senhorinha. Sentou-se em uma cadeira à frente da minha baia, e pôs-se a usar o celular. Explicava para a pessoa do outro lado, a quem chamava de “bem” (tem coisa mais classe média???) que o “seu Aristides”, bom, reproduzirei:

– Ô “bem”, viu, eu tô aqui no hospital, vim trazer o seu Aristidê que levou um choque lá em casa, “bem” (…) não, “bem”, ele tá bem, viu, não precisa viM não que eu ele tá bem, o doutor já examinô, “bem”, fica aí em Guará. Eu tô aqui esperando, que eu vou passar no caixa pra pagar ele e depois vou levar ele no Tatuapé, “bem”, não preocupa não, viu (…) ele disse que a obra não vai parar não “bem” (…) se eu demorar, é que é hora do transito, “bem”.

Ouvi tudo isso com os olhos fechados e o corpo rijo, posição da qual só saí ao ouvir o médico chegar e abrir o cubículo, vencida pela curiosidade de ver o seu Aristides. Mas não conseguia, apenas escutava os conselhos médicos, que ele já estava bem, precisava tomar cuidado, essas coisas, até que finalmente sai de lá de dentro o seu Aristides.

Um senhorzinho bem básico, de roupa manchada de tinta, pele curtida e um bigodinho alla Cantinflas. Seu Aristides pegador. E sua senhorinha infinitamente satisfeita que ia amparando-o cheia de cuidados rumo ao Tatuapé, essa terra das delícias, da qual o “benhê” nem suspeitava, e a qual, certamente nunca a terá levado.

Quero ir pro Tatuapé! Ave “seu” Aristides!

Ah, os caminhos do tesão…

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Sobre mistakegirl

Vaca profana por princípio e vocação... la leche buena toda em mi garganta, la mala leche para los puretas... Ver todos os artigos de mistakegirl

5 respostas para “Shangrilá

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