Blasfemias

Dou-lhes o direito de rir com o que ora lhes dou a saber a meu respeito. Há conhecimentos com os quais nasci. Ninguém mos incutiu. Não é o caso de se meus saberes aplicam-se ou não à realidade. O que causa espécie, é que já nasci com um certo sistema que me permitiu compreender o mundo desde pequena. E digo muito pequena mesmo, porque minhas memórias remontam à primeira infância.

Veja um exemplo: fui criada num colégio de padres e sou filha de pai ateu, mas, lá para as tantas, minha mãe se encontrou na religião Cardecista.

Deste modo, enquanto eu tinha aulas de catecismo católico na escola, e catecismo marxista em casa, acompanhava minha mãe religiosamente todas as sextas-feiras às atividades juvenis do Centro Espírita onde até hoje ela frequenta.

Quando finalmente me dei conta do cerne da questão que baseava todo o estudo espírita, disse muito indignada: mas mamãe, eles estão descobrindo a pólvora por que? Reencarnação é uma coisa tão óbvia. Não depende da bondade de Deus, nem sequer da existência dele, e também não depende da fé. Encarnação é um fator biológico.

Como não ficava bem mamãe chamar os inquisidores disponíveis, e correr o risco de ver-me queimada em uma fogueira, afora o escândalo na vizinhança, ela achou por bem ignorar a coisa toda e redobrou minhas atividades no Centro, ao que afinal sou grata, já que fiz ali os principais amigos que carrego comigo até hoje. Além de ter conhecido Yury, aquele das mãos espertas, recordam-se? e depois o André, o Marcus, em seguida o outro André, e houve também o…. bom, isso não importa.

O fato é que passei anos da minha vida sem entender porque eu ia a um Centro Espírita para estudar algo que em nada dependia da justiça de Deus, e que devia ser ensinado pelo pelo meu professor de biologia, na escola dos padres.

E até hoje creio nisso.

Outra coisa que compreendi muito pequena, sem a ajuda de ninguém, a não ser, em parte, do menino sardento, aqui já mencionado, é que sexo, amor, paixão, envolvimento, são coisas a um tempo diferentes e inseparáveis, com o agravante de jamais constituírem pecados.

Para tanto contribuíram duas coisas. A primeira foi novamente a apreciação biológica que tenho do mundo e dos fenômenos humanos: sexo, embora subjetivo, é transitivo direto. Sexo É. Não PRECISA. Não pode requerer tal coisa como amor, porque um valor mais alto se alevanta: a perpetuação da espécie.

Tudo o mais é firula.

Sexo é o desejo incontrável, hormonal, de um pelo outro e a realização milenar de nossa função primeira no universo. Quem colocou amor nessa equação foi o Cristianismo. Sexo é “desejo, necessidade, vontade”.

Mas aí, tem o amor cortês, o machismo, o feminismo, o kama sutra, o prazer igualitário, as lingeries, a playboy, os corpos que tem que ser assim, ou assado, o casamento, o tantra, a cama de casal, os lençóis macios onde amantes se dão, o KY, o casamento, a camisinha, o namoro, os nomes que se confundem, a pensão alimenticia, o viagra, o limite de idade, a pedofilia, o homossexualismo, as floriculturas, a monogamia, as injenções de testosterona, os astros do rock, a reposição hormonal, o telefone que não toca, o e-mail que não chega, as expectativas e a porra toda ficou muito complicada.

E eu fico querendo chamar os bombeiros do FDNY para procurar sob os escombros, onde é que foi parar o sexo.

Aquele onde eu te quero, e você me quer. Pelo seu cheiro, pelo que eu sou. Pelo prazer de te experimentar. Pela beleza de me tocar o interior. Pela necessidade de repetir aquilo que biologicamente é requerido de nós, sem nenhum pre-requisito ou desdobramento confuso. Sem a necessidade de um possuir o outro em todas as suas capacidades e competências.

E se calhar deste momento ser tão bonito que nos faça nos querer repetidamente, e a isto chamemos amor, que tenhamos o discernimento de não crer que as ilusões subjetivas impor-se-ão ao imperativo biológico. Que sejamos boa gente o suficiente para saber que isso é amizade, e que sexo, é sexo. E que podemos ter cada uma dessas coisas e isso pode ser lindo, desde que não tentemos fazer delas, uma só.

Pensando bem, publiquei há dois dias um gráfico que mais ou menos descreve isso, portanto, se quer que eu desenhe, vá lá ver.

Por mais civilizados que sejamos, deve haver um casal no mundo para quem não importa a celulite, a conta bancária, o futuro… Deve haver esse casal, esse único casal que se ama. Porque se quer primitivamente. E isso pra mim é amor.

O mais, é firula.

Não caio mais nessa. Pode chamar os inquisidores mãe.

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Sobre mistakegirl

Vaca profana por princípio e vocação... la leche buena toda em mi garganta, la mala leche para los puretas... Ver todos os artigos de mistakegirl

5 respostas para “Blasfemias

  • Maria

    É fia…. a coisa complica mesmo.

    Além do mito “sexo com amor” vivemos o mito do “amor romântico”.

    Aí fudeu… ou melhor, não fudeu, porque antes de fuder tem que amar, e o amor tem que ser perfeito igual às comédias românticas.

    Difícil viver primitivamente assim! rs…

    Bjins

  • ela, agaijota

    Flores recebidas, sorri, e despenquei dos saltos. Assustada estou eu, agora, mais uma vez, com suas mãos orientais, aquelas que dobram guardanapos de papel e tcharam! põem um pássaro pra voar. Tivesse eu aquela auto-estima-ó-que-amiga, diria sem pensar: ei, achou! Mas me acharia ridícula demais. Mas vou te contar, querida, que sempre voltamos pra casa com a sensação de que somos o homem e a mulher mais felizes que conhecemos. Com o sobrepeso e a falta de dinheiro. No formoso variado. Sim, isso é o amor, e dou graças.
    Receba nossos beijos, muitos e tantos, nos seus.

  • mistakegirl

    Que feliz, fico, se achei.
    Pode ser, que ainda aqui, neste blog, você me veja duvidar, com a maior desfaçatez, de tudo o que eu mesma disse. E que também eu me sinta ridícula.
    Pode ser.
    Mas não é assim.
    E me dói que assim não seja.
    Resta-me o cinismo. Espero ao menos lograr divertir-vos, com ele.

    p.s: Seu comentário demorou a ser postado porque o bendito akismet confundiu-o com um spam, perdoe-me.

  • Paula Kelsch

    Menina! Adorei o seu humor ácido. Como é inteligente. 🙂 Parabens pelas ideias, pela ousadia. Seu criticismo me inspirou hj.

    Detalhe: “fui criada num colégio de padres e sou filha de pai ateu, mas, lá para as tantas, minha mãe se encontrou na religião Cardecista”

    Essa tbm é a história de minha vida! rs
    Bj.

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