Malpighia Emarginata

O caso é que a coisa nunca é assim muito bem como se diz. Já não sendo, antes, o que se diz, muito condizente com o que sucedeu. E menos ainda o sucedido e dito logra ser compreendido tal como se deu. De maneira que por vezes, até a quem narrou o fato, cabe duvidar de sua acontecência.

E isto descreve com bem mais competência Suassuna, quando seu Chicó nos diz que “como é que foi, não sei… só sei que foi assim”.

E doutro modo – se nem ao menos disso soubéssemos (que foi assim!) – era caso de um niilismo tão flagrante que recomendava fortemente ao estimado leitor que desse cabo agora mesmo desta leitura inútil.

Isto pôsto, e contando com a compreensão do senhor, que há de levar em conta todas as relativizações antes mencionadas, considero que posso contar o causo.

Pois vá vendo que assim como há plantas que, em tocadas, dormem, aquelas há que, desfeiteadas, vingam-se. Pois creia, meu senhor, minha senhora.
Deste modo é o pé de acerola. Com aquele jeitão inofensivo fica ali, manso. Mas já era de se imaginar que um arbusto que dá frutos tantas vezes por ano, havia de querer qualquer coisa em troca. Nem que fosse trocejar com os incautos.

Eu, de meu lado, nunca simpatizei com a fruta. Acho que é muito caroço para pouco dulçor e sempre fiz pouco caso. Pois aquele pé, sabedor disso, aguardou a hora certa, como quem espera o bonde correto, para mostrar quem aqui é que é o azedo.

E o tal bonde deu de passar no fim de semana último.

Ocasião arrumada. Dúzia de 6 ou 7 amigos. Filharada e agregados da vizinhança. Como soe acontecer em fim de tarde chuvoso, num março até bem seco, faltou-nos a luz. Mas ninguém deu pelo caso, e a noite já ia alta, o pão de queijo, o lampião e a batida de côco bastando de sobejo. E não era só para mim que se lançavam uns olhares buliçosos. A quadrilha parecia armada.

E tudo teria transcorrido em calmo prosear não fosse a piazada que nos dias que correm, desaprendeu a brincar. Não lhes basta os companheiros nem o relento promissor. Sem seus laptops, wiis, play stations e afins, perdem o prumo. Se lhes falta a energia elétrica, ao invés de fugir dos adultos como do tinhoso, põem-se ao redor deles a indagar do que brincar, como brincar, e o pior, a pedir companhia para os folguedos.

Vendo que o caso era sério, concedemos uma partida de pique-esconde para fins demonstrativos.

Tenho por princípio não correr, atividade que sempre me pareceu um tanto eqüina (tanto quanto comer de pé, em balcão), então minha vantagem fica na astúcia em escolher bom econderijo. O que não era difícil, conhecendo o terreno e me valendo do escuro da noite sem luz e sem lua.

Encaminhei-me para os fundos do mato, onde mora o escuro do mundo e aonde criança alguma teria peito de estar.

Agachei-me, muito certa de minha superioridade, atrás de um pé de cacau. E pus-me a esperar.

Mas eis que um barulho anuncia a chegada de outro. Reverberando clara ainda a contagem do pobre guri que não havia saído a procurar, mantive a boca fechada e o corpo imóvel.

Um, dois, três e já! e lá veio ele, procurando aqui e acolá, longe léguas, até que insinua vir na direção do fundo do terreno. Foi quando aquele que chegou depois, se arrasta para o meu lado, tomando um susto ao notar minha presença. E mesmo mal discernindo seus olhos, percebi que era ele – oh destino inexorável – o dos olhos cobiçosos. O único a quem eu ainda não conhecia antes desta ocasião.

Um sinal cúmplice de silêncio e permanecemos de cócoras, quietos, observando as crianças que voltavam do meio do caminho, desencorajadas pelo breu.

