Arquivo do mês: setembro 2012

Posseiro

O terceiro me chegou como quem chega do nada

Ele não me trouxe nada, também nada perguntou

Não sei como ele se chama, mas entendo o que ele quer

Se deitou na minha cama, e me chama de mulher

Foi chegando sorrateiro e antes que eu dissesse não

Se instalou feito um posseiro, dentro do meu coração

Chico Buarque

Não era Paris e nem tocava um tango.

Subúrbio carioca, e para além da britadeira,  um funk e o jingle amador de um candidato a vereador que pedalava pela cidade com uma caixa de som, na esperança de angariar votos.

Os dias eram quentes e poeirentos e na falta de árvores para descabelar, a brisa também não se animava a dar os ares.

E era assim, inóspito, o amor deles. Se amor, fosse.

Da trincheira urbana, abaixo do asfalto, sob luvas e viseira, cercado por cavaletes, ele mirou o que havia sob a saia curta e rota. Quis.

Ela, envaidecida por despertar desejo em meio ao esgoto, cedeu.

Davam-se um ao outro na cama bolorenta de um motel nas cercanias da rodoviária, o tempo de esperar os trens esvaziarem. E para lá de Japeri havia suas existências tão áridas quanto os dias poeirentos do subúrbio carioca.

As mãos dele, trêmulas de penetrar o asfalto, só encontravam firmeza nos quadris dela.  Ela cheirava a sabão de côco. E ele jamais atinou que poderia dividir qualquer coisa com aquela mulher que devia se chamar Maria.  O único defeito que ele podia encontrar nela, era o nome.

Nunca trocaram palavra.

Acabou a obra.

Passou a comê-la por ideologia. Para resistir aos solavancos do trem e da britadeira. Para conseguir voltar aos esgotos, para conseguir olhar os filhos que jamais desejou. Passou a come-la por capricho. Passou a come-la para esperar a hora do trem.

Nunca soube por que razão ela vinha.

Não sabia que o gozo podia ser mútuo, e não teria feito diferença se tivesse notado que o gozo dela era o gozo dele desgovernado sobre ela. Sua pele de curtume.

Ela não precisava voltar, mas voltava sempre, não por nada. Apenas para ouvir, ao fim, a única coisa na vida que lhe trouxe pertencimento. Apenas para ouvir, já na saída, com a porra dele escorrendo entre suas pernas, que:

– Mulher minha eu quero bem comida.

 

 

 


Millôr


Resista, se puder!

 

Eu queria entender o fenômeno da impostação de voz, masculina.

O cara liga pra pedir um taxi. A atendente é mulher. O cara solicita o taxi como quem pede um boquete.

 

 

E depois diz que não é nada disso.

E não é caso isolado. Conheço uns que se especializam em pedir uma caprichadinha no queijo do cheddar mc melt em modo sensualizante.

Já dizia o Chico, em Biscate, que: “telefone, é voz de dama, se penteia pra atender”.

Eu hein.

Depois mulher é que é difícil de entender.

 

 

 

 

 

 


Produtividade

 

Ele fumou maconha da lata. Tem um CD do Pholhas. Lembra-se vagamente de Castro e Guevara adentrando Havana, vitoriosos e jovens.

Quando eu nasci, o pau dele já estava, havia muito, na atividade.

E hoje, o mesmo pau me come.

O pau de onde saiu a filha, mais velha que eu. O pau que resultou em netos.  Todo mundo ali naquela sala existe graças àquele pau!

E hoje, o mesmo pau me come.

Às vezes, trepar com ele é como viajar na caranga do Marty McFly.

Um Viva! à longevidade do piru brasileiro!

 

 

 

 


o gozo dela…

 

Que delícia se um que me lê sente em si, movimentar uma coisa, uma vontade de dizer.

Que delícia esse um diz.

Que delícia se compartilha.

Que delícia se me permite compartilhar…

Vá vendo, amigo leitor…

“Meu gozo é latente. Propício. Mora dentro de mim e insiste em querer tomar o mundo… e por conta de um gesto, um olhar, um fenômeno vem à tona, nascendo no ventre e encontrando no cóccix, um caminho até minha nuca, onde irradia de forma tão rápida, atingindo meu lobo frontal e explodindo em sinapses acima das minhas sobrancelhas, dando fim a todas minhas conexões… e conjecturas… e neuras… e brilhantismos… e tudo o mais.

Meu gozo acontece além do sexo.

Acontece embaixo de uma lona, onde você entra nos meus poros de forma tão singular, no meio da multidão.

 Acontece quando uma moça sensível nos mostra o Homem Vitruviano. Quando Constantino é morto e percebo que “somos um coro”.
 
Meu gozo acontece quando em frente a um Caravaggio, recebo uma mensagem de amor e choro de felicidade, por estar ainda tão perto, mesmo a tantos quilômetros de distância.
 
Meu gozo finalmente acontece quando minha pele encontra a sua, branca e frágil. E sinto, numa epifania, estar fazendo tudo certo, mesmo parecendo estar tudo errado.”

