Milonga

     Então, era perto da meia noite de uma segunda-feira, na fria e chuvosa Buenos Aires. As ruas mais desertas que o comum. O chão úmido. Ventava o vento encanado e cortante das ruas longas e retas de Buenos Aires.

Condições propícias para uma alma como a minha.

Ficava lá. No lado mais obscuro  e antigo de San Telmo. Num de seus prédios baixos e mal conservados. Possivelmente o dia assistia a  grande borburinho naquele lugar. Mas não a essa hora, e nessas condições. Agora era frio e êrmo.

Mas era ali, naquela porta entreaberta, sem qualquer indicação. Apenas o número do sobrado: 571. Ninguém para recepcionar. O som abafado de um tango antigo. Uma escada de madeira com balaustrada de mármore. Dois lances. Ao longo do primeiro, cartões e cartazes com propagandas de aulas e indumentária de tango. Ao fim do segundo uma porta dupla. E a partir dali, no salão escuro, sobre o assoalho de madeira, havia, de modo concentrado, o que de melhor a cidade tem a oferecer: vigor e solenidade.

Um pequeno palco, e nele, uma orquestra típica. Um piano, um contrabaixo acústico, três violinos, três bandoneons e um cantor. Moças e rapazes. Todos com menos de 40 anos, alguns com menos de 30. Nove jovens empunhando com dignidade o sumo do orgulho porteño.

Silêncio: se vai tocar o tango. 

No salão, à frente, não menos jovens, casais compenetrados em cadenciados rodopios.

Sento. Ouço. Assisto. Deixo-me comover.

Era meu terceiro dia na cidade, e mesmo conhecendo-a tão bem, sempre me surpreendo com as coisas que ela me dá a observar sobre si. Buenos Aires desvela-se para mim, caprichosamente, em doses homeopáticas, há 14 anos. A cada vez é um pouco de si que me mostra. E eu, agradecida, assimilo.

Só agora notei, por exemplo, como Humphrey Bogart e Carlos Gardel tem tanto que ver um com o outro. Para além da escolha estética. Os personagens de Bogie, poderiam estar ouvindo um tango num fone de ouvido. E de repente faz sentido que haja tantas fotos dele espalhadas pela cidade.

Eu, como todos, também já observara o quão bonitos são os porteños. Isso só ressalta o quanto as porteñas não o são. Eu não me considero uma brasileira típica, e não sou mesmo. Mas elas são tão diferentes de nós, que é preciso esforço e boa-vontade para compreende-las. Sua deselegância nem sempre discreta, a maquiagem, as intervenções na pele, o bronzeamento artificial, a tinta de predileção, as roupas algo entre perua e esculhambada, a aparência geral de quem está prestes a fazer malabares no sinal. É preciso uma inclinação para o pitoresco para admirar adequadamente uma porteña, até mesmo para o burlesco.

Mas ali, na penumbra daquele salão, foram outras, as mulheres que vi.

Vindas de cantos remotos de la ciudad, de suas casas, seus trabalhos, seus abandonos, elas chegam. É lunes, e hay milonga. A milonga da Calle Peru. Imagino-as pensando nisso, de manhã, sonolentas em suas casas, preparando-se para o dia cinza, e colocando em bolsas seus sapatos para bailar. Há algo que me emociona em mulheres que, numa segunda-feira chuvosa, num país espoliado, levam nas bolsas os seus sapatos de dançar. Promessas.

Ao chegar, sentam-se silenciosas e trocam por delicados sapatos de salto alto, seus tênis rotos, que quedam-se sob as cadeiras. Poemas de se calçar. Pudesse eu, roubava para mim, um deles. Se você olhar bem, verá, ali, saindo de uma meia, largada ao lado de scarpins grosseiros, as personalidades cotidianas daquelas mulheres tão esquisitas. Ali, sob a luz difusa do salão, não há o botox, nem se vê todos os grampos a segurar seus coques desmantelados. Não importam a base nem o rímel. Ali recuperam sua altivez e dignidade, os cabelos compridos presos no alto da cabeça, lindas covinhas em costas expostas, desconsertantes axilas à mostra. Tão elegantes. Seus pés de unhas vermelhas deixam claro ao que vieram. A latinidade que me perdoe, mas é preciso ser porteño para dar conta delas.

No ar, o aviso velado, para que forasteiros não se metam. A dança requer  a soberba inigualável que eles ostentam. Como a inflexão, é preciso aprender desde pequeno. É preciso ter a voz rouca, amar El Libertador com devoção e ser capaz de ouvir, compungido, um tango, para conduzir adequadamente aquelas damas.

Se ser brasileiro requer aptidão para a galhofa e irreverência, ser porteño requer solenidade e arrogância.

