Eva

Você aí, que me lê. Quando se apercebeu de que havia no mundo tal coisa como sexo?

Vocês sabem como sou dada a reminiscências… essa remonta aos meus cinco anos. Brincava com um menino um pouquinho mais velho, que morava no meu prédio. Os mais velhos, além de nos rejeitarem, como é comum acontecer, ainda diziam: a Mistakezinha é namoradinha do fulaninho!

Bom, um dia, eu e o fulaninho estávamos no quarto brincando e eis que ele, em sua loirice sardenta, me pergunta assim, na lata: e aí? vamos fuder?

TCHARAM!

A pobre da Mistakezinha que ainda não era uma rematada sacana, ficou atônita diante desta putaria inaugural. Eu não tinha a menor idéia do que pudesse ser aquilo, mas na hora soube que era alguma coisa muito séria, entendi inequivocamente, aos cinco anos, que a partir de então estava expulsa do paraíso.

Diante da minha cara, o fulaninho, disse: ah vai! você não sabe o que é fuder? como acha que nasceu? o seu pai ficou em cima da sua mãe e eles fuderam, né? Aí o menino me pôs deitada e se deitou sobre mim e ficou tendo uma coisa parecida com um ataque epilético.

Foi demais pra mim. Comecei a chorar e acho que ele, com medo das repercussões do caso, fingiu que nada tinha acontecido e foi jogar Genius com os garotos no outro quarto. Eu fiquei ali, chorando, desconsolada, sentindo aos cinco anos, o peso de saber que não poderia mais brincar no Éden. Toda errada essa menina.

Dali a poucos meses eu fazia 6 anos. A pessoa nascer em junho é uma espécie de maldição porque durante a sua infância inteira vão fazer festas juninas no seu aniversário e mesmo depois de adulta, sempre vai ter um infeliz pra sugerir uma.

Pois é, nos meus 6 anos houve uma festa junina. Com casamento. E quem eram os noivos? Quem, quem, quem??? Mistakezinha e o fulaninho sardento, claro. Tudo pronto. Barraquinhas, vestido caipira, pescaria, lanternas coloridas e o povo começou a chegar e dizer: aííííí heinnnnn….. vai casar!

E a noivinha aqui começou a ficar cabreira. E lá pras tantas já chorava a plenos pulmões em franco desespero, agarrada à perna da mãe.

Sinto ainda, muito vívidamente, o meu desespero. Minha mãe, angustiada com minha choradeira, que a impedia inclusive de receber as pessoas, sentou comigo e perguntou o que é que estava havendo, e eu, totalmente desolada disse: eu não quero casar e ir morar longe de você e ter que fuder o fulaninho.

TCHARAM TCHARAM TCHUDOM PAPARAPÁPÁ!!!!!!!!!

É preciso explicar que a minha mãe é daquelas que crê que os filhos sempre foram, são e serão virgens, e qualquer coisa que aponte para o contrário disso pode trazer graves conseqüências ao seu frágil psiquismo. Ela não é exatamente moderna. E a admiro mais ainda pelo esforço que ela deve ter feito para não ter um ataque histérico e bater com a cabeça do menino na parede. Possivelmente se concentrou na filha apavorada.

Depois das perguntas de praxe (quem te disse isso? que história é essa? nunca mais diga essa palavra!) ela me explicou que era um casamento de mentirinha e que eu só ia casar depois de mocinha e que os nenéns não apareciam assim, que o que acontecia, na verdade, era que depois que as pessoas grandes se casavam, elas se gostavam muito e o papai colocava uma sementinha na barriga da mamãe e aí nascia o neném.

Ah tá. Por via das dúvidas preferi não casar. E por via das mesmas dúvidas, fui proibida de sequer descer no mesmo elevador que o sardentinho.

E depois disso, toda a semente que achava dentro de casa, de mamão, uva, e afins, eu dava um jeito de pôr dentro da calça da minha mãe, na esperança de ter mais um irmão. Não rolou.

O caso é que tais episódios me deram ciência de que existia sexo. E esse conceito nasceu atrelado à sensação de perigo, pecado, e de indesejabilidade. E também, entendi que sexo requeria outro ser. Fosse o menino loiro e sardento, fosse o marido que eu teria quando grande.

Não muito tempo depois, descobri a duchinha do bidê. E acho que não entendi imediatamente que as coisas tinham a ver uma com a outra. O chuveirinho era prazer. E era prazer solitário. Se sexo precisava de alguém, prazer não precisava não!

Mas então, como eu já estava longe do paraíso, percebi que essa era uma maçã a se saborear escondida.

E daí pra cá foi um pulinho.

Sobre mistakegirl

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5 respostas para “Eva

  • Trodat

    kkkkkkkkkkk

    Garota! Você é mesmo boa nisso. É um dos textos mais instigantes e divertidos que já li sobre o assunto. Você conseguiu abordar com extrema leveza toda a perplexidade com que nos deparamos ante a descoberta do sexo e da vida.

    E ao mesmo tempo é de uma sensibilidade única. Veja só:

    “(…) esse conceito nasceu atrelado à sensação de perigo, pecado, e de indesejabilidade (…).”

    “(…) percebi que essa era uma maçã a se saborear escondida.”

    Você captou a essência do sentimento humano. Da atração e rejeição. Do claro e escuro. Do éden e do inferno. A dicotomia típica da infância que permanece conosco por toda a vida. Pois não conseguimos viver sem os dois.

    Estou encantado.

  • mistakegirl

    Pô, querido. Obrigada. É muito bom poder trocar essas idéias, e perceber que as pessoas pegam os pontos, certinho… muito bom, isso.

  • ela, agaijota

    caríssima,
    eu estava com saudade daqui.
    como você mesma notou, andamos sumidos – um excesso de trabalho desconcertante, tempo pra quase nada muito divertido.
    mas hoje, circunstancialmente sozinha em casa, depois de publicar uma nova série como resposta ao seu recado, desatei a lê-la, com água na boca, não só porque o assunto é sexo, não só porque fico com muito tesão por você (ou mais propriamente por esta você-que-escreve), mas também porque por uma curiosa ironia, fui ter um diário pornográfico sem palavras, eu que costumo escrever como falo: pelos cotovelos.
    nem sei bem porque estou dizendo isso aqui, enfim.
    talvez porque esteja emocionada com sua destreza cirúrgica, com seu humor saboroso, e com a dor revelada aqui e ali, na espessura do tecido, nas frestas.
    talvez seja só mais um meu falatório, entre-tantos.
    ou talvez porque eu goste de palavras como de pessoas, na mesma derramada desmesura.
    e sorrio aqui sozinha, como se a conhecesse.

    • mistakegirl

      Menina, que coisa legal isso. Emocionar é a coisa mais autêntica que posso imaginar fazer com outra pessoa. Ë a emoção inaugural. Adoro também as palavras que não diz no seu diário. Entendo-as todas. O seu corpo delicado numa rede de pequenos corações negros, o seu “mostrar” invulgar. Também te conheço. E parafraseando Arnaldo Antunes, “(…) a dor, é minha só, não é de mais ninguém, aos outros eu devolvo a dó, eu tenho a minha dor”… venha sempre.

  • Maria

    Realmente Mistake, vc se supera nesses textos.

    Minha experiência sempre foi muito lúdica… brincando de casinha, depois pique esconde, depois gato mia… e por aí vai! rs…

    bjs

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