Mamãe: aqui tá mais escuro!

Este blog nasceu sem maiores pretensões que as de constituir um espaço de escrita. Eu, a pessoa por trás da Mistake Girl, criei um personagem, e é ele quem tem um blog. Têm sido tantas as ponderações, interações e situações por tal espaço suscitadas, que a personagem e seus elementos hoje ocupam uma proporção surpreendente em minha vida.

A partir deste blog, conheci outros, e do que dizem os outros, nasceram uma série de reflexões. A uma delas me aterei hoje.

Tenho lido muito por aí que seria ótimo se os conteúdos eróticos pudessem ser encabeçados por personas e não personagens. Percebo uma certa mágoa de que a pornografia seja mantida nas sombras. Em breve haverá, se já não os há, movimentos revolucionários com panfletos propondo a libertação do erotismo!

Essa jamais foi uma questão para mim. Tenho dois blogs. Um da criadora, um da criatura. O que aqui está, não está lá porque eu, criadora, não desejo que seja assim. E vice-versa. Aqui é o quarto, o boudoir da minha existência. Onde estão as “minhas coisas”. Eu sempre prezei muito meu quarto e minhas coisas. Aqui se jogam jogos de adultos. E que graça tem os jogos que se jogam às claras? Sexo não é uma partida de tênis. É uma mão de poker. De strip poker, de preferência.

Eu não penso que num mundo ideal o erotismo e a pornografia devam ser elementos naturais do cotidiano.

Quanto a isso, concordo com o dramaturgo alemão Karl Kraus, que entre vários aforismos, é autor deste, que registrou na fase de sua produção italiana:

L’erotismo è una corsa ad ostacoli. L’ostacolo più seducente e più popolare è la morale.

Em livre tradução, ele diz que “O erotismo é uma corrida de obstáculos. O obstáculo mais sedutor e mais popular é a moral”.

É isso. A moral é necessária como contraponto e estímulo. A sedução, o sexo, precisam opor-se à moral para existirem como prazer, como pulsão. Doutro modo, se o sexo pudesse ser regido pela moral, se houvesse regras que o permitissem sair das sombras e ser englobado pelo sistema e pela sociedade, este seria o sexo estritamente reprodutivo (não por acaso, uma regra religiosa). Como o que fazem os cachorros às claras nas praças, e eventualmente no meu quintal, causando grande frisson, aliás.

Se, como creio, Freud estiver certo, a Pulsão, esta coisa que nos impele e comanda, inclusive e sobretudo, sob o aspecto sexual, é algo que por definição é particular, intrínseco e somático. E são as pulsões diversas, soberanas e não submissiveis a controles sociais.

O seu tesão em estar aqui, em me ler, e observar as considerações sexuais de uma outra pessoa, se dá, precisamente, porque você está, neste exato minuto, certo de que não está sendo observado. A este lugar, e a tantos outros, você é trazido por impulso, instinto, e há um sentido de satisfação que só pode ser obtido no silêncio necessário entre a nossa interação: você recebendo o estímulo que eu tenho para te dar.

Isso também acontece no Mac Donald’s, onde você vai no meio da tarde, em companhia de seus pares. Só que aquilo não te satisfaz sexualmente (a não ser porque literalmente fode o seu corpo).

Sexo e sexualidade, no humano, este animal que a cultura diferençou de outros, pertencem à dimensão do subjetivo, e como tal, estão, eminentemente, sob a égide particular de cada ser humano. Os únicos seres humanos que prescindem desta prerrogativa são aqueles privados de cognição. Os mentalmente incapazes, que se bolinam abertamente, em meio à sujeira e à desolação, não por desejo, mas por inépcia. A cognição, a cultura, são semente e fruto do prazer.

“Eu gosto de bolinar e ser bolinado abertamente e sou mentalmente capaz”, você dirá. E eu retorquirei: eu também. Mas argumentarei: Sim, mas fazemos isso por “perversão” (antes de contestar o termo, pesquise-o) em condições muito diferentes daqueles que aqui denominei “mentalmente incapacitados”. Mesmo a nossa perversão e o nosso exibicionismo são crias de nossa subjetividade, intelectualmente elaborada.

E isto não é ser hipócrita. É ser saudável.

Doentia é a pornografia que não se circunscreve ao particular e consensual, à escolha pessoal, passando a ser imposta, portanto. Doentio é o sexo explícito ou subliminar como elemento mercadológico na sociedade e seu resultado mais flagrante, que é a sexualização infantil.

Mas esta é uma outra história.

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* e antes que me perguntem, o título foi tirado de uma música de Raul Seixas “Rock do Diabo”, onde ele diz: “Mamãe disse a Zequinha, nunca pule aquele muro, Zequinha respondeu: mamãe aqui tá mais escuro!”, que, desnecessário explicar, é como me sinto em relação ao tema… muito confortável do lado de cá do muro.

Sobre mistakegirl

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20 respostas para “Mamãe: aqui tá mais escuro!

  • Maria

    Ih, fia… esse lance aí tem muito que divagar. Um dia poderemos conversar melhor sobre, nos intervalos.

    Mas concordo com tudo que diz! Mesmo sendo essencialmente diferente na concepção da minha personagem, que ainda assim, fazendo uma confusão tão confusa quanto a etimologia da palavra persona, acaba por ser eu mesma… apenas com algumas máscaras.

    Mas voltando a ideia central… lembrei de um epsódio da semana passada…

    Fui publicar um post que falava de luxúria. Peguei a definição do pecado no dicionário, como boa frequentadora do google, e lá, dentre outras, dizia: “corrupção de valores”.