Eles se abraçam de igual para igual, eventualmente as mãos delas ficam na mesma altura que as deles. Há um que de tourada. Olhos fechados, respiração próxima. É difícil ser um homem quando a dança é um tango.  A ele cabe o cálculo do espaço por onde conduzirá seu par. A ele cabem as decisões. Através da dor na voz do cantor, ele conduz a mulher em seus braços. Seu movimento é contido, e a um desavisado parece descompassado em relação ao ritmo. Seus passos são feitos de pausas.  Ele avança para ela. A mão é leve, porém segura. A tensão é tangível. Olhe para os pés daqueles homens: um que vai, decidido, e outro que vem, a seguir, milonguero, lento, insubmisso, até unir-se ao primeiro. Poucas vezes se vê tanta empáfia quanto a que destilam os pés de um dançarino de tango.

Mas é também difícil ser a mulher, porque na evolução daqueles passos, sempre há um pé deixado em seu caminho, como um desafio. Tem um que de tourada, o tango. O desafio delas está em, entregues porém soberanas, transpor o pé, e até a perna inteira de seu par. Aos meus olhos, aquela dança, em termos de movimento, é a expressão da maneira como o homem se faz obstáculo e o modo como ela lida com ele. E tão mais gracioso e engenhoso seja este modo, mais bonito será o resultado. Tem um que de tourada, o tango.

Silêncio e espaço. Solenes, os casais rodam, como num carrossel. Esta roda tem uma etiqueta. Como o estatuto de nossas gafieiras. Em média a cada quatro tangos, a música muda abruptamente. É o ensejo para que, sem constrangimento, os dançarinos mudem, sem quiserem, de par. Entre um tango e outro há um intervalo de cerca de meio minuto, e nele os pares podem entabular uma conversa, armar uma paquera, sempre respeitosa. A música recomeça, então se tocam, e sentem o ritmo, antes de decidir os primeiros passos. É bonita, a roda de tango numa jovem milonga porteña.

Vou embora. Para os nômades, sempre é chegada a hora de ir embora. Mas vou tranqüila. Mesmo preocupada com o que encontrarei da próxima vez. Mesmo triste pelos quarenta e cinco centavos de real que valem um peso argentino, hoje. Mesmo que o Peixe Urbano pareça ter acabado com a cidade, que se voltou inteira para captar os reais que jorram aos borbotões, gerando uma oferta de comida já não tão ciosa de sua qualidade, visando às brasileiras fúteis que correm atrás de bolsas Louis Vuitton e cosméticos. Gente que pede bife de chorizo bem-passado. Turismo chinfrim e careta de shows de tango, Puerto Madero e Caminito. Constrangedor. Mesmo que a dureza de um cotidiano de crise esteja nitidamente tolhendo a efervescência cultural daquele povo bonito e criativo. Vou tranqüila.

Enquanto houver Milongas, vou tranqüila.

Onde houver o carrossel de casais, e sapatos cansados sob as cadeiras, ali estará Buenos Aires, que trago comigo sempre. E onde houver Buenos Aires, estarei comovida. E, dada a idade dos convivas, parece que haverá por muito tempo ainda.

Ao fim, todos já dançaram com todas, e voltam, se desejam, aos pares que mais lhes agradaram, livres, vigorosos.

Como devia ser também na vida.

 

p.s: se você acha que este post não tratou de sexo, sugiro uma ida à boate de striptease mais próxima, ali, certamente a prática será suficientemente explícita.

 

 

Sobre mistakegirl

Vaca profana por princípio e vocação... la leche buena toda em mi garganta, la mala leche para los puretas... Ver todos os artigos de mistakegirl

4 respostas para “Milonga

  • Mistress Artemis

    Nossa, Mis.

    Comecei e apaguei 8 respostas possíveis a esse post.

    E ainda não sei o que dizer.

    Gostei.
    Muito.

    É o que temos por enquanto.

  • mistakegirl

    Poxa! Escreve, escreve! Esse post está em gestação há 10 dias e não conseguia tempo para escreve-lo… tô pegada aqui… saudade de me dedicar ao blog, vontade de me dedicar, coisas a escrever, mas o bicho tá pegando mesmo…. no entanto, não desistam de mim!!! Inclusive tenho lido o seu, e os seus outros comentários, do Miller, de todo mundo, mas nem a isso tenho conseguido dar a devida atenção… mas vou! Me aguardem!

  • Miller

    Vc escreve como se estive em uma milonga ainda, e ler isso nos leva pra junto de vc.
    E se um dia, vc roubar um daqueles sapatos… divide com a gente, vai ser um prazer!🙂

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: