Arquivo do mês: fevereiro 2012

Dolce far niente

Alô, alô amigo ouvinte!

Então! Tendo eu notado que o número de acessos cresce não obstante a ausência de novidades, achei delicado vir dizer que:

Bicho Carpinteiro que se preza tem que ser assim: insaciável. É por isso que mal estava lá, estive ali, e agora escrevo de acolá.

A inércia, a praia e as ostras tem tomado conta de meu ser naturalmente indolente. E algumas historinhas picantezinhas também… com direito até a um revival em graaaande estilo… é… eu sou uma saudosista… que fazer?

Não percam a fé, meus amigos, I’ll be back.

Besos

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Like a rolling stone

Está combinado entre os meus: a Mistake tem bicho carpinteiro. Devo ter. Desgarrada por natureza, necessito, com uma periodicidade cada vez maior, sair do meu casulo para poder respirar. Contraditória por natureza, necessito, por um período cada vez maior, nele me enterrar, para me proteger e aprumar.

Fora dele estou, e é bom demais ser estranha em um lugar. Estranhar as calçadas e o misterioso padrão das chuvas. E ser essa mulher que PODE, sem outro compromisso que não seus próprios princípios.

Em meu ambiente, minha condição de “ser sexual” está dada. É fácil empunha-la. Fora dele, não sei onde ponho as mãos. Sou tímida e espalhafatosa. Não sei fazer ver a quem me interessa, que esse interesse existe e tão pouco sei ler os sinais. Num lugar onde as moças combinam tão bem voil de seda e all stars, piercings e picolés, não entendo o que esperam de mim.

Meu olhar não sabe dizer que minha boca quer um beijo. Meu corpo não se crê desejado. E desaprendo a sambar.

No terreno do alheio, eu não sou a tal. Vir para a outra margem é dar a cara à tapa. E garantir aquele escravo núbio a me dizer, pela Via Apia, num susurro debochado: és mortal! és mortal!

Quisera contar do “silêncio que sucede os grandes encontros, aquele, que vem depois da canção preferida”, mas não soube. Não pude.


Vaticínio

Não sei não, é possível que essas incursões lisérgicas estejam trazendo efeitos inesperados à minha vidinha preto e branco.

Eis que eu caminhava meio a esmo pela paulicéia, e, desvairada, esta florzinha miúda, esmaecida pelo calor, com cores imprecisas, algo meio framboesa, meio licor, brotada de uma fresta de asfalto, chamou-me.

Eu, que não recuso assunto a ser vivente, me aproximei, e ela, com ares de Oda Mae Brown, disse-me: “espera, na certeza, como se espera o reencontro com o primeiro compasso da canção preferida”.

E segui, pela cidade quente, sem o alívio da brisa que vem do mar.


São Paulo e suas esquinas.
Discreto arrepio. Frio na barriga.
Ansiedade pelas esquinas de São Paulo.
Falta pouco.


Fuga

Quando a realidade está hard core, como todo mundo, doce refúgio encontro em minha imaginação.

Minha imaginação – como a de todo mundo? – tende a bordejar por aí, visitando este e aquele assunto, sem deter-se a coisa alguma até que se atém ao tema por excelência: o nobre esporte.

Mulher Pensando, M. Martins


Ontem, em cenário tão inóspito quanto inusitado, enquanto o pau comia ao redor, matutava eu nos grandes mestres do cancioneiro popular brasileiro e seus amores cantados em prosa em verso.

E daí, a conjectura: como será o sexo, não dos anjos, mas destes bardos caboclos que nos inspiram a alma?

Alguém pode imaginar uma trepada protagonizada pelo Nelson Cavaquinho?

Qual seria a posição de predileção de Cartola e dona Zica?

Ary Barroso… como se traduzia na realidade todo aquele amor pela mulata inzoneira?

E não se trata de beleza.

Também acho bizarro imaginar gente bonita demais trepando. Mais especificamente gente saradinha, depiladinha.