    E o post que era despretencioso e troçador da realidade, como a maioria é, se tornou algo reflexivamente complexo para mim! Fiquei me questionando coisas o dia inteiro…

    Me pus a perguntar: corrompo valores sociais? E o pior… corrompo valores pessoais? E algo ainda mais complexo: qual a hierarquia das valorações pessoais x sociais? Putz, “deu ruim” nas ideias…

    Ainda não cheguei a conclusões… mas as elocubrações descritas aqui, tem tudo a ver… pois ainda que pervertida, estou do lado de cá do muro… cada dia mais, e isso explica muita coisa…

  • Deeper

    Meu primeiro comment aqui: vc eh foda.

  • Juan

    Mas isso que é a parte boa … me dá muito mais tesão ler o seu blog, e ´brigar` com o Trodat pelo privilégio de chegar primeiro do que assistir ao ´melhor pornô de todos os tempos` … o ´não estar sendo observado`, o ´voyerizar` a vida alheia (suas histórias e personagens), esse que é o tesão … esse post de hoje deveria ser leitura obrigatória de cientistas sociais, filósofos, sexólogos, psicólogos e terapeutas (e tenho certeza que surpreenderá a todos, não por ser exótico, mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto quando terá sido o óbvio).

    * a propósito da conversa: onde acho o blog da Maria e do João??

  • Mistake Girl

    Maria, “nos intervalos” é muiiiiiiiito bom. Promessas…
    Anota aí na pauta pra essa conversa: pecado e perversão, e “corrupção de valores”, rs…

    Deeper, benvindo e obrigado, acho….

    Juan e Trodat: ninguém merece vocês.

    (Juanito, não me superestime…. mas adorei isso de poder estar sempre oculta quando terei sido o óbvio… eu, orgulhosa descendente das tribos Goytacás…)

  • Zuchi

    Perversão é essa vontade que eu tenho de fuder como se não houvesse amanhã toda vez que vejo uma muié inteligente, ô se eu pego essa mina.

  • Bem Resolvida

    no meu blog não existe a personagem, embora eu chame a Bem Resolvida de meu alter-ego, ali estou sendo eu mesma, 100% sincera e transparente. o problema é que me expor e falar as coisas que falo no blog em meu facebook pessoal ou em roda de amigos pode cair muito mal por causa dos outros, não de mim. não me escondo atrás da BR por vergonha, mas por respeito aos conhecidos que não suportariam conhecer meu lado depravado. Muitas pessoas não estão preparadas para convier com alguém com a cabeça aberta e sem tabu algum em relação ao sexo.
    E acho que a pornografia deveria fiar mais escondida do que é hoje, por causa das crianças…só.

    • Mistake Girl

      Dear BR, não é que “pegue muito mal”. É justamente esse o meu ponto. A sua vida sexual, e isso que você chama de “depravação”, são coisas que dizem respeito unicamente a você, e creio, seja um prazer, revelar esse seu lado àqueles a quem você escolhe dá-lo, prazer que não existiria, se não fosse um aspecto privado da sua existência. As relações cotidianas seriam inviáveis se tivessem de ser permeadas pela sexualidade de cada um, porque sexo é anseio.

  • Melina

    Acho que tem um aspecto de leitura do seu blog, dos outros blogs e de pulsão em conhecimento alheio que é simplesmente a comparação. O ser humano é um entre compartivo por natureza: daí advém vários daqueles ditos pecados. É a comparação que move o ser humano: “o que ele tem, q eu não tenho”, “Se ele pode, eu posso”, “O q posso fazer que os outros ainda não fizeram”. Daqueles ditadinhos clichés, até a própria pulsão sexual, expressam justamente essa comparação.
    No lado sexual podemos ver a comparação como algo libertador. Aquela sensação de “ah, achei que eu era a única no mundo que gostava disso!”, “achava q eu era anormal por fazer aquilo”. Qdo encontramos um parzinho, um serzinho que faça a mesma coisa (ou mais) que a gente, sentimos uma libertação da culpa, isto é, uma diminuição (ou eliminação) dessa sensação de corrupção dos valores morais.
    O ser humano, apesar de dizer aos 4 ventos q quer ser diferente, q quer ser especial, quer quebrar barreiras, tem uma profunda necessidade de identificação, de agrupamento social.

    O blog não deixa de ser um estímulo, mas talvez um estímulo comparativo… uma necessidade de comparação minha, do João, da Maria: “Olha, que estranho… ela não curte fluidos (eu adoro, exceto cusparada hehe)”, “Olha, sexo no pé de acerola”. As tuas experiências acabam se comparando a minha e se fundindo…

    O que essa mulher tem de diferente? E eu só vou poder responder essa pergunta me baseando na minha própria experiência, me comparando, botando lado a lado tudo o que vc escreve com o que eu vivo e penso.

    A pulsão na verdade vem desse sentimento primário de comparação

    • Mistake Girl

      Cara Melina, discordo da maneira como você utiliza alguns conceitos. Mas concordo com o ponto central do que você aqui diz, e que pode ser resumido em uma palavra: Alteridade. É isso aí.
      No mais agradeço pela sua leitura atenta de meus textos, o que é sempre um elogio. Um beijo nocê.

  • Anonimo

    Googlar Karl Krause, encontrar isso aqui, esquecer o trabalho, viajar no blogue e sair de pau duro: não tem preço. Sou anonimo, mas você tem acesso ao meu e-mail.

  • Ilha Grande

    Lembra que eu comentei que gostaria de te estudar? Pois é, ainda não falei abertamente do meu projeto, mas este post diz muita coisa do que pretendo. Marcamos um café?

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