À meia noite devorarei sua alma

Essa coisa de não dormir, essas fases maníacas, geralmente rendem uns pensamentos bacanas. Uns de feição peremptória, como portos de chegada. Outros muitos elucidativos, que são pontos de partida. A maioria muito confusa e um outro tanto que não vale um cazzo. Em geral não faço a menor idéia de qual seja qual, e daí a utilidade de um blog: não preciso decidir na hora! Apenas registro para posterior consulta, pérolas da mais pura inutilidade, que, d’outro modo restariam perdidas no buraco cinza da minha massa encefálica.

Pois veja você que essa manhã, ignorando o dia que para além de minhas venezianas azuis já vai alto, pensava eu em, em, em… sexo.
No que foi feito, no que se está para fazer, no que talvez jamais se faça.

Percebo que não sei da missa um terço, quanto ao que vem a ser sexo, para as outras pessoas. Mesmo essas, com quem eventualmente pratico o esporte.

Interessa-me, neste momento, pensar: o que é que move ao sexo?

Obrigação. Reprodução. Descobrimento de si e do outro.

Busca cega por um gozo que se concentra no feixe de nervos que integra a genitália nossa de cada dia, nenhuma questão envolvida, só a busca.

A certeza de que à impossibilidade de ter aquela pessoa dentro de si, em torno de si, a morte é iminente.

Sexo, pelos seus signos, é força transgressora. E pratica-se porque é preciso transgredir. Mas toda a transgressão não raro carrega em si os vícios que se pensa burlar, porque a transgreção frequentemente é só um jeito de manutenção da ordem. Mudar para conservar.

Sexo pequeno-burguês.

Sexo-cabeça. A pessoa ao invés de levar um papo, trepa. Até certo ponto, resolve.

O sexo que me interessa é aquele movido pela admiração do conjunto da obra que é o outro. O sexo que se dá como expressão dessa admiração. O grande gozo que é o outro, o delicioso e admirável outro, dentro de mim.

Tenho dado tratos à bola para saber como envolver todas as questões e conseguir que não seja chato. Porque o maçante é o revés do desejo. A coisa é dialética. Quero o outro. As coisas que fazem dele lindo, estranho, inteligente, tresloucado, são para mim, um grande tesão. Então, ao mesmo tempo que o meu desejo pressupõe a generosidade alheia em dar-se à minha contemplação, a mesma contemplação facilmente descamba para o lodo da miséria humana, e aí complica, porque eu sou do tipo que segura na mão do indivíduo e VAI, o que, receio, inviabiliza um pouco esse sexo ideal, feliz, vigoroso, pelo prazer de devorar aquela pessoa.

Sim. Porque eu, kari’oca, que a despeito do sangue lusitano carrego no corpo e na alma as marcas de minha ascendência tupinambá tenho esse ímpeto antropofágico de devorar espíritos guerreiros, consumindo seus corpos e almas num um ritual lento e indelével.

Quero sexo porque eu te achei sensacional e te quero pra mim.

O resto é balela.

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Sobre mistakegirl

Vaca profana por princípio e vocação... la leche buena toda em mi garganta, la mala leche para los puretas... Ver todos os artigos de mistakegirl

11 respostas para “À meia noite devorarei sua alma

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