A volta da mulher morena

Meu primeiro contato com isso que é a poesia, foi através da Antologia Poética de Vinícius de Moraes. Eu tinha ali pelos treze anos. Esse poema me causou uma impressão muito forte. Eu me contorci em súplica por braços lassos, e lábios que soubessem tirar a volúpia de todos os frios.

Eu queria ter a mulher morena.

Eu queria ser a mulher morena. (E isso explica muita coisa)

E um dia, eis que se me apresentam uns lábios maduros, úmidos e inquietos, como a dizer, continuamente parle moi d’amour

 

Meus amigos, meus irmãos, cegai os olhos da mulher morena
Que os olhos da mulher morena estão me envolvendo
E estão me despertando de noite.
Meus amigos, meus irmãos, cortai os lábios da mulher morena
Eles são maduros e úmidos e inquietos
E sabem tirar a volúpia de todos os frios.
Meus amigos, meus irmãos, e vós que amais a poesia da minha alma
Cortai os peitos da mulher morena
Que os peitos da mulher morena sufocam o meu sono
E trazem cores tristes para os meus olhos.
Jovem camponesa que me namoras quando eu passo nas tardes
Traze-me para o contato casto de tuas vestes
Salva-me dos braços da mulher morena
Eles são lassos, ficam estendidos imóveis ao longo de mim
São como raízes recendendo resina fresca
São como dois silêncios que me paralisam.
Aventureira do Rio da Vida, compra o meu corpo da mulher morena
Livra-me do seu ventre como a campina matinal
Livra-me do seu dorso como a água escorrendo fria.
Branca avozinha dos caminhos, reza para ir embora a mulher morena
Reza para murcharem as pernas da mulher morena
Reza para a velhice roer dentro da mulher morena
Que a mulher morena está encurvando os meus ombros
E está trazendo tosse má para o meu peito.
Meus amigos, meus irmãos, e vós todos que guardais ainda meus últimos cantos

Dai morte cruel à mulher morena!

(Vinícius de Moraes)

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Sobre mistakegirl

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5 respostas para “A volta da mulher morena

  • Bem Resolvida

    adooooro Vinícius. também tenho esse livro. a que eu mais gosto é Ausência, que me foi recitada por uma grande amiga quando tínhamos 13 anos e hoje que ela é cantora famosa nem liga mais pra mim…enfim…
    Eu deixarei que morra em mim
    o desejo de amar os teus olhos que são doces
    Porque nada te poderei dar
    senão a mágoa de me veres eternamente exausto
    No entanto a tua presença
    é qualquer coisa como a luz e a vida
    E eu sinto que em meu gesto
    existe o teu gesto e em minha voz a tua voz
    Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado
    Quero só que surjas em mim
    como a fé nos desesperados
    Para que eu possa levar
    uma gota de orvalho
    nesta terra amaldiçoada
    Que ficou sobre a minha carne
    como nódoa do passado
    Eu deixarei…
    tu irás e encostarás a tua face em outra face
    Teus dedos enlaçarão outros dedos
    e tu desabrocharás para a madrugada.
    Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu,
    porque eu fui o grande íntimo da noite.
    Porque eu encostei minha face na face da noite
    e ouvi a tua fala amorosa.
    Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa
    suspensos no espaço.
    E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
    Eu ficarei só
    como os veleiros nos pontos silenciosos.
    Mas eu te possuirei como ninguém
    porque poderei partir.
    E todas as lamentações do mar,
    do vento, do céu, das aves, das estrelas
    Serão a tua voz presente,
    a tua voz ausente,
    a tua voz serenizada.

  • mistakegirl

    BR, “porque eu fui o grande íntimo da noite” é uma das minhas citações prediletas…. essa fase dele, acho que é poeticamente pobre, em termos teóricos… mas é muito forte… muito vigorosa. Eu gosto muito. Obrigada por ter me lembrado deste…. beijo pra você.

  • maria

    parle moi d’amour…

  • Trodat

    Ai Mis… eu tive essa mesma sensação, não com a mulher morena, mas com Ariadne, a Mulher. Eu devia ter de 16 para 17 anos e nunca me esqueci desses primeiros versos, ainda sou capaz de repetí-los de cor:

    “Quando, aquela noite, na sala deserta daquela casa cheia da montanha em torno
    O tempo convergiu para a morte e houve uma cessação estranha seguida de um debruçar do instante para o outro instante(…)”

    Eu queria Ariadne, queria possuí-la, tê-la, me entregar, me perder…

    “(…) Mas Ariadne não era a mulher, nem a moeda, nem a mercadoria, nem a púrpura.
    E eu disse comigo: Em todo lugar menos que aqui estará Ariadne.
    E compreendi que só onde cabia Deus cabia Ariadne.(…)”

    Vixe!!! … me perdi com VM.

  • mistakegirl

    Gente… que leitores mais poéticos são esses….

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