Tibete

 

Que é tal coisa como o gozo?

Goza-se com a buceta? Com o clitóris? Com o pau? Com o cu? Com o cérebro?

Com uma lambida bem dada, uma dedada adequada, uma camisinha rasgada?

Goza-se com o martelar  insistente no colo do útero?

Ou com o leve roçar ali em qualquer parte, algo entre os pequenos lábios e o caminho para a eternidade que há no interior do ventre de uma mulher?

O que concorre para o gozo?

A concentração, a voz, o cheiro, a dor?

Fantasia. A quem pertence o gozo que vem da fantasia?

É de ajuda um beijo no pescoço, um puxar de mamilo?

Será que o gozo se decide no momento em que se sente o desnível entre a cabeça e o resto do pau?

Ou no tapa estalado, na marca de fogo, nos dentes cravados?

Ou antes ainda, quando seu desejo foi despertado por uma cara séria, um gesto imperioso?

E se se goza, de onde vem o gozo?

Dali do períneo? Raso,  fundo? Gozo muscular? Ou viceral, vem do pâncreas de levinho,  e vai tomando a pélvis, fechando os olhos, retesando as mãos…

Virá, o gozo, do sistema linfático?

Uma bola de pinball, ricocheteando nas entranhas.

O gozo depende de líquidos? Tem cheiro? Tem sabor? É espasmódico?

E quando o gozo se dispersa?

E se a tensão é tanta que uma cãibra advém, e se o ritmo muda quando você precisava assim, assado?

E quando se perde o momento, e o gozo que vinha, desvia. Para onde é que ele vai?

E se o gozo que eu gozo for o gozo que fugiu do vizinho?

E se futuros amantes gozarem o gozo que um dia eu guardei pra você?

E a ausência de gozo?

O cúmulo da esperança é o sexo que supõe gozo. E se ele não dá, nêga? Eu vou me indignar e chega!

E quem não goza com boquete?

E quem não goza com penetração?

E quem só gozou uma vez com um cara que conheceu em Afron-z?

E quem só goza com o chuveirinho do bidê?

E quem goza como quem chora, de desalento, de desencanto?

E quem goza como quem ri?

E quem só goza em sonhos?

E quem não goza nunca?

E quem pratica sexo tântrico?

Será, o gozo, uma invenção do Sistema?

Será o gozo, uma patologia?

Quando você goza, aonde está você?

Você goza? Está certo disso?

O que te faz pensar que aquilo é um gozo?

E se, ao contrário, quem não goza, na verdade, não goza só porque acredita nisso?

E se eu simplesmente não compreender que estou gozando?

Quem regulamenta os gozos?

Quem distribui os gozos?

Teremos nós, mulheres, tantos gozos quantos óvulos haja?

Haverá uma cota de gozos por vida?

Em quem momento nos inscrevemos no sistema de distribuição de gozos?

Por que não há uma bolsa-orgasmo?

Será que, como no Tênis, gritos são necessários ao gozo?

E se o gozo for perverso, imposto, sujo, pedófilo, necrófilo, zoófilo, putrefato, vergonhoso? Abre-se mão do gozo?

E a perversão mor de quem só goza apaixonado?

O que é o gozo?

E se eu quiser testar todas as possibilidades?

E se eu tomar como meta de vida, gozar todos os gozos que há?

Quem poderá me culpar?

Quem poderá me ajudar?

Quem poderá me amar até o fim dos gozos, quando juntos, jazeremos lado a lado, finalmente em paz, olhando as montanhas plácidas que se vê da minha casa, mas às quais nunca posso observar com a postura compungida e contrita que tal ato requer, pela simples razão de que os gozos que não gozei me inquietam, e a montanha é linda mas pouco, diante da agitação da minha alma que pergunta, inconformada ao meu corpo, se isso é tudo.

Quero o gozo de olhar a montanha e ela me bastar.

 


Sujeito Oculto

 
 
Ele nunca consegue se lembrar do número do próprio telefone.
Seus óculos têm vontade própria.
Ela instala coisas no meu computador. Que eu não sei como se usa.
Seus rímeis secam, como os meus.
Reclama por eu baixar músicas fora dos álbuns de origem.
Ele diz que eu tô por fora da pornografia moderna.
Explica que a recente produção francocult sobre estupro é o que há.
Meu laptop sabe a senha do wifi deles.
E na geladeira tem o guaraná que eu gosto.
Ele olha para os meus peitos enquanto eu falo de coisas solenes.
Ele finge que o joelho não dói, para que eu possa gozar.
Diz, entre risos, que aquela maconha não deu onda.
Ela descreve as cores segundo suas denominações no pantone.
Ele sugere que eu deixe uma muda de roupa minha por lá.
E sempre esquece suas cuecas aqui.
Ele envia um SMS me mandando aparecer na janela no meio do dia triste.
Do carro, me sorri, e tenho vontade de me deixar cair.
Ela sempre tira os brincos quando tem vontade de trepar.
Ele me deixa livre. Ela simula ciúmes. Ele se derrama.
 
 
Eu fico muda de amor e desejo.