Como no deserto uma flor

   Se acaso me quiseres, sou dessas mulheres que vivem enroladas num paninho.

É. Sinto muito.

Como sabem os que me são mais próximos, ando num momento de assumir minhas doideiras. Tipo, descobri, lá pras tantas na vida, que sou um monte de coisas que não gostaria de ser. Coisas que não admiro e não desejo para mim. Mas sou. Lutei contra elas até aqui, e de repente, não mais que de repente, resolvi sair do armário.

Algumas dessas coisas, quero crer que, olhando de frente, sem fingir que não existem, consigo reverter. Por exemplo: sou ciumenta.

Deixa que digam, que pensem, que falem.

Não é o ciúme banal do olhar para outros corpos, da admiração do outro pelo outro. Não é sequer o ciúme que impede trocas e toques. Não. É o ciúme doído que envolve controle e posse. Subjetivo e corrosivo.

Custa-me admitir: sou ciumenta.

Não queria ser. Isso não combina com as coisas mais profundas em que acredito. Passei a vida convencida de que não era uma pessoa ciumenta. De fato, desafio a alguém que me aponte durante os meus bem vividos 37 anos, um único ataque de ciúme. Mas agora, entendi qual era o mecanismo. Eu ia muito bem, aí de repente o cidadão me fazia sentir isso, que eu nem mesmo identificava como ciúme. O que eu fazia? Levantava o nariz, soprava um beijinho e seguia em frente. Sozinha. Por absoluta incapacidade de assumir e lidar com o sentimento. Abria mão de qualquer coisa para não ter que sentir algo que execrava. E execro.

Bom, o que mudou agora é que eu entendi os sinais do monstro de olhos verdes. Ainda não sei lidar com isso. Não sei se fecho a cara, se choro, se vou embora. Mas agora que sei o que estou sentindo, não consigo mais fingir que não existe. Uma hora vou entender o processo e saber o que fazer. Estou convicta, porém, que esta é uma daquelas coisas que descobri a meu respeito, e sobre as quais posso agir. Em breve serei a pessoa ponderada e libertária que sempre me acreditei.

Há, contudo, questões, que por mais que eu queira, não conseguirei flexibilizar. Por exemplo:  eu sou chegada num paninho.

Estou sempre mais confortável com uma faixinha na cabeça, uma meinha, uma canga, um body, uma camisolinha, uma calcinha, que seja. Sou até dada a um  friozinho inventado só pra me enrolar numa pashimina. Não é assim uma burka nem nada que comprometa os movimentos. É só o conforto de um paninho. É triste dizer que nunca serei uma Leila Diniz, uma Lady Godiva a galopar meus seios pela amplidão do planeta. Tsc. Não sei se o planeta poderá lidar com isso.

É triste.

Mas é assim, né?

Em minha defesa, só posso dizer que, se acaso me quiseres, sou dessas mulheres (envolta em rendas e atavios) que só dizem sim.

Sobre mistakegirl

Vaca profana por princípio e vocação... la leche buena toda em mi garganta, la mala leche para los puretas... Ver todos os artigos de mistakegirl

2 respostas para “Como no deserto uma flor

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