seixo rolado

Sentou-se à beira do rio munida de quatro bananas d’água, um baseado, uma tradução recente de A Morte de Ivan Ilitch e o primeiro número de Luluzinha Teen – uma tia tem que saber o que suas sobrinhas lêem.

Drama! Consternação! Emagreceram o Bolinha! Não pôde continuar.

Tolstói.

Bem que tentou. Mas o pensamento, essa coisa à toa, tem vontade própria e já ia lá pelas bandas de Lumiar quando lhe caiu o primeiro pingo. Como o segundo não veio, acendeu o baseado, notando os pés anestesiados sob a água gelada.

No quarto tapa veio o segundo pingo, e a partir do terceiro não se contava mais.

Protegeu o livro com a mochila e pôs a perna inteira na água.

Santa Clara clareou, São Domingos alumou, vai chuva, vem sol. Vai chuva vem sol!

Os santos nunca foram mesmo de lhe fazer as vontades, assim, quando caiu a tromba, já estava inteira no rio, com a mente ligeiramente vaga, e terminando a terceira banana.

A água espumava em suas costas e ela ria. Lembrava-se de quando criança, na piscina do clube, às vistas de todos, “sentada” no jato d’água. As piscinas e as mulheres, desde meninas, carecem de coisas tais como jatos d’água. Fortes, por favor.

Teria a água de um rio encachoeirado esse poder também?

Segurando-se contra a corrente, nas pedras escorregadias, enxergando pouco ou nada, entre as gotas que lhe fustigavam o rosto, conseguiu abrir as pernas (a única coisa que já pôde conceber como esporte, quando lhe instigam a deixar o sedentarismo) e pôr-se sob o jato, quase de ponta-cabeça.

Gostaria de lhes contar o contrário, mas daqui deste local privilegiado de onde os narradores espiam os fatos ocorridos e acontecidos, posso lhes assegurar que prazer, não teve. Foi mais assim como um caldo, certamente o primeiro auto-induzido, e num rio…

Mas se as condições naturais não favoreciam, disposição orgástica não lhe faltava, de modo que tão firmemente apoiada quanto o limo daquela grande pedra lhe permitia, acariciada pela flutuante malha roxa do vestido, arrancou de si, extasiada, o gozo que a água lhe negou.

E depois foi cantar Amor de Índio dançando na terra lodosa daquela margem açoitada por uma chuva de relho. Pensando que era uma estrela chirua dessas que se banham nuas, nos espelhos das aguadas.

E digo que se houvesse pelo menos mais uma banana, talvez tivesse ficado ali e virado a Iara do rio, e estaria a encantar, com sua voz maviosa e plena, quantos de vocês, incautos, por ali passassem.

O rio que é dela...

Sobre mistakegirl

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