Arquivo do mês: novembro 2011

Necrofilia

Se é verdade que os corpos se entendem e as almas não, como quis Bandeira, era o caso de pedir maiores esclarecimentos quanto à apurada técnica de se alcançar o corpo, sem tangenciar a alma.

E a quem interessará um corpo destituído de alma?

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Corolário

Toda brasileira já nasce com salvo-conduto pra dar pro Chico Buarque.


Bipolar


Tempo, tempo mano velho, falta um tanto ainda eu sei
Pra você correr macio…


Matrix

Há dois posts atrás mencionei uma “buceta que é uma flor imperfeita” e um “pau sentimental”. É que a pessoa divaga e registra a viagem… E deu uma confusão docemente infernal.

Digo apenas que as duas definições são da lavra dos próprietários dessas maravilhas lúbricas.

Entre os comentários, figura um, da Ela, do casal Agaijota, sempre matadora, que eu queria ter escrito, como post. Mas como não tive competência para tal, tomo dela as palavras, vejam que pérola e me digam se isso não dá (ô!), pano pra manga!!!

Desculpe-me, minha doce erradinha, mas vou ter de ocupar umas linhas aqui do seu canto. Explico:

Há algum tempo desenvolvi dois hábitos adivinhatórios. O primeiro, de caráter até certo ponto poético, consiste em presumir as feições futuras ou passadas das pessoas; ou seja, se fico diante de cidadão por mais de 30 segundos (pode ser o caixa do supermercado, a filha da vizinha no elevador, o velhinho na fila), sou capaz de imaginar, com perfeição, seu rosto em 50 anos, pra trás ou pra frente, como num filme em stop-motion: as bochechas perdendo a tenacidade, as pálpebras acumulando-se sobre os olhos, a pele sendo preenchida, olhos ganhando viço e contorno, dentes embranquecendo. Em salas de espera e filas de banco, o exercício diverte-me.

O segundo, de caráter pornográfico, consiste em conjecturar o formato dos paus de homens que me interessam, desde o meu amigo que divide a mesa de trabalho comigo até o moço bonito ao meu lado no ônibus lotado ontem à noitinha. Depois de (rapidamente) redesenhar seu rosto, meus olhos fecham-se e recaem, instantaneamente, no fecho ecler, e delicio-me em silêncio, estabelecendo conexões diversas entre as partes do corpo e seu membro em seus variados estados, construindo, portanto, toda uma constelação de caralhos incríveis nessa minha cabecinha que não vale um centavo furado. Nas felizes oportunidades em que pude checar, bingo, acertei na mosca.

Pois agora acompanhe meu drama, carísima. Minha classificação fálica é tão extensa quanto variada: além das vulgares variantes anatômicas (pequeno, grande, grosso, cônico etc), cromáticas, performáticas (duro na vertical, na horizontal, de ladinho, meio barro/ meio tijolo), entre tantas, sou criativa o suficiente para incluir outras mais subjetivas ou observacionais, o pau romântico, pau pragmático, o pau sentimental (sim, conheço bem), pau violento, pau animadão, até o pau surpreendente.

No entanto, eu não sou capaz de localizar um único indício de pau épico. Épico? Como? Será um pau cavalo-de-tróia, que parecia um presente mas na verdade vai me matar? Um pau brechtiano, anti-encantatório, revelador da verdade crua do mundo através da mítica comesinha da minha aldeia? Entre cíclopes, sereias, hecatombes, operários, patrões e mais-valia, cadê esse pau, minha gente?

Claro está que sou pessoa perturbada, com evidente transtorno obsessivo compulsivo, e reais possibilidades de desenvolver uma psicose inédita – corta a cena – “jovem senhora, com traços de demência, é detida no metrô por atentado ao pudor ao tentar abrir o zíper de pacato rapaz que viajava ao seu lado”

Assim, suplico, dá forma ao meu imaginário, antes meu real e meu simbólico se atraquem no ringue e fiquem francamente comprometidos.

Eu ia dizer: AS PARTES CITADAS QUE SE PRONUNCIEM. Mas nem foi preciso… vejam lá… e aguardemos os próximos acontecimentos…


seixo rolado

Sentou-se à beira do rio munida de quatro bananas d’água, um baseado, uma tradução recente de A Morte de Ivan Ilitch e o primeiro número de Luluzinha Teen – uma tia tem que saber o que suas sobrinhas lêem.

Drama! Consternação! Emagreceram o Bolinha! Não pôde continuar.

Tolstói.

Bem que tentou. Mas o pensamento, essa coisa à toa, tem vontade própria e já ia lá pelas bandas de Lumiar quando lhe caiu o primeiro pingo. Como o segundo não veio, acendeu o baseado, notando os pés anestesiados sob a água gelada.

No quarto tapa veio o segundo pingo, e a partir do terceiro não se contava mais.

Protegeu o livro com a mochila e pôs a perna inteira na água.

Santa Clara clareou, São Domingos alumou, vai chuva, vem sol. Vai chuva vem sol!

Os santos nunca foram mesmo de lhe fazer as vontades, assim, quando caiu a tromba, já estava inteira no rio, com a mente ligeiramente vaga, e terminando a terceira banana.

