Vox Populi II

Conforme  prometido na primeira postagem assim denominada, aí vai a tal caraminhola:

Fico pensando se o que faz de um certo tipo de mulher irresistível para um homem, é o mesmo tipo de  necessidade que faz da maternidade uma premência inelutável  para uma mulher.

Talvez a coisa não seja assim tão inexorável, do contrário não haveria mulheres que optam por não serem mães, e nem homens que não são atraídos pelo tipo em questão. Há que se convir, no entanto, que, proporcionalmente, ambas as situações são deveras raras.

Se o modelo da harmonia física se estabelece a partir das medidas do homem vitruviano e  a fórmula da beleza implica numa simetria de traços, a lei atração entre os gêneros certamente implica, da parte masculina, na vulgaridade. E digo isso sem qualquer juízo de valor. Refiro-me tão somente ao corpo às claras, não só exposto como ressaltado estrategicamente por aviamentos e texturas que tem essa finalidade clara: a de torna-lo vulgar, comum, atingível e por isso, desejável. E este conceito – o da exaltação da vulgaridade –  encontra sua expressão na moda adotada por mulheres de cada um dos estratos sociais.

Não vi ainda homem capaz de resistir a uma mulher como aquela que descrevi num comentário recente no distinto blog  Idéias Lascivas :  calça de stretch, piercing de penduricalho no umbigo, top meia taça, plataforma turbinada com paetês.

Tanto melhor se este conjunto se oferecer sinuosamente em ritmos tão primitivos quanto os instintos que buscam despertar.

Um homem – incauto, indefeso homem – pode até não gostar dos elementos isoladamente, pode rechaçar os simbolismos culturais e alegar valores sociais distintos. Pode até negar. Mas não evitará a ereção.

Visto por esta ótica, sinto-me um organismo manipulado geneticamente, um humanóide mutante do gênero feminino, ao qual falta o mais básico instinto de preservação da espécie, única razão que pode explicar eu ter aberto mão conscientemente dos subterfúgios a que minha natureza feminina devia me compelir.

Anos de João Gilberto, Marcel Proust e nouvelle cuisine me degeneraram ao ponto de eu simplesmente não ser capaz de ser esta mulher de bijouterias douradas e luzes no longo cabelo. Essa mulher que sorri como quem mata.

E… desconfio que meu tipo físico também não contribui para a inclinação.

Pode ser que eu sinta um pouco de inveja.

A mim, me sobram as palavras. Minha faixa de patchwork, o chale de renda de bilro, o short de tenerife. Julio Cortazar e Mallarmè. Minha coleção de álbuns de Chico Buarque e o arquivo com todas as versões do Adagio do Concerto de Aranjuez que consegui encontrar. A mim me sobram as coisas que meu senso estético distorcido me faz identificar como boas, belas e cobiçáveis.

Se o belo está em Debussy e Luchino Visconti, e o bom está em Platão e Aristóteles, o instintivamente desejável parece estar na Jéssykah Lorrane rebolando até o chão chão chão chão chão chão.

O que faz de mim uma elaboração do desejo. Um grão de soja transgênico.

O senso crítico é uma degeneração, percebo agora.

Sobre mistakegirl

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9 respostas para “Vox Populi II

  • Maria

    Rasta que rasta que rasta no chão chão chão chãochãochão!

    ó só…

    Acho que a Jéssykah Lorrane é esteticamente doída aos nossos olhos “socialmente elitizados”, com sua unha de stress e seu creme Kolene pingando… mas isso não a faz vulgar, é apenas uma representação de uma estética social.

    A vulgaridade está inscrita somente em algumas espécies de Jéssykah Lorrane! Como, da mesma forma, pode estar inscrita na piriguete patricinha que sai pra Nuth (boate carioca)…

    Ou seja, a vulgaridade não é o que atrai a macharada. O que atrai a macharada é, ao meu ver, o lance popularesco!

    João que o diga… não pode ver uma Jéssykah Lorrane passeando que quebra o pescoço. Ó vida!

  • Mistake Girl

    Aqui, Mary, vou entender que você tá com sono (que tipo de pessoa está a postos em suas atividades virtuais a uma hora dessas?????), e não leu direito a parada.

    Prestenção: eu disse que quando uso o termo vulgaridade, não imprimo a ele nenhum “juízo de valor”, ou seja, ele não é aqui elogiativo e nem pejorativo, olha lá, eu disse: “Refiro-me tão somente ao corpo às claras, não só exposto como ressaltado estrategicamente por aviamentos e texturas que tem essa finalidade clara: a de torna-lo vulgar, comum, atingível e por isso, desejável”.

    E estou de acordo com você…. a patricinha tem tudo a ver… é por isso que logo a seguir eu disse: “este conceito – o da exaltação da vulgaridade – encontra sua expressão na moda adotada por mulheres de CADA UM DOS ESTRATOS SOCIAIS (logo, não é prerrogativa da mocinha do baile funk).

    Ou seja, não vinculei a Jéssykynhah a nenhuma classe. Assim, não sei se concordo que seja o lance popularesco, continuo apostando as minhas fichas no uso e exaltação do corpo submilinarmente associando-o às funções reprodutivas, porque me parece que o que faz João, o Bão, quebrar o pescoço, é algo associado a instinto.

    E aí eu teria outras coisas a dizer, como por exemplo o fato de que talvez isso proceda mesmo (o que faria de mim um gênio!), uma vez que há teorias sociológicas atribuindo índices de poder de sedução como inversamente proporcionais ao nível de instrução.

    Aliás, dizíamos qualquer coisa nesse sentido dia desses, não foi?

    Então, é isso.

    Ou não.

  • João

    Humm… Um “surrasco na lagi” com vcs duas discutindo o impacto social da piriguetes é melhor que imaginar Dicró tomando uma com Foucault.

  • Bem Resolvida

    não concordo que todo e qualquer homem teria uma ereção. Conheço homens que repelem esse tipo. e passei a vida toda me dedicando em mostrar-me o oposto dese tipo e quando era solteira, sozinha e solta e ia para algum lugar e via as vezes que os machos trocavam minha boa cia para dar atenção à esse tipo, me sentia como vc descreveu aí. mas ainda assim sempe consegui atrair tbm e penso que os homens que se sentiram atraídos por mim ao invés de correrem atrás da calça de strech e plataformão brilhoso tem algo de mais interessante que os outros.

    • Mistake Girl

      Mas veja, BR, eu mesma, não tenho particularmente repulsa nenhuma… e não acho que o interesse de um homem por essa figura, exclua necessariamente o interesse que ele possa ter por mim, que sou diametralmente oposta… não estou julgando a Jéssykah Lorrane, todinha… só refletindo sobre o fenômeno… rs

  • Juan

    “Não vi ainda homem capaz de resistir a uma mulher como aquela que descrevi num comentário recente no distinto blog Idéias Lascivas : calça de stretch, piercing de penduricalho no umbigo, top meia taça, plataforma turbinada com paetês.”

    Esse parágrafo é a prova que o Trod´s festeja de que ainda não nos conhecemos pessoalmente …

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