Tutu-marambá

Ai, como essa moça é distraída
Sabe lá se está vestida
Ou se dorme transparente
Ela sabe muito bem que quando adormece
Está roubando
O sono de outra gente

A noiva da cidade, Chico Buarque

 

Dizia num  post anterior que sou uma pessoa que gosta de estar enrolada num paninho. Isso também é verdade para a hora de dormir.

Mas daí eu sei a origem da nóia.

Para horror de minha pobre mãe, saí desgarrada. Dessas criaturas ignóbeis que nascem nômades e têm o impulso de assentir a qualquer dedinho que lhes convide rumo ao deconhecido.

Mamãe, senhora honesta e sensata, nunca consentia com minhas súplicas de ir pernoitar na casa da fulaninha, da sicraninha.

Dizia-me sempre que eu não tinha modos. E admoestava-me. Se eu um dia fosse capaz de dormir e acordar coberta e não com o bumbum arreganhado para a nação – bem, ela nunca usou essas palavras até porque não creio que mamãe tenha jamais empregado o vocábulo “arreganhar” – ela então poderia pensar em permitir que eu dormisse em qualquer lugar que não fosse o meu quarto sob suas vistas zelosas.

Obviamente aprendi a dormir imóvel em tempo recorde. Não me valeu, uma vez que mamãe trapaceou e só me concedia dormir na casa de Camila, amiga pudica e de poucos irmãos.

Em todo o caso eu ficava imaginando qual seria a grande relevância imprópria de me descobrir durante a noite.

Certo dia, foram tantas as indagações, e foram tantos os pedidos, tão sinceros, tão sentidos , que ela dominou seu asco, e explicou, contrita, que se preocupava com a possibilidade dos pais de minhas amiguinhas me fazerem mal.

Mente piranha mirim ociosa, oficina do diabo.

Eu não parava de imaginar o mal a que estava exposta, e como isso poderia acontecer. Imaginava-me dormindo plácida e inocente em meu austero colchonete ao lado da cama de minha doce anfitriã, quando subitamente, mãos arredias me alisavam durante a noite, dado que eu não podia parar coberta, num convite a todo o tipo de mal feitor que por ventura habitasse a casa de minhas amigas.

Evidentemente hoje eu tenho ciência do quão plausível era a preocupação de minha mãe, especialmente se levarmos em conta que eu sempre fui imensa e aos 13 anos, aparentava uns 17. E sei também do quão terrível teria sido a realidade se os piores pesadelos dela tivessem se tornado realidade.

No entanto, isso aqui não é o programa da Oprah Winfrey e eu tenho toda a liberdade para dizer, em meu próprio blog, que meu desgarramento natural se acirrou muito mais quando eu comecei a vislumbrar as possibilidades que a situação oferecia. Imaginava desde os passos no corredor, a porta se abrindo com suavidade, no silêncio. Neste momento eu naturalmente arrebitaria o bumbum, e então as tais mãos indômitas me tocariam, sinuosas e leves. Eu, fingindo dormir, mudaria ligeiramente de posição de modo a dar mais acesso a elas, que não parariam nunca, jamais,  de me percorrer e explicar, de uma vez por todas o que é que era tão proibido sentir.

E assim se criam as perversões sexuais. Ou pelo menos algumas preferências. Sexo durante o “sono” certamente se tornou uma.

E taí também a causa primeira de eu acordar imediatamente sempre que por uma eventualidade a coberta, por menor e mais leve que seja, escorregue e me exponha as ancas. Porque você sai de dentro da sua mãe, é fato. Mas a sua mãe não sai de você.

Ai, ai….. ando tão confessional…

 

Sobre mistakegirl

Vaca profana por princípio e vocação... la leche buena toda em mi garganta, la mala leche para los puretas... Ver todos os artigos de mistakegirl

4 respostas para “Tutu-marambá

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