The Doors of Perception, ou… come on baby, light my fire

Perguntaram-me ontem por que eu usava drogas. Não me considerei na obrigação de responder. Tenho o hábito de não argumentar com quem sei que não detém a arte de compreender, mesmo discordando. É um princípio meu, mesmo me sentindo injustiçada, deixar a pessoa cheia da razão que ela acha que tem. Isso faz de mim alguém muito pouco dada a discussões.

O caso me fez lembrar de uma vizinha que julgava uma temeridade o meu hábito de vagar sozinha à noite pelas ruas do Rio de Janeiro. Ela sempre me advertia de que havia gente que fumava maconha e podia me fazer uma maldade. Eu também não argumentava com ela.

A resposta que não dei à inconveniente e curiosa senhora de ontem, a fornecerei aqui. Simplesmente pelo fato de que este é o meu espaço, e a coisa toda é muito democrática. Eu digo o que quero, lê quem quer, ignora quem tem juízo.

Não fumo cigarro, não tomo calmantes, estimulantes, nem café, bebo muito pouco, jamais usei cocaína, crack ou heroína. Por razões de saúde, tive uma superdosagem de morfina, e achei a pior coisa que me aconteceu. Não gosto de música pop, nem coreografias de massa. Não vejo programas vespertinos de TV não leio a Caras nem livros de auto-ajuda. Não me interessa estar entorpecida, nem falsamente estimulada.

Não tenho nenhum vício, a não ser por chocolate, que, admito, praticamente substitui todos esses acima.

Mas gosto de estados de consciência alterados. Interessam-me experiências que mexam com a minha percepção. Talvez eu tenha lido muito Timothy Leary, Aleister Crowley, Carlos Castañeda, Kerouac e até mesmo Raul Seixas. Enfim, tenho uma relação quase que filosófica com este tipo de droga. Aliás, quase não, é mesmo filosófica, não é à toa. Sei o que estou fazendo, e faço porque quero.

Minha droga de preferência é a maconha. E numa situação festiva, maconha trançada com haxixe. Impressionam-me os amigos que fumam todo o dia, o dia inteiro, e têm que dar conta de seus afazeres, e dão! Eu não seria capaz. Porque eu piro mesmo. E é por isso que me interessa. Tem que ser eventual.

Gosto de olhar o verde e ele ser tão verde que parece me infiltrar. Gosto do surto de lucidez, das estrelas ao meu alcance, das conclusões realmente brilhantes. Gosto de libertar este meu corpo sempre restrito por tantas dores. Emociona-me notar que ele sabe exatamente quais os seus limites e caminhos, que ele tem memória e consciência. Que ele só dói quando eu, munida disto que convencionou-se chamar razão, tento intervir em seus limites. Fico maravilhada de poder dar um salto triplo mortal carpado e dançar literalmente horas sem parar. Adoro poder me libertar da razão imperiosa que aprisiona e avilta.

Divirto-me diante do descompasso entre a velocidade do meu pensamento e a minha incapacidade de expressar tudo o que estou pensando.

E gosto sobretudo da emoção escrachada, da entrega rasgada, da ausência de pudores.

Do desejo, de entregar meu corpo livre, sem qualquer vergonha da celulite que me martiriza no meu dia a dia. Como se ela fosse um elemento legal no jogo, porque minha, porque eu. Gosto do modo como sou capaz de erguer meus quadris, e me abrir e me oferecer, de ter a percepção total do que está acontecendo dentro de mim, uma sensação que não é permeada pelo racionínio, por questões pertinentes ao outro, por pudor, pelo tempo, por toda a baboseira que nos restringe o prazer.

Gosto do gozo abusado. De trepar com as entranhas. De ser Dionísio.

Sou do tipo que fuma maconha e representa perigo aos transeuntes noturnos da cidade. Pois me dá uma vontade irresistível e irrefreável de fazer maldade. A maldade de contar para eles que tem alguém ali dentro que é bem melhor. A vontade de fumar um beck com a senhorinha gentil que assiste Raul Gil, só pra ver o que acontece.

Mas então eu peço piedade, Senhor, piedade, pra essa gente careta e covarde.

La mala leche para los puretas.

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Sobre mistakegirl

Vaca profana por princípio e vocação... la leche buena toda em mi garganta, la mala leche para los puretas... Ver todos os artigos de mistakegirl

Uma resposta para “The Doors of Perception, ou… come on baby, light my fire

  • Maria

    “Gosto de olhar o verde e ele ser tão verde que parece me infiltrar. Gosto do surto de lucidez, das estrelas ao meu alcance, das conclusões realmente brilhantes.”

    Eu curto, às vezes.

    bjs

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