O grande herói das estradas

Se eu fosse homem usaria costeletas suíças.
Traria sempre um lenço limpo e cheiroso no bolso de trás da calça. Usaria sempre calça. Jeans.
E um casaco comprado num brechó em Gênova.
Teria, decerto, um canivete suíço. E um isqueiro zippo, ainda que fossem longe meus tempos de fumante. Meu chaveiro seria uma pequena e potente lanterna.
Meus dedos ostentariam anéis. Meu corpo, tatuagens. E só para surpreender, eu seria um mar de ternura.
Se eu fosse homem riria pouco. Seria levemente formal e discretamente imaturo, já que maduro não é possível ser.
Sentiria ciúmes contidos. Mal-disfarçados. De mulheres, amigos, livros, e do aeromodelo que montei com meu pai.
Seria perdulário. Jantaria às margens do rio Zwin, enquanto me cortassem a luz, e no ensejo, aprenderia um pouco de flamengo.
Seria profundo conhecedor do cancioneiro popular brasileiro e dominaria os repertórios de Nelson Gonçalves e Orlando Silva.
Amaria poesia, com sinceridade.
Dançaria, embora mal.
Tocaria violão, embora mal.
Mas aprenderia a cozinhar um único prato com maestria.
Trabalharia como se isso não fosse um incômodo.
Se homem eu fosse, pousaria minhas mãos grandes, cheias de posse, nos quadris da mulher que fosse minha, enquanto minha ela fosse.
Na minha casa haveria um grande tapete, uma luminária turca e muitos livros ao redor.
Haveria brinquedos artesanais para quando meus sobrinhos fossem me ver.
À noite eu acenderia um incenso que Raul me trouxe do Nepal.
Sentiria-me feliz se vez por outra houvesse uma mulher a quem amar no meu imaculado tapete.
Entre How deep is the ocen? e I’ve got you under my skin, diria a ela todas as coisas que esperava da eternidade do nosso encontro.
Daria meu cheiro a ela. Daria meu peso a ela. Ofertar-lhe-ia minha imaturidade e meu melhor vinho.
E se ela pedisse, e somente quando ela pedisse, úmida, turva e atordoada, eu amaria esta mulher com calma e força.
E se ela, muda, aquiescesse, plena de compreensão pelo homem que eu sou, se, mulher, durante o nosso banho, lavasse, carinhosa, as nossas roupas íntimas, isso me renderia maus poemas e uma sensação boa, de ser o homem que eu quis ser.
Se eu fosse homem, minha porta não teria tramela, nem a janela, gelosia.

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Sobre mistakegirl

Vaca profana por princípio e vocação... la leche buena toda em mi garganta, la mala leche para los puretas... Ver todos os artigos de mistakegirl

6 respostas para “O grande herói das estradas

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