Confieso que he vivido

 

Desconfio ter chegado àquele momento na existência de todo o ser vivente em que nos damos conta de que, não tendo morrido ainda, e a morte não parecendo iminente, talvez seja razoável imaginar que se vai atingir uma idade mais provecta.

E são dúvidas e receios a me perseguir como hienas escarnecidas e impiedosas.

Acalento a quimera de vir um dia a ser uma mulher velha.

Não me preocupo tanto com as alterações que meu corpo sofrerá. Mas, como empunharei minhas rugas, minhas artrites.

Há anos observo a velhice e suas manifestações. E não me assusta o acumular dos anos. Meu terror reside no inescapável padrão “senhorinha”  para o qual todas parecem caminhar, desatinadamente.

Os cabelos curtos – porque nos ensinam que não se pode tê-los grandes após os quarenta. Mas não basta ser curto (o que por si, seria até interessante), é preciso ser cortado sem qualquer charme. Pintado no mesmo tom loiro-mate, tonalidade especialmente produzida para não ficar bem em NENHUM tom de pele, o que é realmente um feito da indústria cosmética. Na cabeça, após tinturas, permanentes e laquês sem conta, uma massa rala de fios difusos e espicaçados, desbotados e geometricamente cansativos.

As bainhas de oito centímetros, feitas à mão, em calças de um jeans num tom de azul que é algo entre um orelhão e um lençol hospitalar, e sob o qual é fácil adivinhar as calçolas.

Blusas de golinha. Colar por cima da blusa de golinha. Pulseiras que misturam pedras, pérolas, contas de plástico e arremates dourados, tudo ligado por um fino fio de elástico. Estampas desencontradas, tecidos incompatíveis. Bolsinha de retalhos de couro. Sapatinhos usaflex. Casaquinhos angorá que não fecham.

As unhas, meu Deus, as unhas. Que eu nunca pinte as unhas de misturinha com geada.

Que me seja concedida uma faquinha de rocambole pullman para que eu recorra ao digno suicídio, se uma excursão de fim de semana para Holambra começar a me parecer um ótimo passeio.

Livrai a minha casa de flores artificiais. E de lembrancinhas de aniversários, casamentos, bodas, formaturas, enterros e nascimentos.

E livra também o mundo dos discos do Richard Claidermann e do Ray Coniff. Que eles possam queimar numa grande fogueira antes que eu atinja os 70 anos. Para que eu não corra o risco de apreciar música orquestrada.

Que a morte venha rápido caso eu cogite fazer sobrancelhas artificiais.

Rogo, compungida, que se um dia sentir a conveniência (já suspeitada) de cada um destes itens que agora repudio, eu tenha forças para lutar e descobrir novas formas de envelhecer mantendo minha identidade.

Que a necessidade de conforto nunca suplante a de sexo. Ainda que parceiros não haja. Que eu me perceba sempre, até o fim, como um ser eminentemente sexual e lucidamente intelectual.

Que eu nunca abdique da condição de mulher.

E se, contudo, apesar de todos os meus cuidados, todas as minhas súplicas contritas, numa manhã longíqua, eu tiver a sorte de me saber uma mulher longeva, quando, ao olhar o espelho, eu notar os incontestes sinais de que “ensinhorinhei”, então que eu possa ter o consolo das minhas experiências, do sexo que fiz, do amor que amei, de ter sido sempre, total.

E ainda, se não for pedir muito, que o wordpress nunca tire esse blog do ar, para que eu, já acometida pela senilidade, possa ter nele um registro do que vivi.

E que assim, registrada, a vida que hoje transborda em mim, seja uma certeza.

E então, revisitando a mim mesma, como Neruda, eu possa confessar que vivi.

 

 

 

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Sobre mistakegirl

Vaca profana por princípio e vocação... la leche buena toda em mi garganta, la mala leche para los puretas... Ver todos os artigos de mistakegirl

8 respostas para “Confieso que he vivido

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