Arquivo do mês: abril 2012

Fruta mordida

A deliícia suprema de arrumar o ninho.

Fazer uma caminha macia com cheirinho de alecrim e antever os risos, os gozos.

E sorrir com a alma.

A estranha calma de quem espera pelo inexorável.

A oferta plena: meu corpo, minha compreensão, meu ombro, minha língua, minha confusão.

Íntimo. Descomplicado. Confortável.

Prescindir de defesas.

É bastante.

É tanto.



Ilustrando…

Em momento algum ponho em questão a beleza das moças.

Meu argumento é apenas que, de jeans com elastano ou seda, de renda ou legging, na boca do luxo ou do lixo,  elas são norteadas pelo mesmo conceito…

Luma, a Jéssykah por excelência, e com grana...

Aspirações de Jéssykah

olha pra isso....

E por aí vai, amiguinhos…


Vox Populi II

Conforme  prometido na primeira postagem assim denominada, aí vai a tal caraminhola:

Fico pensando se o que faz de um certo tipo de mulher irresistível para um homem, é o mesmo tipo de  necessidade que faz da maternidade uma premência inelutável  para uma mulher.

Talvez a coisa não seja assim tão inexorável, do contrário não haveria mulheres que optam por não serem mães, e nem homens que não são atraídos pelo tipo em questão. Há que se convir, no entanto, que, proporcionalmente, ambas as situações são deveras raras.

Se o modelo da harmonia física se estabelece a partir das medidas do homem vitruviano e  a fórmula da beleza implica numa simetria de traços, a lei atração entre os gêneros certamente implica, da parte masculina, na vulgaridade. E digo isso sem qualquer juízo de valor. Refiro-me tão somente ao corpo às claras, não só exposto como ressaltado estrategicamente por aviamentos e texturas que tem essa finalidade clara: a de torna-lo vulgar, comum, atingível e por isso, desejável. E este conceito – o da exaltação da vulgaridade –  encontra sua expressão na moda adotada por mulheres de cada um dos estratos sociais.

Não vi ainda homem capaz de resistir a uma mulher como aquela que descrevi num comentário recente no distinto blog  Idéias Lascivas :  calça de stretch, piercing de penduricalho no umbigo, top meia taça, plataforma turbinada com paetês.

Tanto melhor se este conjunto se oferecer sinuosamente em ritmos tão primitivos quanto os instintos que buscam despertar.

Um homem – incauto, indefeso homem – pode até não gostar dos elementos isoladamente, pode rechaçar os simbolismos culturais e alegar valores sociais distintos. Pode até negar. Mas não evitará a ereção.

Visto por esta ótica, sinto-me um organismo manipulado geneticamente, um humanóide mutante do gênero feminino, ao qual falta o mais básico instinto de preservação da espécie, única razão que pode explicar eu ter aberto mão conscientemente dos subterfúgios a que minha natureza feminina devia me compelir.

Anos de João Gilberto, Marcel Proust e nouvelle cuisine me degeneraram ao ponto de eu simplesmente não ser capaz de ser esta mulher de bijouterias douradas e luzes no longo cabelo. Essa mulher que sorri como quem mata.

E… desconfio que meu tipo físico também não contribui para a inclinação.

Pode ser que eu sinta um pouco de inveja.

A mim, me sobram as palavras. Minha faixa de patchwork, o chale de renda de bilro, o short de tenerife. Julio Cortazar e Mallarmè. Minha coleção de álbuns de Chico Buarque e o arquivo com todas as versões do Adagio do Concerto de Aranjuez que consegui encontrar. A mim me sobram as coisas que meu senso estético distorcido me faz identificar como boas, belas e cobiçáveis.

Se o belo está em Debussy e Luchino Visconti, e o bom está em Platão e Aristóteles, o instintivamente desejável parece estar na Jéssykah Lorrane rebolando até o chão chão chão chão chão chão.