E não se passou meio minuto até eu sentir uma mão em minha cintura e um pau bastante rijo comprimindo-se em mim. Um beijo molhado em meu pescoço. Um arrepio generalizado, um arfar.

Levo muito a sério essa coisa de sacanagem. E se é para fazer, que seja direito. Por isso puxei o moço pela mão para a moita mais próxima.

E qual era a moita mais próxima?
O pé de acerola, convidativo, reluzente mesmo no escuro, com suas frutas detestáveis, carregadinho, maléfico.
Quem já viu um diabo de um pé de acerola, de boa idade, em solo adequado, sabe que ele é feito para o pecado, baixo, frondoso, com uma copa que se fecha em torno do tronco, deixando um oco. Praticamente um motel silvestre. E como a hora não era para considerações botânicas, em minutos estávamos ali, protegidos por milhões de galhos, frutas insossas e suas folhas assassinas.

E tudo em que consegui pensar foi tirar a canga da cintura, estendê-la no chão onde o rapaz, esperto, sentou-se, esmagando dezenas de acerolas inúteis, já com a sunga afastada. A mim, restou afastar meu próprio biquini e iniciar os trabalhos. Mesmo eu não sendo baixa, mesmo ele sendo ainda maior que eu, mesmo sentada sobre ele, mesmo rebolando sobre ele, mesmo gemendo sobre ele, mesmo ele agarrando meu cabelo e meus quadris, mesmo assim, tenho certeza, se alguém olhou de fora, não viu uma folha movimentar-se.

É incrível como em situações de pressão, tudo o que se consegue pensar é: por que eu não posso ter esse pau por horas em uma ocasião normal? Por que logo com ESSE pau vai ter que ser assim??? Por que para cada cem trepadas mais ou menos tediosas rola uma assim em que tudo dentro de mim parece se contorcer e justo essa tem que ser à jato?

Mas àquela altura, não era possível que faltasse tanta gente a ser encontrada e nesse caso estaríamos somente os dois sumidos e depois de um dos gozos mais fantásticos do último milênio, nos arrastamos pra fora da moita, sem nem trocar telefones e fomos um para cada lado para bater o “comigo não tá!”.

Fui andando devagar, investigando o caminho, dando tempo para ele chegar antes e… comecei a me coçar. Muito. Alucinadamente.

Sabe quando você acha que está atingindo o lugar que crê que esteja originando a coceira, mas por mais que lacere sua própria pele, nada sacia o prurido e então a gente nota que o que está conçando é algo ali entre a alma e o perispírito? Pois é, foi isso. Pior que coçar dentro do gesso com a régua. Pior que coçar o ouvido enfiando um cotonete na garganta. Pior que morrer! Eu já não conseguia andar, curvada, me coçando, vermelha, desesperada, quando uma simpática criança me viu, correu para a pilastra e com três batidinhas anunciou aos berros: UM DOIS TRÊS JÁ TE VI FUCKING IDIOT MISTAKE GIRL!

E já sob a luz do lampião, contorcida em coceira, tentei localizar meu companheiro de moita, e, meus amigos, é como sempre digo: não há nada ruim o suficiente que não possa piorar. Avisto – horrorizada – o cujo, dentro da piscina, em movimentos toscos, que denunciavam uma crise epilética ou um ataque de urticária.

Como todos acompanharam o meu olhar, parei imediatamente de me coçar, e senti uma lágrima escorrendo, ou talvez fosse minha massa encefálica, depois de eu ter perfurado meu crânio, me coçando.

Tive a sensação de que o olhar da mulher dele penetrou minha alma, esbarrando inclusive com a folha de acerola no perispirito (que foi quando ela deve ter entendido tudo), e de mim olhava para ele, que subitamente pôs-se a nadar de um lado a outro passando minutos intermináveis sem nem tomar ar, o que arrancou de todos expressões de confusão e admiração!

