Tibete

 

Que é tal coisa como o gozo?

Goza-se com a buceta? Com o clitóris? Com o pau? Com o cu? Com o cérebro?

Com uma lambida bem dada, uma dedada adequada, uma camisinha rasgada?

Goza-se com o martelar  insistente no colo do útero?

Ou com o leve roçar ali em qualquer parte, algo entre os pequenos lábios e o caminho para a eternidade que há no interior do ventre de uma mulher?

O que concorre para o gozo?

A concentração, a voz, o cheiro, a dor?

Fantasia. A quem pertence o gozo que vem da fantasia?

É de ajuda um beijo no pescoço, um puxar de mamilo?

Será que o gozo se decide no momento em que se sente o desnível entre a cabeça e o resto do pau?

Ou no tapa estalado, na marca de fogo, nos dentes cravados?

Ou antes ainda, quando seu desejo foi despertado por uma cara séria, um gesto imperioso?

E se se goza, de onde vem o gozo?

Dali do períneo? Raso,  fundo? Gozo muscular? Ou viceral, vem do pâncreas de levinho,  e vai tomando a pélvis, fechando os olhos, retesando as mãos…

Virá, o gozo, do sistema linfático?

Uma bola de pinball, ricocheteando nas entranhas.

O gozo depende de líquidos? Tem cheiro? Tem sabor? É espasmódico?

E quando o gozo se dispersa?

E se a tensão é tanta que uma cãibra advém, e se o ritmo muda quando você precisava assim, assado?

E quando se perde o momento, e o gozo que vinha, desvia. Para onde é que ele vai?

E se o gozo que eu gozo for o gozo que fugiu do vizinho?

E se futuros amantes gozarem o gozo que um dia eu guardei pra você?

E a ausência de gozo?

O cúmulo da esperança é o sexo que supõe gozo. E se ele não dá, nêga? Eu vou me indignar e chega!

E quem não goza com boquete?

E quem não goza com penetração?

E quem só gozou uma vez com um cara que conheceu em Afron-z?

E quem só goza com o chuveirinho do bidê?

E quem goza como quem chora, de desalento, de desencanto?

E quem goza como quem ri?

E quem só goza em sonhos?

E quem não goza nunca?

E quem pratica sexo tântrico?

Será, o gozo, uma invenção do Sistema?

Será o gozo, uma patologia?

Quando você goza, aonde está você?

Você goza? Está certo disso?

O que te faz pensar que aquilo é um gozo?

E se, ao contrário, quem não goza, na verdade, não goza só porque acredita nisso?

E se eu simplesmente não compreender que estou gozando?

Quem regulamenta os gozos?

Quem distribui os gozos?

Teremos nós, mulheres, tantos gozos quantos óvulos haja?

Haverá uma cota de gozos por vida?

Em quem momento nos inscrevemos no sistema de distribuição de gozos?

Por que não há uma bolsa-orgasmo?

Será que, como no Tênis, gritos são necessários ao gozo?

E se o gozo for perverso, imposto, sujo, pedófilo, necrófilo, zoófilo, putrefato, vergonhoso? Abre-se mão do gozo?

E a perversão mor de quem só goza apaixonado?

O que é o gozo?

E se eu quiser testar todas as possibilidades?

E se eu tomar como meta de vida, gozar todos os gozos que há?

Quem poderá me culpar?

Quem poderá me ajudar?

Quem poderá me amar até o fim dos gozos, quando juntos, jazeremos lado a lado, finalmente em paz, olhando as montanhas plácidas que se vê da minha casa, mas às quais nunca posso observar com a postura compungida e contrita que tal ato requer, pela simples razão de que os gozos que não gozei me inquietam, e a montanha é linda mas pouco, diante da agitação da minha alma que pergunta, inconformada ao meu corpo, se isso é tudo.

Quero o gozo de olhar a montanha e ela me bastar.

 

Sobre mistakegirl

Vaca profana por princípio e vocação... la leche buena toda em mi garganta, la mala leche para los puretas... Ver todos os artigos de mistakegirl

10 respostas para “Tibete

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: