E já que Chico está na pauta…

Aos dezessete anos, como soe acontecer, sofri grave desilusão de amor.

Interrompia-se um namoro que durara eternos 3 anos. Eu não sabia, então, que tão eternas quanto o namoro seriam as recaídas.

Os dias eram cinzentos, e eu flanava por eles com minha cacharél bordeaux e as mãos nos bolsos do jeans. Carrego pela vida a estranha noção de que desilusões amorosas requerem caminhadas em blusas cacharél. Pensava na minha existência arruinada. Tomei a irreversível decisão de que não mais amaria. Recordo-me vagamente dos auto-falantes haverem entoado A time for us, versão instrumental, neste momento.

Ato contínuo, imaginando que talvez a decisão fosse um tanto radical, resolvi flexibilizar: dali por diante, só cederia à tentação se me deparasse com alguém que se parecesse com o Chico Buarque.

À noite, numa tentativa desesperada de arrancar-me daquele marasmo bolorento, meu irmão arrastou-me para uma festa na Ilha do Governador (não me perguntem que tipo de tentativa é essa!). Eu, apática e lacrimosa, cumprimentava os amigos quando vi, num canto, um rapaz dedilhando um violão, coisa que os rapazes fazem não por outra razão senão a consciência do quanto parecem irresistíveis às moças em tais circunstâncias. Inclinação que, como a cacharél, também trago comigo.

Aproximei-me.

Ele era mulato, embora claro. Foi só o que eu pude ver já que era com a cabeça baixa que ele tocava Sina. Acomodada no chão, em frente a ele, e também cabisbaixa, como convém a alguém que apenas viveu seu derradeiro amor, comecei a cantarolar. Quando o grito do prazer açoitar o ar, reveillon e tals e, finalmente, virtuose e intérprete se encaram e, por Deus! eram verdes os seus olhos, um verde aquoso e inesperado, e uma boca perfeitamente desenhada… e tocava violão… êpa! o cara era praticamente o Chico Buarque!

Senhores, ocorreu assim como vos relato, juro por Iemanjá! E eu não cometeria tal perjúrio no dia dois de fevereiro! Que mil raios me partam e minha geladeira amanheça repleta de iogurtes de morango se eu estiver mentindo!

Com um sorriso, o menestrel indagou se poderia tirar proveito de meu tom mais agudo para acabar de tirar uma canção, pois encontrava-se empacado em um trecho. Eu, solícita, prontifiquei-me. Era Azul, também do Djavan, e a parte para a qual eu fora especificamente requisitada era aquela “alga marinha vá na maresia buscar ali…” e eu fiz o melhor que pude, talvez por umas trinta e seis vezes consecutivas.

Não me lembro muitos detalhes daquela noite, o que é raro. Não me lembro do espaço, mal sei de quem era a casa. Mas lembro de ter considerado um aviso divino eu dar de cara com aquela aparição de olhos verdes adornados por uma boca de coração a locupletar-se com um violão, e todas as minhas lembranças concentram-se em eu ter feito algo que fugia à minha natureza: “fiquei” com o cara.

Como era de se imaginar, em se tratando de uma festa na Ilha, dormi por lá, no chão de tacos da sala, sem lençol, entre algumas almofadas de tapeçaria, atracada com o cavalheiro andante de olhos buarquianos que me salvou do destino certo de entrar para as carmelitas, e não me refiro ao bloco de carnaval.

Lembro-me que eu vestia um short envelope de viscose muito colorida, e que as mãos dele passearam entre o tecido e a minha pele. Lembro da ereção. Lembro do meu queixo ardido no dia seguinte. Mas não lembro do nome dele, o que é bizarro. Tenho a impressão de que era Ricardo, mas isso pode ser só porque eu acho o nome sexy…

Além do elemento mágico, místico e misterioso daquele encontro, a noite foi memorável porque foi uma das únicas circunstâncias, senão a única, em que olhei para um homem (ou quase), decidi claramente que ele seria meu (ou quase) e tomei todas as providências para isso.

Onde andará aquele moço?

Por onde andam as bocas que a gente beija pela vida afora? Sempre estranho que se as perca…

Sobre mistakegirl

Vaca profana por princípio e vocação... la leche buena toda em mi garganta, la mala leche para los puretas... Ver todos os artigos de mistakegirl

Uma resposta para “E já que Chico está na pauta…

  • Maria

    Djavan só serve para duas situações:

    1 – Tocar violão para pegar meninas com cacharél.

    2 – Ficar analisando as letras tipo “Zum de besouro um imã”. De preferência depois de um back para tudo ficar muito mais divertido!

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