Durante alguns minutos consegui me manter ereta, com um sorriso cândido e as mãos delicadamente pousadas na cintura, de onde pendia uma canga adornada por milhões de acerolas esmigalhadas. E tudo escorria de mim, sangue, suor, lágrimas, massa encefálica e certamente um pouco de xixi, também.

E talvez nada tivesse tido maiores consequências se uma daquelas crianças hodiernas não tivesse inquirido, com a maior boca sem dentes que eu já tive o desprazer de ver: TIA! O QUE É AQUILO NO SEU BRAÇO?!?!?! Apontando, com seu dedinho subdesenvolvido, roído, imundo, hipernutrido, torto e melequento, os sulcos que minhas próprias unhas haviam feito por todo o meu braço.

O desdobrar da história não cabe a este espaço, pois já vai longe a narrativa. E mesmo isso que conto, o faço somente no intuito de satisfazer a mórbida curiosidade do amável leitor.

Mas como toda a história deve ter uma moral, repito aqui aquela – de interesse público – com a qual já lhes havia advertido. E à moda de Mestre Sapo, ao fim d’A Festa do Céu, já esborrachado, volto a lhes avisar:

Trepar sob o pé de acerola, amiguinhos? Escutem bem: Está errado!!!

Quanto ao mais. Ok.

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Sobre mistakegirl

Vaca profana por princípio e vocação... la leche buena toda em mi garganta, la mala leche para los puretas... Ver todos os artigos de mistakegirl

7 respostas para “Malpighia Emarginata

  • Juan

    PQP …
    mas isso é um tratado sobre botânica ou sobre sexo libidinoso??!?
    temos uma explicação simples para as suas coceiras: as folhas das malpiguiáceas, em geral, possuem células com cristais de oxalato de cálcio, isolados ou em drusa (cachos). Esses cristais são liberados para o ambiente quando as folhas são tocadas e em contato com a pele (e principalmente com as mucosas) podem causar irritações e coceiras (voce tocou alguma folha com sua delicada buceta durante a cópula em questão??!? a irritação das mucosas é bem mais acentuada do que a da epiderme).
    a outra curiosidade é a origem do nome científico (da árvore, não da buceta) o Marcello Malpighi viveu no século XVII e foi um dos desenvolveddores do microscópio (como conhecemos hoje) e seu nome percorre toda a ciência, da zoologia, passando pela medicina, fisiologia de humanos, vertebrados e invertebrados, à botânica, uma vez que cientistas de todas as áreas o homenageiam pela valiosa colaboração no desenvolvimento do já citado instrumento ótico.

  • mistakegirl

    O que eu escrevi era só uma croniqueta… já o seu comentário sim… um tratado…. muito elucidativo, por sinal… A audiência agradece. Mas enfim, só corroborou com a minha tese (devidamente demonstrada): há árvores que se vingam. E ponto final.

  • Trodat

    Não sei o que é mais gostoso, a crônica da garota ou o tratado do Juanito. Ambos deliciosos…

  • Maria

    Ainda bem q vc elucidou o causo, pois o João já estava indagando uns amigos, se no sítio que vamos passar o feriado, tinha algum pé da frutinha sedutoramente malígna!

    Em todo caso, depois das questões levantadas pelo Juan, ficamos curiosos como foi essa trepada no sentido mais amplo… e, devido a nossa respeitavel abelhudice, achamos por bem endossar o coro que reivindica fotos das suas partes. Claro que, com o nobre motivo de avaliar o contato da plantinha com sua mucosa bucetal!

  • mistakegirl

    A Cronista reserva-se o direito de manter restritas as lamentáveis imagens de suas partes pudendas. Laceradas ou não. Certa de contar com sua compreensão, subscrevo-me e despeço-me.

  • Juan

    tenho um pé de acerola aqui em casa, se quiser, traga a buceta que tiro uma foto com minha Nikon X9 que (como o nome já esclarece) entrega seus segredos para a platéia … bejunda.

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