Puzzle

Então ela veio.

E ainda que nossa proposta inicial estivesse seriamente desfalcada, eu quis tudo que dela adviesse.

Veio não como quem entra de marcha à ré. Veio com calma. Veio para estar, não para passar.

Dormimos e acordamos sem outra obrigação que não a do prazer de nossas companhias. A segunda manhã, ensolarada e fria, clamava por uma caminhada, que se transformou em cerveja num botequim, que se transformou num baseado na casa de amigos, que se transformou em bolinhos de bacalhau para matar a larica, à beira-rio. Pus-me a acariciar minha coxa um pequeno galho, o que me provocou um arrepio, e, como se a visse pela primeira vez, quis que ela tivesse a mesma sensação gostosa. E diante de quem quisesse ver, comecei a boliná-la com o mesmo galhinho.

Acometeu-nos uma súbita vontade de voltar para casa. Caminhamos sozinhas entre rio e árvores, falando e rindo alto. Nos deitamos sob as cobertas, olhando as fotos que havíamos trocado de nós mesmas e também do lindo homem que é nosso elo comum. Tangenciávamos desajeitadamente nosso desejo latente, e ela, valente, propôs que nos despíssemos e fizéssemos fotografias para ele.

Ele, leitmotiv.

O frio incomodava, o flash chapava nossas cores, a insegurança nos tolhia. Ponderei que para aquilo dar certo, teria de ser de verdade.

Ela se disse curiosa por um beijo. Eu tive um impulso incontrolável de tocar seus seios, tão pequenos e diferentes dos meus, e me perdi entre pintas, sardas, cheiros. E o beijo.

Eu não poderia dizer o suficiente sobre os lábios dessa mulher. Desde então tenho dificuldade de olhá-la, porque são lábios que requerem uma ponta úmida de língua para hidratá-los. Lábios finos e ondulados, com uma linha de frente de pequenos dentes como uma artilharia, ligeiramente avolumados sobre os caninos, suplicando permanentemente por mordidinhas.

Ao toque, achei-a pequena e delicada. O que fez de mim desproporcionadamente grande. Imaginei que se eu fosse um homem aquela seria uma sensação excitante, mas que me fazia sentir inadequada. Quis ver de perto como ela se parecia, mesmo sem saber o que faria, o que iria querer fazer. E tudo o que senti foi uma infinita ternura por aquela mulher que estava ali comigo, possivelmente tão apreensiva quanto eu, mas ainda assim entregue, e pensei que era ela a criatura mais linda do mundo.

Sempre acreditei que a vantagem do sexo entre duas mulheres era que uma saberia exatamente o que fazer com a outra. Para uma lésbica de carteirinha isso pode parecer brincadeira de criança. Se uma delas quiser me fazer um tutorial eu ficaria muito agradecida. Na real, quando eu olhei, achei tão diferente de mim que não conseguia identificar as partes mais básicas da anatomia dela, não sabia o que fazer! E sobreveio uma enorme pena dos homens, porque quando um homem se desnuda para uma mulher ele é basicamente auto-explicativo, não há muitas variações, e mesmo sem muitas estripulias, dá para se sair bem com um repertório bastante restrito. Mas a despeito de todos esses anos de prática exploratória com a minha, achei a buceta uma coisa muito complexa, quando fiquei de frente pra uma…

O cheiro agridoce. Os pelos abaixo do meu nariz. As pernas, escancaradas.

Eu sei como reajo ao que me dá prazer, mas não entendia as reações dela! Achei pouco molhada, quieta. Arrependida, talvez. Possivelmente entediada. E soltei uma pergunta considero bizarra: “está gostando”?

