O ceifador de gozos

Semi-consciência.

A sensação de qualquer coisa muito maleável a envolve-la. Um movimento anti-gravitacional resulta em onírica ondulação e seu corpo submerge. Concentra-se. Parece couro. Talvez preto. Ou amarelo-gema. Suas pernas estarão dobradas, esticadas, abertas? Cada olho pesa cerca de doze quilos, e lhe faltam boas razões para empreender o esforço de abri-los. Seria, porém, conveniente, saber o estado de suas pernas já que há outras pessoas no local e ela está com seu vestido evasè. E sabe disso porque a pala de crochê em sua cintura sempre permeia aquela ventilação. Definir o estado de suas pernas se torna vital para saber quanto respeito ainda lhe resta, especialmente porque não consegue se lembrar se a calcinha é minimamente apresentavel. Decide que tem uma perna dobrada e outra esticada e que o braço direito lhe escorre pelo puff.

O estômago está um tanto agressivo. Ressente-se do absinto, talvez.

Gostaria de estar dançando. A canção, como um alívio, lhe preenche o raciocínio. Tom’s Dinner. Tchutchutchúru tchutchutchúru tchutchutchuru tchutchutchuru. Percebe que há pessoas fazendo isso, em silêncio. Quantas serão? Quem seriam? Não consegue se lembrar quem pode ser o feliz proprietário daquele confortável puff roxo.

Tem sede. Haxixe sempre lhe dá muita sede.

Quando menina, após um domingo inteiro no Tivoli Park, já banhada e deitada para dormir, ela sentia o corpo caindo em queda livre. Resultado de tanto tempo com os pés fora do chão, submetida a trancos, luppings e velocidades. E assim se sente agora. Afundando naquele couro que há de ser verde oliva. E isso é bom.

Abre discretamente os olhos. Escuro. Em frente a uma estante onde se destaca a luz azul do display do Cd player, umas seis ou sete pessoas dançam sinuosamente. Parecem bonitas. Uma calopsita parece tocar maracas em uma gaiola cromada. Há outra luz azul em algum lugar incidindo sobre a sala. É tudo muito bonito. E difícil de olhar. Há ainda coisas a descobrir em seu interior. Por exemplo, ela sente com perfeição o local onde está pousado o elástico do lado esquerdo de sua calcinha, seja ela qual for, e não é cômodo, ele belisca o grande lábio e repuxa discretamente seus pelos. Isso não é bom, mas parece tão difícil de resolver…

E imersa em tais conjecturas é surpreendida por uma mão que lhe ergue vagarosamente a nunca. A cabeça pende para trás e sente lábios em seu pescoço. Lábios que de certo canto daquela sala que paira sobre a lógica do mundo, deviam estar desejando-a muito, tal é sofreguidão com que lhe sugam a pele, bem na dobra do pescoço, segurando firme a nuca inerte. Toda a sua atenção acorre e concentra-se de naqueles lábios que chupam, lambem, e descem até seu colo, inteiramente descoberto, e ela sente vergonha de seu despudor.

Outra mão lhe toca o joelho. E o vestido evasè não lhe faz resistência, de modo que em minutos a mão acaricia livremente o interior de sua coxa. Ela tem vergonha. Sempre tem vergonha de suas pernas. Não gosta da celulite que herdou de circunstâncias nada alvissareiras. Um arroubo de desagradável consciência lhe invade e ela tenta fechar as pernas, mas encontra a resistência decidida de duas mãos a mante-las abertas. E finalmente compreende que deve estar sendo atacada por um polvo. Conta três mãos em seu corpo e, se sua conta estiver correta, em breve haverá surpresas.

De quem será aquele puff fúcsia?

O polvo tem também duas bocas, e uma delas parece não dar a mínima para as suas celulites, já que aplica o mesmo tratamento de ventosas um palmo acima de seu joelho dobrado, que tudo indica ser o esquerdo. E então ela surge. A mão que falta. Ei-la a afastar o débil decote até que uma língua lhe toca, fugidia, o mamilo direito. E um choque de pudicícia e tesão lhe fazem abrir os olhos, o que adianta muito pouco, já que sua cabeça é mantida tombada para trás, o que lhe agrava a tonteira e torna a situação inelutável. Em especial porque as pessoas ao redor parecem nada notar enquanto dançam conforme a música.

