Rito de Passagem

A casa e suas pessoas já estavam sossegadas e o dia, dado por encerrado. Mas em mim, algo de inquieto permanecia.

Um banho, os cabelos molhados nos ombros e a maciez da tolha que me envolvia, saí a perambular pela casa e jardins. A pitangueira, o pequeno lago com fundo de mosaico português, a bacia de aguapés, os peixes, a luz amarela do poste da rua. Velhos conhecidos de outras noites solitárias, dolorosas e insones. Outras noites solitárias, desejosas e insones. Outras noites solitárias, saudosas e insones.

Em casa, fechada, despi-me da toalha e de uma rotina antiga. Olhei-me detida e longamente no espelho. Pernas, barriga, ombros, cabelos, olhos. Bem lá no fundo dos meus olhos.

Arrumei a cama grande com lençois de que gosto, cor de creme com uma estampa bem pouco densa em preto com flores, borboletas e alguns manuscritos em francês “sans enfer ni paradis”. E sobre este lençol sentei-me, pernas abertas, em frente ao espelho, solitária, dolorida, desejosa, saudosa, e insone.

Uma sensação de felicidade vindoura, de esperança persistente, me rondava, e, para celebrar o que viria, tive a idéia de nunca mais usar pijamas!

Lembrei-me de uma garrafinha pequena de conhaque, de dose individual, na cristaleira. Abri a tampinha e o cheiro delicioso me arrepiou. Cheiro, arrepio. Escorri o líquido alaranjado numa taça gordinha de cristal e voltei para meu posto em frente ao espelho, sobre o lençol de minha preferência. E ali me deixei ficar, nua, de pernas abertas, uma taça na mão e um brinde.

Beberiquei.

Pensava em nada. Minto. Pensava que poderia ter inventado um novo método de meditação, bem mais prazeroso e confortável que dobrar as pernas, manter a coluna ereta, etc…

Beberiquei.

Goles pequenos, sensoriais, sensuais. Deixei que meus dedos sentissem o líquido e que o líquido me embebesse os lábios, assimétricos, que ardiam. Os mamilos. Sem pressa. Sem tirar os olhos do meu reflexo. Estritamente comprometida comigo mesma e com o meu tempo.

Os dedos molhados em mim, enfiados, eu quente, macia, e úmida. Arrepios. Respeitando esse tempo, que era meu, não busquei o gozo, como sempre fazia, só briquei, e me olhei. Prometendo, oferecendo para mim mesma, aquilo que eu havia de ser. Que já era.

Marina, do Juan.

(Taí, Marina, eu queria ter te mandado de volta, mas não resisti… beijos meus, com conhaque, Mistake Girl)

Advertância
Melhor se lido ao som de Toquinho cantando o Soneto do Corifeu, de Vinícius de Moraes (ouça e leia, não veja o vídeo, que é cafona…)

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Sobre mistakegirl

Vaca profana por princípio e vocação... la leche buena toda em mi garganta, la mala leche para los puretas... Ver todos os artigos de mistakegirl

4 respostas para “Rito de Passagem

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