Virtual

E assim, entre um assunto e outro, quando já não mais esperares, baixarei a guarda e direi que queria mesmo era, em silêncio, abrir as pernas para ti.

Recuperado do susto, receoso de que te percebam o coração no peito, contarás que cai aí uma chuva forte e barulhenta e o dia já não tem sol, e que me querias perto para me amares. Um fazer calmo, sem mais do que todo o tempo que houver, para fazermos. Para que me sintas, me busques, me toques o corpo.

Então saberás que não alcanço calma. Que não posso mais prescindir de absorver-te em mim e latejar ao teu redor. A quem nos observe, pareceríamos imóveis, mas entre nós, todo o movimento do mundo, até que desfaleças, sem poderes me fazer parar.

Sei que não farias por onde aquilo terminar. E que louco estás a imaginar-me molhada a prender-te e apertar-te. Imaginando-me gozar um gozo ao qual me conduzistes, tão intenso que trêmula restarei no teu colo.

Eu te ofertaria a minha imagem e dirias, gentil, que sou toda como gostas e amas, e que me queres. Que sou linda e delicada e que não
crês que podes ver-me tal como lhe apareceria então.

Decerto dirias que anseias pelo meu cheiro e pelo meu gosto na tua língua. E suplicarias aos céus que me concedessem a ti agora, logo. Então eu te diria que minha ânsia é por ti, ainda que me extraiam todos os gozos. E que seria tua quando quiseres.

Dirias, estou certa, que neste caso, eu seria tua de vários modos, porque é em mim que queres estar, na minha carne que amas, nas minhas virilhas onde queres esfregar-te, lamber-me. Quererias, estou certa, entrar em mim. Estar em mim. Ficar em mim. Jazer em mim.

E após o silêncio aparvalhado de nossos desejos, dirias que mais não sabes, do que pensar em mim, e querer-me e, olhando para a minha imagem dirás uma vez mais que eu sou toda como quisestes, e que amas o delicado tom de rosa com que me notavas. Dirás: escorra-te em mim até que eu me afogue em ti, e não haverá lugar que eu não tocarei, olharei, examinarei, até encabulares. Quero tuas pernas abertas para mim, sobre mim, comigo dentro.

Assim, e somente assim, eu confessaria que minha intenção é provocar em ti o que provocam as cadelas no cio aos cães, de tal feita que tu te agites e rompas as correntes, te machuques no arame, pules os muros, até chegares em mim fazendo-me a fêmea tua, território teu, que demarcarás inequivocamente com cada milímetro do teu pau, irracional, animal, primal.

Diante do que, me solicitarias a carne, as dobras e cada pêlo deste corpo que farás teu. Reclamarias que nenhum fluido escorresse do meio de minhas pernas sem que antes te fosse estendida uma gota a experimentar.

E me dirias do desejo de ajoelhar-te por trás de meu corpo rendido, de desnudares-me sob a calcinha a morder e cheirar. E dirás: menina, eu te como e te como e não paro mais de te comer. E gozo em ti, pulsando, no fundo de ti. E o dia te passará escorrendo e vez por outra vais sentir e lembrarás que eu te comi. Que sou o teu homem. Como eu te quero, amor meu.

E a mim restaria pedir que viesses, pois cada latejar da minha vontade, tem sido teu.

E tu te dirás fraco de tanto querer-me. Debilitado da necessidade que tens de mim.

Então, penalizada pelo reconhecimento desta urgência, direi que também eu quero-te muito. Inteiro, forte, todo, total, dentro. E que este encontro faça legitimar o mundo.

E dirás que olhas meu rosto e queda-te incrédulo. Pois bastaria que só tu pudesses sentir o que sentes, mas quero-te eu também – acreditas, enfim. E só tens que vir a mim, ao teu território. E que uma vez ali chegado, não quererás sair, porque então tudo fará sentido. Junto ao meu corpo, minha carne, sob este meu olhar, vais aspirar o teu primeiro ar. Dirás que me quer para sempre a fazer amor contigo.

E diante da minha imagem molhada, quererás mais. Quererás chupar-me, sorvendo, para que eu mais escorra e quando tu, não mais a lamber-me, entrares em mim, devagar, lento e insistente, de lá sairá apenas para novamente aproximares teu rosto, tua língua, e em seguida darás lugar ao teu pau novamente. E dirás ainda que se nada mais visses, nada mais vivesses, o que aconteceu contigo nestas últimas horas já terá justificado tudo.

E depois de uma breve pausa, desculpando-se, dirias que o mundo real teima por cavar frestas e entrar na sala escura em que estás imerso comigo.

Eu te diria que fosse, mas que soubesses que a muitos, porém finitos, quilômetros, há uma mulher a pulsar por ti.

E então, como Paul Éluard, dirás: “enlaça meu coração na curva do teu olhar, e se já não sei mais quem sou, é que teus olhos não me viram no passado”. Eu só sei que te quero, e que te amo.

E iremos.

E toda a intensidade dos primeiros amantes do mundo desvanecerá no tempo que transforma todo o amor, em quase nada. Tempo que por esta via, é sempre significativamente menor que o tempo real.

Mas de vez em quando, eu sei, como na canção, lembrar-te-ás de mim.

Sobre mistakegirl

Vaca profana por princípio e vocação... la leche buena toda em mi garganta, la mala leche para los puretas... Ver todos os artigos de mistakegirl

2 respostas para “Virtual

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