Gente que faz reflexo no cabelo. Você já viu o que passa uma mulher que faz reflexo no cabelo? São horas – literalmente – no salão. Tipo umas cinco. Pensa, cinco horas em frente ao espelho, parecendo uma medusa platinada. Se há cinco minutos guardados dentro de cada cigarro, há umas cinco horas guardadas dentro de cada reflexo e cara, isso tem que se refletir na vida sexual da pessoa. Não pode correr tudo bem.

Em contrapartida, tem umas categorias de gente que me parecem naturalmente propensas ao sexo: biólogo ambientalista. Desses que vivem explicando a importância dos manguezais; professoras primárias, engenheiros de som e caixas de supermercado. Sempre apostei na produtividade sexual das caixas de supermercado! Ao contrário das balconistas de farmácia e bazares onde se vende parafusos.

E assim, dentre tão importantes elocubrações, se vai mais um dia cuja realidade, doutro modo, me teria esmagado a alma.


Ponderemos

Então, você.

A pergunta é para você aí:

A admiração e o respeito interferem no tesão?

Vamos pular essa parte: A inteligência é indiscutível atrativo sexual. Uma conduta legal, atitudes seguras, também.

Claro que são.

Mas um “atrativo”, por definição, dá conta do primeiro momento. Aquele em que você tem seu interesse despertado.

Mas e depois, quando o interesse se concretiza e de repente, não mais que de repente, você está em uma relação, seja de que nível for. E se dá conta de que o cidadão é FODA.

Pode a envergadura intelectual ou moral de alguém intimidar e se refletir no sexo, em forma de retração?

Ocorre de o respeito colocar o objeto amado em um andor, envolvê-lo em olor de santidade e acabar com o tesão?

Hein? Hum? Ahn?


Mixirica

Eu não tenho uma filha. Mas se tivesse, ela estava terminantemente proibida de ter uma “melhor amiga”.

Essa figura é que põe tudo a perder na vida de uma adolescente decente e cumpridora dos seus deveres.

Ah, as coisas que eu nunca teria sabido se não fosse a minha melhor amiga.

Mas não. Nada podia passar inocentemente por mim sem que a dita, do alto de seu posto de melhor amiga, me chamasse a atenção para o coeficiente safardânico em toda e qualquer obra humana.

Sem ela, jamais teria me ocorrido enfiar a calcinha na bunda “pra marca ficar mais bonitinha na calça de cotton” antes de começar o meu périplo de inúmeras voltas pelo quarteirão na tentativa de cruzar com aquele menino da rua ao lado.

Sem ela, eu jamais nessa vida teria maldado uma canção do Roupa Nova. Gente, o que pode ser mais enfadonho do que uma canção do Roupa Nova? Mas não. Ela tinha que me encafifar até uma coisa louca sair do meu olhar e eu cismar de saber onde era esse lugar que alguém tinha tanta pressa de chegar e outro alguém sabia o jeito e o lugar.

Sem ela eu JAMAIS teria pensado em fazer uma dobradura especial no absorvente de modo que ele não marcasse a calcinha (sim, ela tinha uma certa obsessão com o modo como a bunda de uma garota devia parecer, quesito no qual eu era uma enorme decepção, aliás).

A melhor amiga é uma pessoa que, tendo rigorosamente a sua idade (a minha era quatro dias mais nova que eu!) está sempre um passo à sua frente e sabe de coisas de que você nem suspeita.

A melhor amiga é a versão moderna da serpente do Éden.

Eu não tenho uma filha. Mas se um dia tiver, dou um Tamagoshi pra ela.


O ceifador de gozos

Semi-consciência.

A sensação de qualquer coisa muito maleável a envolve-la. Um movimento anti-gravitacional resulta em onírica ondulação e seu corpo submerge. Concentra-se. Parece couro. Talvez preto. Ou amarelo-gema. Suas pernas estarão dobradas, esticadas, abertas? Cada olho pesa cerca de doze quilos, e lhe faltam boas razões para empreender o esforço de abri-los. Seria, porém, conveniente, saber o estado de suas pernas já que há outras pessoas no local e ela está com seu vestido evasè. E sabe disso porque a pala de crochê em sua cintura sempre permeia aquela ventilação. Definir o estado de suas pernas se torna vital para saber quanto respeito ainda lhe resta, especialmente porque não consegue se lembrar se a calcinha é minimamente apresentavel. Decide que tem uma perna dobrada e outra esticada e que o braço direito lhe escorre pelo puff.

O estômago está um tanto agressivo. Ressente-se do absinto, talvez.

Gostaria de estar dançando. A canção, como um alívio, lhe preenche o raciocínio. Tom’s Dinner. Tchutchutchúru tchutchutchúru tchutchutchuru tchutchutchuru. Percebe que há pessoas fazendo isso, em silêncio. Quantas serão? Quem seriam? Não consegue se lembrar quem pode ser o feliz proprietário daquele confortável puff roxo.

Tem sede. Haxixe sempre lhe dá muita sede.

Quando menina, após um domingo inteiro no Tivoli Park, já banhada e deitada para dormir, ela sentia o corpo caindo em queda livre. Resultado de tanto tempo com os pés fora do chão, submetida a trancos, luppings e velocidades. E assim se sente agora. Afundando naquele couro que há de ser verde oliva. E isso é bom.

Abre discretamente os olhos. Escuro. Em frente a uma estante onde se destaca a luz azul do display do Cd player, umas seis ou sete pessoas dançam sinuosamente. Parecem bonitas. Uma calopsita parece tocar maracas em uma gaiola cromada. Há outra luz azul em algum lugar incidindo sobre a sala. É tudo muito bonito. E difícil de olhar. Há ainda coisas a descobrir em seu interior. Por exemplo, ela sente com perfeição o local onde está pousado o elástico do lado esquerdo de sua calcinha, seja ela qual for, e não é cômodo, ele belisca o grande lábio e repuxa discretamente seus pelos. Isso não é bom, mas parece tão difícil de resolver…

E imersa em tais conjecturas é surpreendida por uma mão que lhe ergue vagarosamente a nunca. A cabeça pende para trás e sente lábios em seu pescoço. Lábios que de certo canto daquela sala que paira sobre a lógica do mundo, deviam estar desejando-a muito, tal é sofreguidão com que lhe sugam a pele, bem na dobra do pescoço, segurando firme a nuca inerte. Toda a sua atenção acorre e concentra-se de naqueles lábios que chupam, lambem, e descem até seu colo, inteiramente descoberto, e ela sente vergonha de seu despudor.

Outra mão lhe toca o joelho. E o vestido evasè não lhe faz resistência, de modo que em minutos a mão acaricia livremente o interior de sua coxa. Ela tem vergonha. Sempre tem vergonha de suas pernas. Não gosta da celulite que herdou de circunstâncias nada alvissareiras. Um arroubo de desagradável consciência lhe invade e ela tenta fechar as pernas, mas encontra a resistência decidida de duas mãos a mante-las abertas. E finalmente compreende que deve estar sendo atacada por um polvo. Conta três mãos em seu corpo e, se sua conta estiver correta, em breve haverá surpresas.

De quem será aquele puff fúcsia?

O polvo tem também duas bocas, e uma delas parece não dar a mínima para as suas celulites, já que aplica o mesmo tratamento de ventosas um palmo acima de seu joelho dobrado, que tudo indica ser o esquerdo. E então ela surge. A mão que falta. Ei-la a afastar o débil decote até que uma língua lhe toca, fugidia, o mamilo direito. E um choque de pudicícia e tesão lhe fazem abrir os olhos, o que adianta muito pouco, já que sua cabeça é mantida tombada para trás, o que lhe agrava a tonteira e torna a situação inelutável. Em especial porque as pessoas ao redor parecem nada notar enquanto dançam conforme a música.