Ademais ela está úmida e lânguida, sente aquela característica pressão na entrada da vulva, de modo que tudo parece muito certo.

Ainda mais agora que a mão de baixo lhe faz o gentil obséquio de, tirando-lhe a calcinha, libertar seu grande lábio comprimido e repuxado, pelo que ela suspira, agradecida.

As mãos de baixo são mais ásperas e têm como que uma calosidade que arranha um pouco, mas são igualmente pragmáticas e abrem suas pernas o suficiente para encaixar entre elas um corpo inteiro. Aquele é um polvo capaz de sentar-se. Ele levanta o vestido evasè acima de sua cintura e definitivamente ela está com vergonha, todas as suas gordurinhas meticulosamente guardadas e contidas a cada respiração estão expostas, não percebe?? Sim, vê, e parece gostar, o que mostra que o mundo conspira para nos deixar confusos, razão porque um pouco de haxixe com absinto são ocasionalmente muito benvindos.

Pelo que parecem horas, tem a virilha explorada, cheirada, lambida, acariciada. Os lábios são abertos com uma sensação untuosa. Uma ponta de dedo úmido lhe pressiona o clítóris e passeia de cima para baixo.

A mão que se ocupa da nuca parece querer que ela se vire de lado, a boca beija suas costas enquanto outra mão ainda segura firmemente seu seio, beliscando o mamilo um tanto mais do que o necessário. E a dor lhe lembra de emitir um gemido que é a deixa para que a coisa tome ares descontrolados.

De algum modo, para o qual certamente concorreu sua boa vontade, ela está virada de bruços sobre o puff. Da cintura para cima seu corpo pende para baixo, a cabeça de lado, com aquela grande mão firme em sua nuca. Seus quadris, inteiramente desnudos, suspensos no ar, e os joelhos, afastados, mal tocam o chão. Ela escorre. Pulsa.

Uma das mãos se esgueira por entre o puff e o corpo, erguendo-lhe o abdome com facilidade e ela pensa que aquele deve ser um polvo gigante. Uma outra mão se apóia em sua lombar de modo a que ela seja agora, para todos os efeitos, um quadril empinado, exposto, desejoso, desejável. E duas outras mãos lhe seguram, suadas e firmes, as ancas.

Nada acontece por minutos e ela está como os fios tensos da pauta de metal, onde as andorinhas gritam por falta de uma clave de sol.

As mãos mantém seus quadris imóveis – como se ela pretendesse ir a algum lugar… – e lhe abrem como a uma flor, e ela pode sentir os olhos. E então a língua. A outra mão se afunda ainda mais em sua lombar e finalmente uma voz, grossa, gutural:

– Chupa. Extrai a alma dela. Chupa até ela se abrir para quem quiser entrar.

E a língua, obediente, entra-se-lhe pelo cu e por entranhas insuspeitadas e de novo ela estava em algum brinquedo desses que giram muito forte, e nossos órgãos não podem acompanhar de modo que uma incongruência se estabelece em sua existência posto que criam-se dimensões inéditas já que a consciência, a sensação corporal e o corpo, de fato, parecem ocupar diferentes lugares no espaço, mas todos eles são invadidos por uma língua despudorada, que não conhece nenhum senso entre os vários que lhe poderiam impedir aquele ato e daí que ela está inteira lambuzada, incluindo o id, o ego, e desconfia-se que um pedaço de sua massa encefálica também. E por causa disso é inevitável que se lhe remexam os quadris e isso não teria fim se a voz de novo, não esclarecesse, traindo um tremor:

-Sai, eu preciso. Agora.