O que faz de mim uma elaboração do desejo. Um grão de soja transgênico.

O senso crítico é uma degeneração, percebo agora.


Junkie

E para que eu haveria de querer dizer com minhas palavras imprecisas, o que outros disseram com tamanha delicadeza?

Queres saber? Não te dou. A sensação é minha só, não é de mais ninguém.

Ademais, se conto, me foge. É preciso concentrar em mim cada fragmento.

Que permaneça em minha retina a imagem.

Que meus seios – e ele rindo, corrigirá: peitos! –  doídos, frágeis, sejam o justo tributo do desejo.

A quem mais interessará saber do meu sorriso?

Da nossa noite – oração na catedral – só a nós é dado recordar.

Minha pele recompõe-se vagarosamente das ranhuras que a barba dele me fez. Das sevícias com que grande, ávido, tingiu meu corpo.

Os mamilos dela, já não os posso sentir vivazes, em minhas palmas.

E seus olhos, que amaldiçoam e bendizem, se escondem no fundo de mim, quando os quero aqui, atentos, travessos, ressacados.

 

Hora de buscar pela próxima dose.

 

 


(…)

E nos músculos exaustos
Do teu braço
Repousar frouxa, murcha
Farta, morta de cansaço…

Quero pesar feito cruz
Nas tuas costas
Que te retalha em postas
Mas no fundo gostas
Quando a noite vem…

Quero ser a cicatriz
Risonha e corrosiva
Marcada a frio
Ferro e fogo
Em carne viva…

(…)

Tatuagem, Chico Buarque


Se você quer ser minha namorada

Ai que linda namorada

Você poderia ser…

 

(Vinícius de Moraes)


E teve. Ahhhhhhhhh, teve.


Hoje tem. Ahhhh… tem.


Vox Populi

Por uma eternidade, tive um namorado.
Rapaz de boa família, visual alternativo, estudante de letras, alto, gordinho, barbinha sempre por fazer, uns olhos lindos. Tocava violão clássico. Delícia.
Apresentou-me The doors e Echo and the Bunnyman.
Juntos poderíamos cantar em dueto toda a obra do Chico Buarque, e ele tinha o talento notável de decorar as letras mais impossíveis como Corrente e O que será. Cantava até O quereres, coisa de que, desconfio, nem Caetano é capaz.
Tinha adoração pelo Theatro Municipal do Rio de Janeiro.
Não gostava de praia e nem de multidões.
Adorava escritores rusos e falava francês.
Grande figura.

Reza a lenda que de vez em quando trafega por aqui.

Seis anos, e uma de nossas melhores trepadas foi dias antes de terminarmos.
Corria o ano da graça de 1999 e o sucesso pegajoso do momento era o dodecassílabo “Pimpolho”, com o Art Popular Ensemble.
Estavámos sozinhos no ateliê da mãe dele, do qual roubamos a chave, e ali não havia nada senão um rádio.
Eu havia fumado um. Coisa que não era meu hábito. Pra resumir: chapacrazy.
E o rádio mandou o “Pimpolho”. Maluco, a pessoa perdeu a linha.
Nem em churrasco na laje se viu uma criatura sacudir tanto ao som de um pagode.
E ele, com suas poucas palavras e gestos contidos, sentado, olhava meio ávido aquela cena que, convenhamos, não fosse o nível de THC, devia estar bizarra.
A música acabou, e eu estava à beira de um ataque asmático quando ele levantou, com uma cara de maníaco do parque nunca dantes vista, me jogou no chão e me comeu como se pretendesse cometer um assassinato com o próprio pau.

Juro que esse relato tem tudo a ver com uma caraminhola que pretendo desenvolver em breve. Por ora, porém, apenas guardem esta história para posterior avaliação, à luz de meu raciocínio indefectível.

Por hoje, após os acontecimentos da noite, apenas uma questão ecoa:

Senhores, FAZ SENTIDO????