Arquivo do mês: julho 2012

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Confieso que he vivido

 

Desconfio ter chegado àquele momento na existência de todo o ser vivente em que nos damos conta de que, não tendo morrido ainda, e a morte não parecendo iminente, talvez seja razoável imaginar que se vai atingir uma idade mais provecta.

E são dúvidas e receios a me perseguir como hienas escarnecidas e impiedosas.

Acalento a quimera de vir um dia a ser uma mulher velha.

Não me preocupo tanto com as alterações que meu corpo sofrerá. Mas, como empunharei minhas rugas, minhas artrites.

Há anos observo a velhice e suas manifestações. E não me assusta o acumular dos anos. Meu terror reside no inescapável padrão “senhorinha”  para o qual todas parecem caminhar, desatinadamente.

Os cabelos curtos – porque nos ensinam que não se pode tê-los grandes após os quarenta. Mas não basta ser curto (o que por si, seria até interessante), é preciso ser cortado sem qualquer charme. Pintado no mesmo tom loiro-mate, tonalidade especialmente produzida para não ficar bem em NENHUM tom de pele, o que é realmente um feito da indústria cosmética. Na cabeça, após tinturas, permanentes e laquês sem conta, uma massa rala de fios difusos e espicaçados, desbotados e geometricamente cansativos.

As bainhas de oito centímetros, feitas à mão, em calças de um jeans num tom de azul que é algo entre um orelhão e um lençol hospitalar, e sob o qual é fácil adivinhar as calçolas.

Blusas de golinha. Colar por cima da blusa de golinha. Pulseiras que misturam pedras, pérolas, contas de plástico e arremates dourados, tudo ligado por um fino fio de elástico. Estampas desencontradas, tecidos incompatíveis. Bolsinha de retalhos de couro. Sapatinhos usaflex. Casaquinhos angorá que não fecham.

As unhas, meu Deus, as unhas. Que eu nunca pinte as unhas de misturinha com geada.

Que me seja concedida uma faquinha de rocambole pullman para que eu recorra ao digno suicídio, se uma excursão de fim de semana para Holambra começar a me parecer um ótimo passeio.

Livrai a minha casa de flores artificiais. E de lembrancinhas de aniversários, casamentos, bodas, formaturas, enterros e nascimentos.

E livra também o mundo dos discos do Richard Claidermann e do Ray Coniff. Que eles possam queimar numa grande fogueira antes que eu atinja os 70 anos. Para que eu não corra o risco de apreciar música orquestrada.

Que a morte venha rápido caso eu cogite fazer sobrancelhas artificiais.

Rogo, compungida, que se um dia sentir a conveniência (já suspeitada) de cada um destes itens que agora repudio, eu tenha forças para lutar e descobrir novas formas de envelhecer mantendo minha identidade.

Que a necessidade de conforto nunca suplante a de sexo. Ainda que parceiros não haja. Que eu me perceba sempre, até o fim, como um ser eminentemente sexual e lucidamente intelectual.

Que eu nunca abdique da condição de mulher.

E se, contudo, apesar de todos os meus cuidados, todas as minhas súplicas contritas, numa manhã longíqua, eu tiver a sorte de me saber uma mulher longeva, quando, ao olhar o espelho, eu notar os incontestes sinais de que “ensinhorinhei”, então que eu possa ter o consolo das minhas experiências, do sexo que fiz, do amor que amei, de ter sido sempre, total.

E ainda, se não for pedir muito, que o wordpress nunca tire esse blog do ar, para que eu, já acometida pela senilidade, possa ter nele um registro do que vivi.

E que assim, registrada, a vida que hoje transborda em mim, seja uma certeza.

E então, revisitando a mim mesma, como Neruda, eu possa confessar que vivi.

 

 

 


Enquanto seu lobo não vem…

Aquieta-te.

O que me alegrou não foram as nossas horas de poesia, a noite de paixão.

Nem ao menos foram os tantos beijos loucos, nem os gritos roucos como não se ouvia mais.

Pouco significou para mim, na calma do depois, que minhas mãos frias jazessem ternas e gratas, sobre cada um dos dois tórax másculos e suados que me envolviam e aqueciam.

Estes foram aspectos menores do nosso encontro, que talvez não fosse digno de nota, se naquele momento, sorrateiro como só os felinos podem ser, não ascendesse à cama, o gato, e se, possessivo, não se houvesse encaixado ali, acima do lençol que me cobria parcialmente o corpo, bem sobre  minha pélvis trêmula. Mais um macho, mais um amor.

E o mundo compreendeu, e o dia amanheceu em paz.


Férias

 

Não é que seja uma saudade. Não é que eu não possa suportar. Não é um drama.

É só uma falta persistente.

Um singelo e repetitivo recordar, nas horas mais improváveis.

Da voz, da tirada espirituosa, da risada, da pessoa mais interessante que eu sou, quando com ela.

É dizer para os olhos e ouvidos vivazes que ela tem, de mim, dos meus, da banalidade dos dias.

É uma percepção do incompleto em que se tornou a minha pele, sem a possibilidade da pele dela.

Não é que doa.

Mas lateja.


 

O meu gozo nasce da dor.

Freud ia se amarrar em mim.

Mas não cometa o erro de supor que sabe do que eu falo.

Ainda assim, Falo.


Narciso


numa forma de mulher

 

Pô!

Eu ia pagar aquele peitinho que eu prometi.

Mas aí a moça do blog ao lado, como é hábito dela, tripudiou.

Sacanagem. Sacanagem.

Como competir?

Vou me recolher às minhas divagações… e me ater à exibição despudorada dos tons de cinza do meu cérebro.

Tsc.

 


Mas hein,

Pra você aí que sai de férias imbuído das mais sinceras intenções de se desintoxicar – até porque não parece prudente levar um baseado no avião –  e daí cola com o único maconheiro num raio de 200 quilômetros, e volta pra casa com altas dicas sobre transporte, plantio, rega e consumo nível avançado da mardita diamba,  vai uma frase recém-lida nos Monólogos da Marijuana:

Parar de fumar maconha é fácil. Difícil é arranjar uma razão pra isso.”

E já que estamos no assunto, e só porque o assunto, em minha humilde concepção, tem tudo a ver com erotismo, me permitirei expandi-lo.

Li por aí, após dar uma olhadinha nas leis recém aprovadas – a fim de ajudar de modo mais consistente os amigos na delicada posição de ter de transportar seu fino no avião – que usuário de maconha vai deixar de ser tratado como criminoso, fora da lei, para ser tratado como doente… ao invés de “Vigiar e Punir” agora o lance é “Diagnosticar e Curar”…

E dizia também que “Sinceramente, se fosse eles, eu preferia ser tratado semanticamente como fora da lei”… Apesar de eu não ser besta pra tirar onda de herói

Evoé, Foucault…

E gira a Roda.

Dedicado ao supracitado amigo…


Nela

 

Assentaria deveras bem…

 


Meta

 

O gozo de um Cocoon…