A água espumava em suas costas e ela ria. Lembrava-se de quando criança, na piscina do clube, às vistas de todos, “sentada” no jato d’água. As piscinas e as mulheres, desde meninas, carecem de coisas tais como jatos d’água. Fortes, por favor.

Teria a água de um rio encachoeirado esse poder também?

Segurando-se contra a corrente, nas pedras escorregadias, enxergando pouco ou nada, entre as gotas que lhe fustigavam o rosto, conseguiu abrir as pernas (a única coisa que já pôde conceber como esporte, quando lhe instigam a deixar o sedentarismo) e pôr-se sob o jato, quase de ponta-cabeça.

Gostaria de lhes contar o contrário, mas daqui deste local privilegiado de onde os narradores espiam os fatos ocorridos e acontecidos, posso lhes assegurar que prazer, não teve. Foi mais assim como um caldo, certamente o primeiro auto-induzido, e num rio…

Mas se as condições naturais não favoreciam, disposição orgástica não lhe faltava, de modo que tão firmemente apoiada quanto o limo daquela grande pedra lhe permitia, acariciada pela flutuante malha roxa do vestido, arrancou de si, extasiada, o gozo que a água lhe negou.

E depois foi cantar Amor de Índio dançando na terra lodosa daquela margem açoitada por uma chuva de relho. Pensando que era uma estrela chirua dessas que se banham nuas, nos espelhos das aguadas.

E digo que se houvesse pelo menos mais uma banana, talvez tivesse ficado ali e virado a Iara do rio, e estaria a encantar, com sua voz maviosa e plena, quantos de vocês, incautos, por ali passassem.

O rio que é dela...


Uma buceta que é uma flor imperfeita.

Um pau sentimental.

É por essas e outras que a pessoa desiste de se dedicar aos valores familiares.

Rolam os dados.


teressante….

Sei não… não tinha reparado antes… mas tô achando que essa coisa de futebol gera um certo estado de tensão sexual… uma coisa assim meio Scully & Mulder…

Isto, claro, se não houver morte envolvida.


À meia noite devorarei sua alma

Essa coisa de não dormir, essas fases maníacas, geralmente rendem uns pensamentos bacanas. Uns de feição peremptória, como portos de chegada. Outros muitos elucidativos, que são pontos de partida. A maioria muito confusa e um outro tanto que não vale um cazzo. Em geral não faço a menor idéia de qual seja qual, e daí a utilidade de um blog: não preciso decidir na hora! Apenas registro para posterior consulta, pérolas da mais pura inutilidade, que, d’outro modo restariam perdidas no buraco cinza da minha massa encefálica.

Pois veja você que essa manhã, ignorando o dia que para além de minhas venezianas azuis já vai alto, pensava eu em, em, em… sexo.
No que foi feito, no que se está para fazer, no que talvez jamais se faça.

Percebo que não sei da missa um terço, quanto ao que vem a ser sexo, para as outras pessoas. Mesmo essas, com quem eventualmente pratico o esporte.

Interessa-me, neste momento, pensar: o que é que move ao sexo?

Obrigação. Reprodução. Descobrimento de si e do outro.

Busca cega por um gozo que se concentra no feixe de nervos que integra a genitália nossa de cada dia, nenhuma questão envolvida, só a busca.

A certeza de que à impossibilidade de ter aquela pessoa dentro de si, em torno de si, a morte é iminente.

Sexo, pelos seus signos, é força transgressora. E pratica-se porque é preciso transgredir. Mas toda a transgressão não raro carrega em si os vícios que se pensa burlar, porque a transgreção frequentemente é só um jeito de manutenção da ordem. Mudar para conservar.

Sexo pequeno-burguês.

Sexo-cabeça. A pessoa ao invés de levar um papo, trepa. Até certo ponto, resolve.

O sexo que me interessa é aquele movido pela admiração do conjunto da obra que é o outro. O sexo que se dá como expressão dessa admiração. O grande gozo que é o outro, o delicioso e admirável outro, dentro de mim.

Tenho dado tratos à bola para saber como envolver todas as questões e conseguir que não seja chato. Porque o maçante é o revés do desejo. A coisa é dialética. Quero o outro. As coisas que fazem dele lindo, estranho, inteligente, tresloucado, são para mim, um grande tesão. Então, ao mesmo tempo que o meu desejo pressupõe a generosidade alheia em dar-se à minha contemplação, a mesma contemplação facilmente descamba para o lodo da miséria humana, e aí complica, porque eu sou do tipo que segura na mão do indivíduo e VAI, o que, receio, inviabiliza um pouco esse sexo ideal, feliz, vigoroso, pelo prazer de devorar aquela pessoa.

Sim. Porque eu, kari’oca, que a despeito do sangue lusitano carrego no corpo e na alma as marcas de minha ascendência tupinambá tenho esse ímpeto antropofágico de devorar espíritos guerreiros, consumindo seus corpos e almas num um ritual lento e indelével.

Quero sexo porque eu te achei sensacional e te quero pra mim.

O resto é balela.


E o que pretende de mim

Eu espero
Acontecimentos
Só que quando anoitece
É festa no outro apartamento

Todo a amor
Vale o quanto brilha…

(Marina Lima)
(aliás, assim, no assunto, a Marina tá batendo um bolão, tá não?)