Ademais ela está úmida e lânguida, sente aquela característica pressão na entrada da vulva, de modo que tudo parece muito certo.

Ainda mais agora que a mão de baixo lhe faz o gentil obséquio de, tirando-lhe a calcinha, libertar seu grande lábio comprimido e repuxado, pelo que ela suspira, agradecida.

As mãos de baixo são mais ásperas e têm como que uma calosidade que arranha um pouco, mas são igualmente pragmáticas e abrem suas pernas o suficiente para encaixar entre elas um corpo inteiro. Aquele é um polvo capaz de sentar-se. Ele levanta o vestido evasè acima de sua cintura e definitivamente ela está com vergonha, todas as suas gordurinhas meticulosamente guardadas e contidas a cada respiração estão expostas, não percebe?? Sim, vê, e parece gostar, o que mostra que o mundo conspira para nos deixar confusos, razão porque um pouco de haxixe com absinto são ocasionalmente muito benvindos.

Pelo que parecem horas, tem a virilha explorada, cheirada, lambida, acariciada. Os lábios são abertos com uma sensação untuosa. Uma ponta de dedo úmido lhe pressiona o clítóris e passeia de cima para baixo.

A mão que se ocupa da nuca parece querer que ela se vire de lado, a boca beija suas costas enquanto outra mão ainda segura firmemente seu seio, beliscando o mamilo um tanto mais do que o necessário. E a dor lhe lembra de emitir um gemido que é a deixa para que a coisa tome ares descontrolados.

De algum modo, para o qual certamente concorreu sua boa vontade, ela está virada de bruços sobre o puff. Da cintura para cima seu corpo pende para baixo, a cabeça de lado, com aquela grande mão firme em sua nuca. Seus quadris, inteiramente desnudos, suspensos no ar, e os joelhos, afastados, mal tocam o chão. Ela escorre. Pulsa.

Uma das mãos se esgueira por entre o puff e o corpo, erguendo-lhe o abdome com facilidade e ela pensa que aquele deve ser um polvo gigante. Uma outra mão se apóia em sua lombar de modo a que ela seja agora, para todos os efeitos, um quadril empinado, exposto, desejoso, desejável. E duas outras mãos lhe seguram, suadas e firmes, as ancas.

Nada acontece por minutos e ela está como os fios tensos da pauta de metal, onde as andorinhas gritam por falta de uma clave de sol.

As mãos mantém seus quadris imóveis – como se ela pretendesse ir a algum lugar… – e lhe abrem como a uma flor, e ela pode sentir os olhos. E então a língua. A outra mão se afunda ainda mais em sua lombar e finalmente uma voz, grossa, gutural:

– Chupa. Extrai a alma dela. Chupa até ela se abrir para quem quiser entrar.

E a língua, obediente, entra-se-lhe pelo cu e por entranhas insuspeitadas e de novo ela estava em algum brinquedo desses que giram muito forte, e nossos órgãos não podem acompanhar de modo que uma incongruência se estabelece em sua existência posto que criam-se dimensões inéditas já que a consciência, a sensação corporal e o corpo, de fato, parecem ocupar diferentes lugares no espaço, mas todos eles são invadidos por uma língua despudorada, que não conhece nenhum senso entre os vários que lhe poderiam impedir aquele ato e daí que ela está inteira lambuzada, incluindo o id, o ego, e desconfia-se que um pedaço de sua massa encefálica também. E por causa disso é inevitável que se lhe remexam os quadris e isso não teria fim se a voz de novo, não esclarecesse, traindo um tremor:

-Sai, eu preciso. Agora.

E por segundos que teriam sido fundamentais se ela pretendesse uma fuga, seu corpo ficou livre de mãos e línguas, e como não houvesse nenhuma menção ou movimento de sua parte, aquelas mãos, as autoritárias, as maléficas, lhe seguraram a cintura para que um pau rígido e de pouca conversa lhe invadisse a buceta sem se importar muito com o mais. E ela gritou. Porque não era possível uma coisa tão gostosa. Porque não era certo. Porque ainda podia ver que pessoas dançavam, alheias, porque ouvia a voz do Morrisey e isso tornava tudo mais surreal.

