Frescobol

Em que momento o olhar feminino tornou-se de tal modo opressivo a ponto de, diante dele, um homem baixar seus próprios olhos?

O fato de uma mulher não ser mais, por definição, submissa, implica que ela seja necessariamente dominadora?

Mulheres lutaram muito para sair da posição passiva e vulnerável em que sempre estiveram. E é compreensível que na peleja tenham se sobreposto ao sexo masculino.

Se desde Gertrude Stein o caminho foi de crescente masculinização, se tantas mulheres abriram mão de uma sexualidade saudável, se minha mãe precisou queimar seu sutiã de ana ruga, agradeço profundamente e presto meu tributo a todas e a cada uma delas.

Mas eu – que fique claro – não preciso provar nada.

Não preciso mais provar que sou capaz de chefiar uma equipe, um país. Que sou capaz prover a mim e a meus filhos e até mesmo de trocar o pneu do meu carro. Suponho que a esta altura todos já saibam. Mas eu ser, como mulher, de tal modo capaz, requer em contrapartida, homens incapazes?

Serão necessários 10 mil anos de opressão feminina para que os homens se animem a redefinir o seu lugar?

Quando poderão, homens e mulheres, viver o amor libertário a que estão destinados? Isento de trocas mesquinhas, de dependências veladas, de imposições psicológicas.

Esse amor libertário que Chico cantou:

O terceiro me chegou como quem chega do nada,
ele não me trouxe nada também nada perguntou,
mal sei como ele se chama mas entendo o que ele quer,
se deitou na minha cama e me chama de mulher.
Foi chegando sorrateiro e antes que eu dissesse não,
se instalou feito um posseiro dentro do meu coração.

Será que a minha geração logrará vivenciar plenamente a sua feminilidade?

Os homens ao meu redor, acuados, me dão a dolorosa sensação de que não.

E sei que não sobretudo, porque noto, desgostosa, a quantidade de mulheres jovens que crêem e ensinam suas filhas que ser uma mulher moderna e exercer seu papel no mundo, é aproximar o comportamento feminino do masculino como forma de afirmação, de preferência, oprimindo-os no processo.

Essa falácia é tão insidiosa quanto silenciosa, e se traduz em coisas pequenas, como na crença de que uma mulher em posição de poder, ou para obter respeito, deve usar versões femininas de roupas masculinas, como terninhos, tailleurs e mixórdias outras. Como se as roupas milenarmente femininas, que respeitam e valorizam nossa anatomia, não tivessem credibilidade, porque femininas. Perceba a loucura no ato: afirmar seu poder de fêmea, negando aquilo que a caracteriza como uma!

É parte da mesma falácia, a adoção feminina de gestos e palavras xulas, em horas descabidas, como se parecer com os amigos de nossos maridos no vestiário do futebol de quinta feira, fosse nos dar alguma vantagem! Que mal havia em um homem entender que eu sou mulher, sou diferente dele, sou encanto onde ele é vigor, sou delicadeza onde ele é força? Que mal havia na deferência?

Por via das dúvidas, sigo observando atentamente, na esperança de ver um homem cujas atitudes não sejam definidas a partir das decisões e posturas de uma ou mais mulheres.

Observando, esperando, sonhando, desejando.

Nota sobre o vídeo:
Eu pretendia colocar a gravação com a Billie, que tem mais a ver com o espírito do texto, contudo, achei um vídeo de verdade, com a Ella cantando, e é sempre um prazer tão grande ver esse anjo ao vivo e a cores, que optei por este aqui, mesmo não gostando muito dessa fase dela, acho que é a daquele LP de Budapeste, ela me parece muito “aguda”… mas a canção e seu sentido são o principal, neste post…

Sobre mistakegirl

Vaca profana por princípio e vocação... la leche buena toda em mi garganta, la mala leche para los puretas... Ver todos os artigos de mistakegirl

9 respostas para “Frescobol

  • Juan

    não veio o link da ella. qual é??

  • mistakegirl

    Ué! Aparece pra mim…. é The man I love… o link é http://www.youtube.com/watch?v=ySszeu4H4QI

  • Trodat

    Cara!!! Na boa?!…você vai me matar e me expulsar deste blog, mas vou falar. Sabe o que conta na verdade? É o amor e a paixão. Não importa se a mulher é masculinizada ou o homem feminino demais, se a estrutura da familia mudou, se temos os meus, os seus e os nossos, se há uma mixórdia geral. O ser humano sempre se adapta. O que conta é a centelha da paixão. Uma ocasião me apaixonei louca e platonicamente por uma sapata furiosa que só faltava me dar porrada. Mas para mim era o ser mais doce e feminino que eu jamais havia encontrado. Durante tempos a mulher da minha vida. É preciso estar sempre disponível para a paixão e se apaixonar sempre. Que seja por 10 minutos, 10 dias ou 10 anos. Que seja por várias ou várias vezes pela mesma. Não importa quem, o que ou como ela seja ou haja. Só importa mesmo a paixão.

    Não me lembro quem escreveu, mas nunca me esqueci desses versos:

    No fundo o que há é a paixão
    Paixão de te pertencer
    Sem nunca poder te usar
    Pois queres amar e sofrer
    E eu quero apenas sonhar.

    Desculpe o longo comment, não sei se me fiz entender ou se tem algo a ver com seu texto. Talvez não. Acho que sou um romântico ingênuo. Segue o link da canção. Talvez explique melhor.

  • Marina

    Trodat, me apaixonei 30 segundos agora por vc…rs. Beijo !

  • mistakegirl

    er…. eu também…. mas achei que pegava mal me declarar assim…. mas já que a Má falou…..

  • mistakegirl

    Mas olha só, quero dizer que mantenho o que escrevi. Só não quero usar esse espaço pra explicar como e porque meu ponto de vista se opõe ao seu, em que pese toda a beleza do que escreveu… faremos isso numa outra ocasião, porque uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa…

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