Conquista

Devo dizer que aqui onde moro há muitas lagartixas. Vivo em harmonia com elas, a algumas até nomeei, a exemplo de Mabel e Pedro Henrique. Elas, no entanto, não logram conviver entre si na mesma paz.

São uns bichos beligerantes que vivem a se alvoroçar uns para os outros. E eu, na minha infinita incompetência para coisas úteis não posso deixar de observar atentamente e nem manter-me incólume diante de tais embates.

Não raro estou quieta assistindo a um cada vez menos inocente capítulo da novela – não sabias? sou noveleira notória – e com um canto de olho alcanço uma que surge ao longe na parede, e já sei, por aquela postura empertigada, que não estamos sozinhas.

Basta um apreensivo girar de olhos e logo focalizo a talzinha que causou o efeito. Começa então uma corrida desembestada como dois bisões, e esta altura já estou francamente encolhida sob a coberta. São barraqueiras estas lagartixas.

Dizem os entendidos na vida das lagartixas que elas são muito territorialistas e que brigam por aquele espaço na minha parede descascada, o que posso compreender já que além das lagartixas, toda a sorte de insetos parece ter particular predileção pela minha humilde moradia.

A mim no entanto, que se não obtive de Deus o talento para compreender as razões das lagartixas, certamente sei perceber quando há tensão sexual no ar, ninguém convence que aquilo não é uma investida sadomasoquista das ditas que ficam ali se bicando até que uma cede e eu não sei o que acontece então porque quando finalmente descubro a cabeça, elas já foram cada uma para um lado como se uma, à guisa de toureiro, desse um olé na outra.

Custa-me olhar porque em sua determinação belicosa, desconfio sempre que uma vai comer a cabeça da outra e isso seria nefasto para o meu relativamente inexperiente coração, pois considerando que moro no mato é preocupante a quantidade de homicídios sexuais que presencio, da aranha negra à louva-deus, passando por uns outros bichinhos menores que não aparecem no Discovery Channel mas que asseguro serem assassinos sexuais perigosíssimos e temo que tudo isso me influencie. Sou muito sensível a essas coisas de peleia sexual, sabe?

A grande coisa que isto mostra é o quão pouco as novelas tem conseguido prender a atenção das pessoas.

Ao contrário das lagartixas. Que podem ser realmente excitantes.

Sobre mistakegirl

Vaca profana por princípio e vocação... la leche buena toda em mi garganta, la mala leche para los puretas... Ver todos os artigos de mistakegirl

4 respostas para “Conquista

  • Trodat

    Pois eu sempre achei que o lance das lagartixas era gastronômico e não sexual. Ver aquele bichinho lá parado, congelado, frio, com o olhar atento no mosquito que está a uma distância para mim inalcançável e, de repente, num bote rápido e certeiro, engoli-lo de uma vez só e sair rápido, guloso e orgulhoso para, quem sabe, saboreá-lo pouco a pouco….acho que um dia ainda morro pela boca.

  • mistakegirl

    Há muitos pecados em questão, aqui. Comete o da Gula a lagartixa catatônica hipnotizando sua presa. Mas eu aqui refiro-me ao da luxúria aliado ao da ira (que bela combinação!) da lagartixa em relação à sua semelhante, e não à sua presa. Há ainda o da Cobiça, que cometo eu observando a cena…

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