De como ferver um coelhinho sem ser notada.

Lendo jornais de ontem numa sala de espera de hoje, deparei-me com uma coluna escrita por Cláudia Mele na Revista de Domingo do dia 22 de abril. Entitulado como “Sexo & Intimidade”, o texto desfia um rosário de questões que, conquanto pertinentes, não se desenvolvem.

A coluna é fechada com a seguinte pergunta: “(…) podemos sair e transar com quem for, mas temos medo de olhar no olho, medo da intimidade. Até que ponto perdemos a capacidade de sermos de fato afetados pelo outro?

Detive-me numa tal indagação por razões de um cabotinismo flagrante:

Alívio.

E olha que é difícil para uma pessoa como eu, sentir alívio folheando uma revista. Uma vez que  não consumo ômega 3 em quantidades suficientes para combater os radicais livres, não faço 13 minutos diários de exercício atingindo batimentos cardíacos de 149 ppm, não consigo absorver uma única dica de moda, jamais convidei o meu parceiro a proceder uma minuciosa busca pelo ponto G em quatro lições básicas a fim de reavivar o relacionamento e nem tampouco sou capaz de reformar meu banheiro com 3/4 de lata de tinta camurça, uma escada de bambu, um quadro velho de flores secas,  um cesto de vime e muitos rolos de toalhas brancas.

Mas chegou  finalmente  o dia em que uma revista continha alívio, para mim.

Alívio e orgulho.

Que feliz sou, em constatar que nunca perdi essa capacidade, que segundo a moça anda escassa. Que delícia ser alguém cujo prazer é medido exatamente pela capacidade de afetar e ser afetada pelo outro. Seja o outro um, dois, ou  treze. A cada um me dou, de cada um tomo.

Que alívio e que orgulho sentir que meu único medo é o medo do medo de intimidade com que freqüentemente me deparo. E diante do qual murcho, sofro, broxo e lamento.

A delícia de dar a cara à tapa. De ir à corda bamba sem rede de segurança. E notar, ao fim e ao cabo, que as carícias e arranhões que trago na alma, me deram muito mais prazer do que o contrário.

Quão grata sou àqueles que se compartilharam comigo.

Vou mostrando como sou
E vou sendo como posso
Jogando meu corpo no mundo
Andando por todos os cantos
E pela lei natural dos encontros
Eu deixo e recebo um tanto…

(Novos Baianos)

p.s: pra constar, só achei a tal coluna da C. Mele neste blog

Sobre mistakegirl

Vaca profana por princípio e vocação... la leche buena toda em mi garganta, la mala leche para los puretas... Ver todos os artigos de mistakegirl

5 respostas para “De como ferver um coelhinho sem ser notada.

  • Bem Resolvida

    Entendo, tbm sempre me entreguei totalmente íntima a todos os meus amantes, mesmo que fossem estranhos que eu não tinha nenhuma intimidade. na hora do sexo ela surgia..e já me deparei com homens tímidos dessa intimidade na hora da transa, o que acho totalmente incabível. se duas pessoas estão se entregando ao momento mais íntimo e pessoal existente como ficar com pudores…e por várias vezes (quando eu era solteira) ouvi comentários dos caras falando que ou nunca viram uma mulher tão sem vergonha (não no sentido de safada mas da falta de vergonha do corpo, nu, da intimidade com o outro mesmo) ou que suas ex namoradas não eram assim, não andavam peladas pela casa, não encaravam nos olhos “naqueles” momentos. Tem muita gente com vergonha por aí…e eu tbm me sinto orgulhosa de nunca ter tido.

    • mistakegirl

      BR, sabe que nos entregamos de modo diferente? infelizmente, ao contrário de você, eu não sou tão desencanada com o meu corpo… mas sou totalmente desencanada com a minha alma…

  • Maria

    Linda.
    Em folha, em graça, em vida, em força, em luz…

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