Mas o pau não parava. E suas pernas abandonaram o último resquício de tensão e seu corpo sacudia-se, frenético, contra aquele outro corpo que se chovaca violentamente contra o dela, a ponto de causar-lhe dor no colo do útero, uma dor de onde nascia uma sensação crescente de gozo.

Outra mão, delicada mas ansiosa, levantou seu queixo, e uma língua, aquela, segura e desavergonhada, lhe beijou a boca e ela se agarrou àquele beijo como se ele desse algum sentido ao que estava acontecendo e foi um beijo nervoso, interrompido e subsituído por um pau. Que não era grande mas cheirava a macho e possuía a espessura exata para lhe emprestar algum consolo, e ela pos-se a chupa-lo em agradecimento por ele estar ali, e ela não estar sozinha. Seus cabelos eram puxados para trás, para receber aquele homem que teve a gentileza de lhe dar seu pau e ela o chupava no mesmo crescente lento e certo com que sentia o gozo chegar. E chegaria, não houvesse então sentido o pau que lhe comia bombeando, e ouvido os gemidos que ele tentava conter. E ele tirou dela, impiedoso, e num protesto desolado ela parou de chupar e sentiu toda a solidão do mundo.

E eles puseram-se a rir. Demônios. Riram, e lhe beijaram. Vários beijinhos ternos e estalados pelo corpo. Como uma hidromassagem, e aquele a quem ela chupava declarou que teria o seu quinhão. E teve. E enquanto ele metia seu pau não tão grande, mas espesso, ergonômico, acupando cada espaço da sua buceta, criando um vácuo no seu ir e vir calmo e uniforme, os beijos continuaram pelas costas, nuca, testa, e a voz mais doce do mundo lhe disse:

– Olha pra mim.

E ela olhou.

E eram olhos escuros e lúcidos, como os olhos de um bandido. E a cada vez que ela era impulsionada para frente, por aquele pau diligente que a comia, ele fazia que sim, com a cabeça, olhando-a firme. E com aponta da língua provocou seus lábios, e ajoelhado, lhe deu seus mamilos a beijar e em seu ouvido, sussurrou:

– É ele quem está te comendo, mas o seu gozo é pra mim. Quero os seus olhos abertos, quero nuvens neles. Quero um beijo desesperado, quero tremor e lágrimas. Pra mim. Porque fui eu que te tomei. E você se entregou. Pra mim. Entendeu?

Si, si! Como no??

Como resistir a um homem que sabia que ela, mulher, era, naturalmente, dele?

E olhando naqueles olhos, e beijada por aquele homem, gozou um gozo de mil eras. Um gozo de valsa de Strauss. Um gozo em ondas. O corpo em espasmos. Os olhos nele, para ele. E o gozo era dele, também.

Enquanto as pessoas dançavam ao som de Sad Songs and Waltzes.

E então, inerte, palpitante, ela foi delicadamente limpa por algo úmido e agradável. Recomposta. Um sono necessário, curto, adveio e por todo ele foi velada. E depois levada para o local seguro de onde, no início daquela noite, havia partido para aquela festa num apartamento em Santa Teresa dentro do qual havia um puff mostarda.

Foi despida e acomodada em uma cama familiar. Ganhou um beijo suave. Porque aquele era um Homem.

Quando acordou, lhe doíam o corpo, a nuca, as pernas, a buceta, a virilha, a cabeça.

Manchas. Fluidos.

E de tudo, a sensação mais vívida era a daquele último beijo.

E seu corpo inteiro pedia por mais.


justa medida


E já que Chico está na pauta…

Aos dezessete anos, como soe acontecer, sofri grave desilusão de amor.

Interrompia-se um namoro que durara eternos 3 anos. Eu não sabia, então, que tão eternas quanto o namoro seriam as recaídas.