E por segundos que teriam sido fundamentais se ela pretendesse uma fuga, seu corpo ficou livre de mãos e línguas, e como não houvesse nenhuma menção ou movimento de sua parte, aquelas mãos, as autoritárias, as maléficas, lhe seguraram a cintura para que um pau rígido e de pouca conversa lhe invadisse a buceta sem se importar muito com o mais. E ela gritou. Porque não era possível uma coisa tão gostosa. Porque não era certo. Porque ainda podia ver que pessoas dançavam, alheias, porque ouvia a voz do Morrisey e isso tornava tudo mais surreal.

Mas o pau não parava. E suas pernas abandonaram o último resquício de tensão e seu corpo sacudia-se, frenético, contra aquele outro corpo que se chovaca violentamente contra o dela, a ponto de causar-lhe dor no colo do útero, uma dor de onde nascia uma sensação crescente de gozo.

Outra mão, delicada mas ansiosa, levantou seu queixo, e uma língua, aquela, segura e desavergonhada, lhe beijou a boca e ela se agarrou àquele beijo como se ele desse algum sentido ao que estava acontecendo e foi um beijo nervoso, interrompido e subsituído por um pau. Que não era grande mas cheirava a macho e possuía a espessura exata para lhe emprestar algum consolo, e ela pos-se a chupa-lo em agradecimento por ele estar ali, e ela não estar sozinha. Seus cabelos eram puxados para trás, para receber aquele homem que teve a gentileza de lhe dar seu pau e ela o chupava no mesmo crescente lento e certo com que sentia o gozo chegar. E chegaria, não houvesse então sentido o pau que lhe comia bombeando, e ouvido os gemidos que ele tentava conter. E ele tirou dela, impiedoso, e num protesto desolado ela parou de chupar e sentiu toda a solidão do mundo.

E eles puseram-se a rir. Demônios. Riram, e lhe beijaram. Vários beijinhos ternos e estalados pelo corpo. Como uma hidromassagem, e aquele a quem ela chupava declarou que teria o seu quinhão. E teve. E enquanto ele metia seu pau não tão grande, mas espesso, ergonômico, acupando cada espaço da sua buceta, criando um vácuo no seu ir e vir calmo e uniforme, os beijos continuaram pelas costas, nuca, testa, e a voz mais doce do mundo lhe disse:

– Olha pra mim.

E ela olhou.

E eram olhos escuros e lúcidos, como os olhos de um bandido. E a cada vez que ela era impulsionada para frente, por aquele pau diligente que a comia, ele fazia que sim, com a cabeça, olhando-a firme. E com aponta da língua provocou seus lábios, e ajoelhado, lhe deu seus mamilos a beijar e em seu ouvido, sussurrou:

– É ele quem está te comendo, mas o seu gozo é pra mim. Quero os seus olhos abertos, quero nuvens neles. Quero um beijo desesperado, quero tremor e lágrimas. Pra mim. Porque fui eu que te tomei. E você se entregou. Pra mim. Entendeu?

Si, si! Como no??

Como resistir a um homem que sabia que ela, mulher, era, naturalmente, dele?

E olhando naqueles olhos, e beijada por aquele homem, gozou um gozo de mil eras. Um gozo de valsa de Strauss. Um gozo em ondas. O corpo em espasmos. Os olhos nele, para ele. E o gozo era dele, também.

Enquanto as pessoas dançavam ao som de Sad Songs and Waltzes.

E então, inerte, palpitante, ela foi delicadamente limpa por algo úmido e agradável. Recomposta. Um sono necessário, curto, adveio e por todo ele foi velada. E depois levada para o local seguro de onde, no início daquela noite, havia partido para aquela festa num apartamento em Santa Teresa dentro do qual havia um puff mostarda.

Foi despida e acomodada em uma cama familiar. Ganhou um beijo suave. Porque aquele era um Homem.

Quando acordou, lhe doíam o corpo, a nuca, as pernas, a buceta, a virilha, a cabeça.

Manchas. Fluidos.

E de tudo, a sensação mais vívida era a daquele último beijo.

E seu corpo inteiro pedia por mais.

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Sobre mistakegirl

Vaca profana por princípio e vocação... la leche buena toda em mi garganta, la mala leche para los puretas... Ver todos os artigos de mistakegirl

7 respostas para “O ceifador de gozos

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