Posseiro

O terceiro me chegou como quem chega do nada

Ele não me trouxe nada, também nada perguntou

Não sei como ele se chama, mas entendo o que ele quer

Se deitou na minha cama, e me chama de mulher

Foi chegando sorrateiro e antes que eu dissesse não

Se instalou feito um posseiro, dentro do meu coração

Chico Buarque

Não era Paris e nem tocava um tango.

Subúrbio carioca, e para além da britadeira,  um funk e o jingle amador de um candidato a vereador que pedalava pela cidade com uma caixa de som, na esperança de angariar votos.

Os dias eram quentes e poeirentos e na falta de árvores para descabelar, a brisa também não se animava a dar os ares.

E era assim, inóspito, o amor deles. Se amor, fosse.

Da trincheira urbana, abaixo do asfalto, sob luvas e viseira, cercado por cavaletes, ele mirou o que havia sob a saia curta e rota. Quis.

Ela, envaidecida por despertar desejo em meio ao esgoto, cedeu.

Davam-se um ao outro na cama bolorenta de um motel nas cercanias da rodoviária, o tempo de esperar os trens esvaziarem. E para lá de Japeri havia suas existências tão áridas quanto os dias poeirentos do subúrbio carioca.

As mãos dele, trêmulas de penetrar o asfalto, só encontravam firmeza nos quadris dela.  Ela cheirava a sabão de côco. E ele jamais atinou que poderia dividir qualquer coisa com aquela mulher que devia se chamar Maria.  O único defeito que ele podia encontrar nela, era o nome.

Nunca trocaram palavra.

Acabou a obra.

Passou a comê-la por ideologia. Para resistir aos solavancos do trem e da britadeira. Para conseguir voltar aos esgotos, para conseguir olhar os filhos que jamais desejou. Passou a come-la por capricho. Passou a come-la para esperar a hora do trem.

Nunca soube por que razão ela vinha.

Não sabia que o gozo podia ser mútuo, e não teria feito diferença se tivesse notado que o gozo dela era o gozo dele desgovernado sobre ela. Sua pele de curtume.

Ela não precisava voltar, mas voltava sempre, não por nada. Apenas para ouvir, ao fim, a única coisa na vida que lhe trouxe pertencimento. Apenas para ouvir, já na saída, com a porra dele escorrendo entre suas pernas, que:

– Mulher minha eu quero bem comida.

 

 

 

Sobre mistakegirl

Vaca profana por princípio e vocação... la leche buena toda em mi garganta, la mala leche para los puretas... Ver todos os artigos de mistakegirl

4 respostas para “Posseiro

  • Miller

    O saciar da fome (seja ela de sexo, carinho, esquecimento, ou qq outra coisa) não precisa de lugares paradisíacos ou trilha sonora.
    O saciar dessa fome precisa de 2 (ou mais, quem sabe) dispostos a saciar a sua fome na fome do outro, seja ela do que for.
    E vc segue encontrando um gozo em cada canto 🙂

  • Mistress Artemis

    Ah, Mistake.
    Você escreve essas coisas que eu suspeito que estavam aqui, ainda embrionárias na minha cabeça. Eu podia ter escrito isso. Eu queria ter escrito isso. Você escreveu muito melhor do que eu o faria.

  • Trodat

    Pô! Prá lá de Japeri é muito legal, não tem poeira, é mato, vida calma, silêncio da natureza, passarinho cantando, rios mais limpos, temperatura amena, vizinhança cordial, cadeiras na calçada… vida boa!

  • Miller

    uhmm… todo dia pela manhã abro meu navegador e procuro algo por aqui, esse tempo sem posts é só um pequeno recesso né? Faz bastante falta te ler 🙂
    Espero que esteja tudo bem por ai.
    Aproveito pra dizer que tb ta fazendo uma falta danada ler o Ideias Lascivas…

    Grande abraço

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