Arquivo do mês: dezembro 2011

mão amarela

Aí, por exemplo… você e mais uns amigos assistindo um filminho no doce recôndito de sua alcova.

Vocês sabem que nesse mundo moderno, não sendo a película uma biografia dos Teletubbies, vai ter uma cena de sexo.

Ai tá.

Vai que a tal cena é assim mais bem apanhada. E você sente uma pontadinha (aquela, na pélvis).

Eu fico olhando pro povo ao redor pensando se tá todo mundo sentindo a mesma coisa. E já que tocaram o “rancho”, fico esperando tocarem o “avançar”, porque afinal, eu não tô fazendo nada, você também...

Mas as pessoas sempre estão incólumes olhando a TV.

Só eu que sou descompensada?

Melhor fazer uma pipoca. AGORA.


Valhei-me Câmara Cascudo

Cai aqui uma chuva de que cântaros já não dão conta.

Uma chuva morna e barulhenta que dá umas vontades estranhas.

Traz histórias distantes, do Boitatá e da Mula-sem-cabeça.

Vontade de sair por aí e encontrar o Curupira. E fazer com ele um filhinho que daria por batismo à Mãe d’água e ao Negrinho do Pastoreio.

Sou muito solidária com este Negrinho.

Também a mim, mil formigas devoram.


São Salvador

A ser utilizada para denotar fetiche, a palavra “exibicionismo” requer, ao que me parece, que do ato se obtenha prazer.

Isto pôsto, jamais me considerei exibicionista.

Entrementes, pensava hoje nos idos de minha transviada juventude a recordar de umas trepadas madrugadeiras que certamente me poderiam conferir a alcunha.

Noite alta. Eu, ele, uma mesa fria de granito, um terraço. No centro de uma área interna. Ao redor, algumas centenas de apartamentos. E um irrevogável travo de ousadia e medo no prazer que eu sentia a cada metida.

Certamente fomos vistos. Por sorte não surpreendidos. Por milagre não denunciados.

E foi bom.

Exibida.


Ai uíchiu a mérri crismas!

Eu me amarro nesse lance de festas de fim de ano. Tenho até umas manias estranhas, tipo a casa tem que ter muitas coisas novas… toalhas, caminhos de mesa, lençóis, objetos bonitinhos, que vou comprando durante o ano e guardando para esta data, quando todas as luzes devem permanecer acesas.

Pena que eu nunca consiga passar o natal na minha própria casa e usufruir de tudo isso!

Desconfio que a pessoa não é suficientemente adulta se fica previamente combinado que o natal não vai ser na casa dela. Donde, sou uma adolescente de 36 anos. Isso pode ser ruim. Ou não.

Mas então, Natal requer votos, e os meus, para vocês, são:

1. Que, em tendo que dormir fora, você tenha privacidade o suficiente para trepar enquanto, no silêncio da noite, papai noel desce pelo Sugar;

2. Que, em tendo que comer aquela comida seca que as pessoas insistem em entender por Ceia, você não se empanturre a ponto de não conseguir trepar;

3. Que, em recebendo presentes, entre eles não figurem meias, e ao menos um lhe seja dado de modo especial e safadinho, ali meio fugidinho, porque só diz respeito a dois;

4. Que, em dando presentes, ao menos um se constitua de você, com uma fita, de corpo e alma;

4. Que você se lembre do aniversariante do dia, tenha muito a agradecer e se lembre que sexo é uma dádiva e bom sexo nos leva muito próximo a Ele.

5. Que a luxúria lhe seja perdoada.

Assim seja!


Comungar

Há madrugadas em que acordo como sacudida, incapaz de novamente conciliar o sono de que minutos antes era cativa.

Advém desejos loucos de súcubo.

Um pequeno pedaço de chocolate que como uma hóstia é deixado imóvel sobre a língua tépida, e derrete, macio, quente e doce. Assim é meu corpo, uma hóstia não consagrada, à espera de seu íncubo noturno.

Derretendo.

Pulsando.


O côncavo e o convexo

Como legítimo exemplar da classe média carioca, também eu passei muitas férias na Região dos Lagos.

Numa destas, no longínquo ano de 1980, atravessei a primeira prova de fogo de minha incipiente existência: um interminável verão em Araruama, na condição de caçula de um irmão e alguns primos, em companhia de mãe, duas tias e dois discos: um do Roberto Carlos e outro do Julio Iglesias.

As rodinhas de minha bicicleta faziam de mim um estorvo para as outras crianças que subiam e desciam, velozes, as ladeiras arenosas e escaldantes do próspero balneário, assim, a Mistakezinha era frequentemente deixada na companhia das Gréias e seus LPs infernais.

Depois de um mês de bullying familiar, Manuela, e muito “eu quero ser sua canção eu quero ser seu tom”, percebi, ainda na Rural saia e blusa de meu tio, ali pela ponte Rio-Niterói, que a recuperação – se houvesse uma – tardaria, e fui tomada por um súbito repúdio à lagoas e casuarinas.

Mas o tempo que sempre apaga o fogo de qualquer paixão, naquela altura passava preguiçosamente, de modo que no fim da década, na sexta série, o destino me pôs na mesma classe que R., e foi então que minha índole lânguida revelou-se.

Numa noite fui flagrada, cantando sentida, a plenos pulmões: das lembranças que eu trago na vida você é a saudade que eu gosto de terrrrrrr….. só assim, sinto você bem perto de mim, outra vez!!!!!

E o vaticínio foi certeiro, ainda na porta, com a chave na mão:

– Ah meu Deus. Minha filha está apaixonada.

Não passei a gostar de Roberto Carlos a partir dali, até porque precisamente naquele momento ele dava início à pior fase de sua produção. Mas insidiosamente, a cada paixonite, meu coração apelava tão secretamente quanto possível – seria uma traição a meu irmão e primos se, de uma hora para outra, eu me esquecesse dos suplícios daquele verão – para a coleção de LPs que minha mãe tem até hoje.

Quanto a R., jamais encontrei palavras para dizer como era grande o meu amor por ele, que nunca ficou sabendo que eu tinha o amor maior do mundo.

Porém, foi por aquela época que o tempo, de preguiçoso passou a maratonista queniano, e a capciosa semente plantada pelo primeiro amor, resultou em que eu fosse elegendo canções do repertório de Roberto Carlos, e o pior, perdoai! dei para chorar, ouvindo o cara.

Que posso dizer? Sei que não devia estar contando isso, é possível que seja o golpe de misericórdia nos incautos que a este blog acorrem em busca de qualquer coisa interessante para ler, e me resignarei se julgarem que nada de interessante pode advir de uma criatura que chora ouvindo Roberto Carlos. Mas já que confessei tanto, devo fornecer elementos suficientes para a adequada penitência, e conto ainda que, na última sexta-feira, sob o pretexto de oferecer presente natalino à mãe e cunhada, fui com ambas ao Maracanãzinho, ver, pela primeira vez, o provecto senhor que mexe com a libido da Hebe Camargo.

Somente hoje, quando já vão longe as jovens tardes de domingo, e quando você não sabe, mas é que eu tenho cicatrizes que a vida fez, posso compreender melhor o fenômeno e até as minhas lágrimas.

Nas cadeiras numeradas, de posse de um Geneal, concentrada no que ele cantava, atenta à reação de milhares de pessoas ao meu redor e comovida com a paz do sorriso de minha mãe com seus binóculos (parte do presente), pus-me a lembrar dela, tão mais nova, de tomara-que-caia amarela e short jeans, com mais ou menos a idade que eu tenho hoje, tão bonita, sentada na areia, ouvindo seu disco querido, e quase posso ver o seu olhar, e queria tanto ter podido abraçar aquela mulher e explicar pra ela que nem o Roberto Carlos sabe de verdade dar e querer da mulher.

E ali, ao lado dela, tão sexualmente repressora, tão sexualmente reprimida, senti uma inédita compreensão de nós duas e de nossa condição feminina. Estávamos em rara comunhão. Porque não éramos mãe e filha, éramos mulheres.

Talvez seja esse o grande mérito do artista em questão, diferente do Chico, que traduz tão poeticamente o que as mulheres sentem, Roberto Carlos fala o que elas gostariam de ouvir. E se coloca na posição do homem que diz isso.

Sem dó:

Eu te proponho
Te dar meu corpo
Depois do amor
O meu conforto
E além de tudo
Depois de tudo
Te dar a minha paz
..”

Quero ser a coisa boa,
Liberada ou proibida,
Tudo em sua vida
.”

Eu como e bebo do melhor
E não tenho hora certa:
De manhã, de tarde,
À noite, não faço dieta
.”

E é bonito demais
Quando a gente se beija
Se ama e se esquece
Da vida lá fora
…”

Sem me importar se neste instante
Sou dominado ou se domino.
Vou me sentir como um gigante
Ou nada mais do que um menino
.”

E por aí vai…

É romântico sim, mas é sobretudo sexo.

Bem, à Araruama, nunca mais voltei, mas guardo lembranças ternas do lugar. Julio Iglesias seguiu sendo odiado.

Mas mesmo que os detalhes sumam na longa estrada do tempo que transforma todo o amor em quase nada, sei que um grande amor não vai morrer assim, por isso, tenho certeza, eu sempre lembrarei de Roberto Carlos.

E pressinto que vou chorar.


Às armas!

Trepar requer buceta molhada.

Latejando. Uns olhos vidrados, um torpor. Uma dorzinha desesperada a maltratar aquele ser que sente claramente a possibilidade do fim do mundo como o conhecemos, a depender da penetração iminente.

Entrementes, sexo é possível sem estas condições. Cumprir tabela é parte essencial da existência humana. Pode até ser legal. Tem o “pegar no tranco”, e às vezes pega-se tão bem que nem se nota que o interesse da moça cinco minutos antes era no Rodrigo Lombardi que aparecia na TV.

O que se perde, nas relações mais longas, penso, não é propriamente o tesão, mas o fato de que, contando com a trepada, a coisa começa pressupondo uma lubrificação que virá. E vem. Mas como a parada está na cabeça e não no colo do útero, já começa meio desacertado. Foco, minha filha. Foco.

Trepar tem que ser tão bom que você não consegue pensar em nada para falar a seguir. Espaços preenchidos. Necessidades satisfeitas. Mentes sãs em corpos sãos.

Se o tesão é um lapso ideológico. A boa trepada é uma falha no sistema. Bug geral. É a inércia do depois.

Percebo que em mim tem faltado este tesão que precede. Que não é aquela inespecífico que mencionava outro dia. É bem específico. É cheiro. É necessidade por aquele outro ser que está ali. E a culpa é minha. Porque o cotidiano sabota o desejo. O tatibitati o camufla e as contas para pagar, definitivamente o inviabilizam.

Exijo meu direito de morrer de tesão antes de ser penetrada e estou inclusive pensando em propor a grande marcha a favor da lubrificação extensiva cuja concentração será ali no Cine Iris, teminando nos arredores da rua Sacadura Cabral.


Ochi Chernye

Se você se acha estranho, talvez seja bom para a sua auto-estima saber que existe alguém que tem por mania, imaginar os escritores russos trepando . Não entre si, por favor! A perversão da escriba tem limites!

Dostoievski, Tolstói, Tcheckhov, Gogol, Turgueniev…

Sendo a literatura russa um de meus gêneros de predileção, sinto-me íntima de seus personagens… homens que são sempre sexualmente vacilantes, e mulheres que, inversamente, exalam sexo.

Alguém tem dúvidas de que Ralskólnikov era um punheteiro contumaz? Desenvolvi também uma tese muito complexa acerca da sexualidade de Ivan e Aliéksei Fiodorovitch Karamazov. Reservo tais pérolas de elaboração crítico-sexo-literárias para momento mais propício.

Acabo sempre tendendo para Gorki. Qualquer coisa me diz que era o mais vigoroso, conquanto com uma tendência à violência, todo aquele ímpeto militante, mesclado à delicadeza infinita de “Sobre o primeiro amor”. Também porque de todos, é ele aquele cujo aspecto me enseja uma virilidade mais… ativa…. a linha quadrada do maxilar, talvez, não sei. Se bem que Tchekhov era jeitosinho também.

É, dos russos, minha aposta é em Górki.

A pessoa quando não tem o que fazer pensa em cada coisa, né não, amiga leitora? Pior você, que vem aqui ler isso!


Tropismo

Meu mamilo é uma folha de dormideira.
Reage ao pensamento.
E em casos mais drásticos, à língua.


Sustentabilidade

Há, latente, este tesão. Inespecífico, porém.

Um tesão que tem por objeto a própria existência.

É preciso que haja um objeto para o desejo, ainda que, à Buñuel, seja ele obscuro. Mas não o encontro.

Uma usina, um rotor que se retroalimenta. Assim é este desejo. Um processo mecânico e continuo. Um tanto autista, já que existe de per si. E em si mesmo habita e circula.

Tem anseios secretos de um dia fundir um átomo.