Os dias eram cinzentos, e eu flanava por eles com minha cacharél bordeaux e as mãos nos bolsos do jeans. Carrego pela vida a estranha noção de que desilusões amorosas requerem caminhadas em blusas cacharél. Pensava na minha existência arruinada. Tomei a irreversível decisão de que não mais amaria. Recordo-me vagamente dos auto-falantes haverem entoado A time for us, versão instrumental, neste momento.

Ato contínuo, imaginando que talvez a decisão fosse um tanto radical, resolvi flexibilizar: dali por diante, só cederia à tentação se me deparasse com alguém que se parecesse com o Chico Buarque.

À noite, numa tentativa desesperada de arrancar-me daquele marasmo bolorento, meu irmão arrastou-me para uma festa na Ilha do Governador (não me perguntem que tipo de tentativa é essa!). Eu, apática e lacrimosa, cumprimentava os amigos quando vi, num canto, um rapaz dedilhando um violão, coisa que os rapazes fazem não por outra razão senão a consciência do quanto parecem irresistíveis às moças em tais circunstâncias. Inclinação que, como a cacharél, também trago comigo.

Aproximei-me.

Ele era mulato, embora claro. Foi só o que eu pude ver já que era com a cabeça baixa que ele tocava Sina. Acomodada no chão, em frente a ele, e também cabisbaixa, como convém a alguém que apenas viveu seu derradeiro amor, comecei a cantarolar. Quando o grito do prazer açoitar o ar, reveillon e tals e, finalmente, virtuose e intérprete se encaram e, por Deus! eram verdes os seus olhos, um verde aquoso e inesperado, e uma boca perfeitamente desenhada… e tocava violão… êpa! o cara era praticamente o Chico Buarque!

Senhores, ocorreu assim como vos relato, juro por Iemanjá! E eu não cometeria tal perjúrio no dia dois de fevereiro! Que mil raios me partam e minha geladeira amanheça repleta de iogurtes de morango se eu estiver mentindo!

Com um sorriso, o menestrel indagou se poderia tirar proveito de meu tom mais agudo para acabar de tirar uma canção, pois encontrava-se empacado em um trecho. Eu, solícita, prontifiquei-me. Era Azul, também do Djavan, e a parte para a qual eu fora especificamente requisitada era aquela “alga marinha vá na maresia buscar ali…” e eu fiz o melhor que pude, talvez por umas trinta e seis vezes consecutivas.

Não me lembro muitos detalhes daquela noite, o que é raro. Não me lembro do espaço, mal sei de quem era a casa. Mas lembro de ter considerado um aviso divino eu dar de cara com aquela aparição de olhos verdes adornados por uma boca de coração a locupletar-se com um violão, e todas as minhas lembranças concentram-se em eu ter feito algo que fugia à minha natureza: “fiquei” com o cara.

Como era de se imaginar, em se tratando de uma festa na Ilha, dormi por lá, no chão de tacos da sala, sem lençol, entre algumas almofadas de tapeçaria, atracada com o cavalheiro andante de olhos buarquianos que me salvou do destino certo de entrar para as carmelitas, e não me refiro ao bloco de carnaval.

Lembro-me que eu vestia um short envelope de viscose muito colorida, e que as mãos dele passearam entre o tecido e a minha pele. Lembro da ereção. Lembro do meu queixo ardido no dia seguinte. Mas não lembro do nome dele, o que é bizarro. Tenho a impressão de que era Ricardo, mas isso pode ser só porque eu acho o nome sexy…

Além do elemento mágico, místico e misterioso daquele encontro, a noite foi memorável porque foi uma das únicas circunstâncias, senão a única, em que olhei para um homem (ou quase), decidi claramente que ele seria meu (ou quase) e tomei todas as providências para isso.

Onde andará aquele moço?

Por onde andam as bocas que a gente beija pela vida afora? Sempre estranho que se as perca…