Tendo a moça aquiescido, achei de bom tom dar um passo adiante e que talvez conviesse enfiar-lhe uns bons três dedos – um de cada vez . Decisão acertada. De uma perspectiva diferente senti nela coisas que já conhecia… todas aquelas almofadinhas movediças e cremosas pressionando os meus dedos, ela inclinada sobre os cotovelos, cabeça para trás, cabelo desgrenhado, pescoço vermelho, olhos fechados, rebolando, e então imaginei que queria muito ser a feliz possuidora de um pau para entrar naquele lugar fantástico. O que realmente me excitou.

E foi aí que minha cabeça sucumbiu à habitual presepada do raciocínio quando eu devia apenas sentir, e num veloz retrospecto percebi, envergonhada, que havia acabado de incorrer no erro masculino de ir direto ao ponto, e que, não obstante, não tinha idéia de qual devia ter sido o percurso. Ato contínuo notei que ela ia querer retribuir, nem que fosse por etiqueta, e fui acometida pelas minhas neuras com meu corpo o que me levou imediatamente a um estado de irritação porque eu tenho a convicção ideológica de que isso é o fim da picada, e de que quem manda no meu tesão sou eu. Mas esse arroubo anarquista não bastou para me deixar confortável, e me senti ridícula por não ser capaz de controlar minha retração. Claro está que a concentração foi tomar um banho de rio lá embaixo. Uma trepada não pode ter tantas questões envolvidas!

Entretanto, generosamente alheia à minhas pirações, foi ela que veio, e olhou, tocou, cheirou, beijou, sentiu, e teria sido exímia se eu, nervosa, não tivesse começado a falar demais e talvez tenha até mesmo começado a rir. Lamentei mentalmente todas as coisas que eu queria ser e não sou, todas as coisas que eu queria ter feito e não fiz, desde ter tomado um simples banho antes de me deitar ali com ela!

A única solução que encontrei para tentar apaziguar as coisas foi abraçá-la sobre o meu corpo, macia e quente, por minutos onde, entre todas as dúvidas, tive a certeza de que ela estava na minha vida pra ficar.

Por uma casualidade indesejada estávamos sozinhas, e aquela foi afinal uma ótima oportunidade de criarmos intimidade, conhecer nossos corpos, o que com um homem junto dificilmente aconteceria. E me senti feliz porque ela me interessa. Os olhos dela me interessam, as coisas que ela diz me interessam, a presença dela me interessa, e escrevo agora sob o tremendo impacto da sua ausência.

E foi com a sua ausência que eu soube que ela também me queria. E a cada folga que meu cotidiano me dá, sinto a presença dela e planejo nosso próximo encontro. Vamos ouvir a melhor música que houver, falar, ver, ler, assistir coisas que nos excitem. Vamos fumar um juntas e, libertas das pataquadas engendradas nas nossas mentes adoecidas, vamos nos dedicar uma a outra como quem medita.

Nitidamente, nossos corpos não constituem a preferência sexual nem de uma, nem de outra, e nos acho corajosas por tentarmos. Já gosto imenso da pequena história que construímos. Uma história baseada na sinceridade, no tesão e na entrega. Na recusa em nos conformar com o banal, seja no sexo, seja na amizade, seja no amor. Na busca por todas as formas de prazer, na abertura para sensações que se provaram tão difíceis de serem provocadas. E gosto muito do fato de que estamos nessa juntas. Nos bancando.

Envergonham-me as minhas questões, inclusive as pertinentes, porque não era hora de pensar nelas, mas sobretudo as impertinentes, porque eu sei, mais que ninguém, que a verdadeira liberdade começa em SER a despeito de qualquer conceito estático que as pessoas possam ter a respeito do que é ou não é belo.

Adoro que essa seja uma nova fase. Uma fase de busca por ela. Por nós duas. Por um encaixe, porque sei que há um.

Aliás, um encaixe em que cabemos nós duas. E muito mais.

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Sobre mistakegirl

Vaca profana por princípio e vocação... la leche buena toda em mi garganta, la mala leche para los puretas... Ver todos os artigos de mistakegirl

15 respostas para “Puzzle

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