Desencontrada, eu mesma me contesto

É sensacional, conquanto inusitado, quando subitamente você, que desde o útero materno convive em perfeita desarmonia com o seu Mistake Self, percebe que alguém gasta tempo – pedaços de vida – consigo.

Venho sendo surpreendida por substanciosas gotas desta ternura singela, esse tesão pleno de delicadeza, advindos de fontes cujo vislumbre faz-me plena de encantamento e orgulho.

Por esta via tenho sido agraciada com a apreciação do vôo de borboletas e pavões – que sim, neste meu mundo onde tudo pode, voam, garbosos e tesos. E de almas que entre as tantas opções que o grande irmão virtual oferece, brindam-me com sua nem sempre fugidia atenção, dedicando a meus escritos ensandecidos o que de melhor uma pessoa pode oferecer a outra em tais circunstâncias: interlocução.

Eis que agora, com um crucifixo por testemunha de seu amor declarado, entre móveis sólidos numa cena lânguida, desvelados pela luz matutina, surgem-me umas mãos de unhas sempre encarnadas ou negras como as da tigresa de Caetano, expondo, quase oferecendo a glande de seu macho, de quem escolhe ressaltar uma bunda de formato surpreendentemente romântico.

Surge-me um pescoço longilíneo realçado por uns cabelos pretos habilidosamente cortados para expô-lo, e pintas espalhadas por dois corpos conectados num encaixe de flagrante intimidade. Vejo ainda uma orelha adornada por um brinco, e, como golpe de misericórdia – ai de mim – uma insinuação de barba.

Se não lhes parece suficiente, sosseguem, que não se fez por menos. Num tornozelo retesado sobre pernas fortes, despontava um ossinho tímido, implorando por beijinhos que menos não poderiam do que subir até angulosas clavículas a guarnecer delicada espádua.

E havia ainda – meus amigos, meus irmãos, cegai os olhos da mulher morena – uns pêlos aloirados a contornar um mamilo entumecido e a adensar-se numa axila que era nada menos que um convite, para esta que vos escreve, de apelo inelutável.

A mim me resta, como Maria Von Trapp, cantar, baixinho…. nothing comes from nothing, nothing ever could, so somewhere in my youth or childwood, I must have done something good

Pés, coxas, seios, quadris e covinhas, umbigos, pau, espelhos e gozo. Tudo me foi oferecido, e era de tanta beleza e tamanha espontaneidade que já estou a pensar que sim, eu devo merecer.

Sobre mistakegirl

Vaca profana por princípio e vocação... la leche buena toda em mi garganta, la mala leche para los puretas... Ver todos os artigos de mistakegirl

2 respostas para “Desencontrada, eu mesma me contesto

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