Perdoai

O custo vai ser alto. Mas eu pago minhas contas. E assino a promissória:

Eu sou ciumenta.

No entanto, não se iluda. Meus ciúmes não são deste ou daquela. De você ou dela. Exceto de minhas facas, por quem nutro sincero apego.

Não.

Que se danem as saias de quem vive pelas praias coloridas pelo sol e a quem você dedica seus mais cobiçosos olhares. Têm minhas bençãos, e os mais sinceros votos de felicidade. E que haja sorrisos e trepadas. E que seja bom. A mim, nada disso incomoda ou importa.

Não dou a mínima para o número de pessoas a quem você dá seu corpo, divide seu tempo e um picolé de groselha.

A mínima.

Quase posso dizer que eu não dou a mínima pra você.

Tenho ciúme sim, um ciúme de morte, do meu afeto.

Sou egoísta. O que me dói mesmo é o tanto de mim que se esvai. Porque você tende a sair me derramando, como poesia, pelo chão.

Aquilo que só eu vi. A viscosidade persistente na minha calcinha. O volume de afeto. A qualidade do afeto. A sinceridade do afeto. A entrega. O meu olhar. Pus tudo numa caixa, um velho baú de prata, e coloquei, delicadamente, no seu colo.

Mas de fato, que culpa tem você?

Passo, dali em diante,  voluntariamente, a viver no inferno, aquele pintado por Bosch, com o desespero grotesco de uma figura de Goya, porque fiz uma horcrux de mim, e escondi em você, e me ponho a olhar fixamente pro seu colo, com medo do meu bauzinho cair, se abrir, espatifar-se.

Se ao menos as pessoas tivessem a delicadeza de segura-lo sob o braço enquanto  se ocupam dos vários baús com que a vida lhes brinda, eu talvez ficasse mais calma. Mas não. O frágil depositário de minha alma descuidada fica ali, entre badulaques e quinquilharias, num colo que já se mostra deveras instável, e eu aqui, com o coração na mão, e você parece sempre prestes a se levantar e deixar tudo cair ao chão e… quer saber?  me dá essa merda aqui que eu mesma cuido de mim e das baboseiras todas que eu sinto.

Vai todo mundo pro inferno que eu não tenho cara de saci.

Sim, caro. Compreendo que isso se deve exclusivamente ao fato de que sou eu claramente uma ególatra,  convencida de que o velho baú de prata que guardo preservado dentro de mim é muito, é infinitamente superior a qualquer outro baú recoberto por guardanapo, cola e um extênsil chinfrin que essas pessoas inúteis que te rodeiam fingem encher de coisas soberbas mas que em verdade nem chegam aos pés de meus nobres sentimentos.

(Você sabe o que é ter um amor, meu senhor? e por ele quase morrer? e depois encontra-lo em um braço, que nem um pedaço do seu, pode ser?)

E porque esta é uma confissão, não quero deixar de chamar a atenção para a sacralidade destes meus sentimentos, em reconhecimento aos quais, um anjo veio cedo, em pessoa, revelar que a mim me seria concedida a prerrogativa de encher um sem número de bauzinhos, dos quais poderia dispor como quisesse, fazendo deles presentes aos que me capturam o olhar e me comovem com sua beleza. Sem prejuízo, contudo, dos baús que me fossem dados em troca – alheias almas –  isto porque sou praticamente um ás do malabaris, detendo não só a arte de equilibrar as tais caixinhas, como a de eventualmente jogá-las todas para o alto, por pura diversão, embaralhando-as e preservando-as, intactas. Porque eu sim – não vê? – sei cuidar de baús e nenhum de vocês precisa se preocupar com os seus.

Mas isso sou eu.

Você não. Você não tem a menor condição de preservar esse manancial de beleza que eu te dou diariamente. E por isso vivo assim, com o coração na mão. Não por você. Não me importa que mil raios partam a você ou a qualquer sentido vago de razão. Eu vou te gritar e te rebocar do bar.

Mas não é por você. Nem pelos outros baús de mdf que você insiste em carregar consigo. Nem mesmo é pelo fato de que essa insistência torna patente a insuficiência de tudo o que te ofereço.

É mesmo por mim. Que me descubro sempre irremediavelmente castrada. A mais básica das histéricas. Uma egoísta. Louca. E que ouvirá calada quando você simplificar tudo isso, e, com seu dedo acusatório, e sua indiferença punitiva, simplesmente disser, cheio da certeza que carregam as gentes que não sabem o que dizem:

– Ciumenta.

Deixo-o crer que seja por você que temo e imploro.

Sobre mistakegirl

Vaca profana por princípio e vocação... la leche buena toda em mi garganta, la mala leche para los puretas... Ver todos os artigos de mistakegirl

6 respostas para “Perdoai

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