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Comutação

É bonita a nossa curta história.

O sexo bem feito, o cuidado com a gente, a honestidade.

O conforto de simplesmente estar juntos. A pintar a parede, a lavar a louça.

Não cabemos nas sinapses da sociedade civil. Párias

E a mim, isso me encanta. Eu nunca coube mesmo em muita coisa.

As possibilidades de nossos vetores de relacionamento, isto que sou com cada um deles, e o que cada um deles é entre si, e o que somos todos, juntos.

Quando saímos, à uma mesa retangular de um bar qualquer, rindo, bobos, quase que casualmente nos sentamos assim: de um lado ela, e ao lado dela, ele. Do outro, eu (à frente dele), e ele (à frente dela). E foi um deles, cartesiano, quem notou que aquela era a representação de nossos acessos.

Gosto dos nossos acessos, e das confusões que eles suscitam. Experimentação.

É bonito.


Mariuzinn

A cidade é sempre um tesão.
Sozinha.
Ela tem mania de andar sozinha pela cidade.
Por horas, sem emitir nenhum som.
Sai da última sessão de cinema, acende um cigarro (só porque o gesto combina), aspira o ar frio e úmido e segue. Seus passos ecoando no chão molhado da cidade.
E cada cidade é todas aquelas que conheceu, que preferiu.
Cada cidade é Rio, Porto Alegre, Asti. Cada cidade é Praga, e Quixeramobim.
As opções da cidade são um tesão.
Um suco tarde da noite. Maresia e frio num verão transviado.
A boite, a mesma de sempre. Sempre, a mesma. Pequena, infernal.
Sozinha.
E dança.
Entre todos. Com ninguém.
Ela não é castrada. Tem um enorme pau que se sacia agora de seu próprio corpo. Sinuoso, frenético.
Molhada, completa.
Ela é sempre um tesão.


The Doors of Perception, ou… come on baby, light my fire

Perguntaram-me ontem por que eu usava drogas. Não me considerei na obrigação de responder. Tenho o hábito de não argumentar com quem sei que não detém a arte de compreender, mesmo discordando. É um princípio meu, mesmo me sentindo injustiçada, deixar a pessoa cheia da razão que ela acha que tem. Isso faz de mim alguém muito pouco dada a discussões.

O caso me fez lembrar de uma vizinha que julgava uma temeridade o meu hábito de vagar sozinha à noite pelas ruas do Rio de Janeiro. Ela sempre me advertia de que havia gente que fumava maconha e podia me fazer uma maldade. Eu também não argumentava com ela.

A resposta que não dei à inconveniente e curiosa senhora de ontem, a fornecerei aqui. Simplesmente pelo fato de que este é o meu espaço, e a coisa toda é muito democrática. Eu digo o que quero, lê quem quer, ignora quem tem juízo.

Não fumo cigarro, não tomo calmantes, estimulantes, nem café, bebo muito pouco, jamais usei cocaína, crack ou heroína. Por razões de saúde, tive uma superdosagem de morfina, e achei a pior coisa que me aconteceu. Não gosto de música pop, nem coreografias de massa. Não vejo programas vespertinos de TV não leio a Caras nem livros de auto-ajuda. Não me interessa estar entorpecida, nem falsamente estimulada.

Não tenho nenhum vício, a não ser por chocolate, que, admito, praticamente substitui todos esses acima.

Mas gosto de estados de consciência alterados. Interessam-me experiências que mexam com a minha percepção. Talvez eu tenha lido muito Timothy Leary, Aleister Crowley, Carlos Castañeda, Kerouac e até mesmo Raul Seixas. Enfim, tenho uma relação quase que filosófica com este tipo de droga. Aliás, quase não, é mesmo filosófica, não é à toa. Sei o que estou fazendo, e faço porque quero.

Minha droga de preferência é a maconha. E numa situação festiva, maconha trançada com haxixe. Impressionam-me os amigos que fumam todo o dia, o dia inteiro, e têm que dar conta de seus afazeres, e dão! Eu não seria capaz. Porque eu piro mesmo. E é por isso que me interessa. Tem que ser eventual.

Gosto de olhar o verde e ele ser tão verde que parece me infiltrar. Gosto do surto de lucidez, das estrelas ao meu alcance, das conclusões realmente brilhantes. Gosto de libertar este meu corpo sempre restrito por tantas dores. Emociona-me notar que ele sabe exatamente quais os seus limites e caminhos, que ele tem memória e consciência. Que ele só dói quando eu, munida disto que convencionou-se chamar razão, tento intervir em seus limites. Fico maravilhada de poder dar um salto triplo mortal carpado e dançar literalmente horas sem parar. Adoro poder me libertar da razão imperiosa que aprisiona e avilta.

Divirto-me diante do descompasso entre a velocidade do meu pensamento e a minha incapacidade de expressar tudo o que estou pensando.

E gosto sobretudo da emoção escrachada, da entrega rasgada, da ausência de pudores.

Do desejo, de entregar meu corpo livre, sem qualquer vergonha da celulite que me martiriza no meu dia a dia. Como se ela fosse um elemento legal no jogo, porque minha, porque eu. Gosto do modo como sou capaz de erguer meus quadris, e me abrir e me oferecer, de ter a percepção total do que está acontecendo dentro de mim, uma sensação que não é permeada pelo racionínio, por questões pertinentes ao outro, por pudor, pelo tempo, por toda a baboseira que nos restringe o prazer.

Gosto do gozo abusado. De trepar com as entranhas. De ser Dionísio.

Sou do tipo que fuma maconha e representa perigo aos transeuntes noturnos da cidade. Pois me dá uma vontade irresistível e irrefreável de fazer maldade. A maldade de contar para eles que tem alguém ali dentro que é bem melhor. A vontade de fumar um beck com a senhorinha gentil que assiste Raul Gil, só pra ver o que acontece.

Mas então eu peço piedade, Senhor, piedade, pra essa gente careta e covarde.

La mala leche para los puretas.


Let it beatnik

” (…)

A gente acha que conhece uma mulher pelas palavras que ela diz, pelos olhos que brilham quando você sorri e pelos sussurros na trepada. Mas tudo isso não passa de uma impressão machista e ocidental. Não sei, mas tenho a ideia de que reparam as coisas com um outro olhar, de um outro lugar. A maioria do que achamos ser o que dá tesão, talvez seja detalhe que acrescenta e não necessariamente, decida uma escolha.

Conheci a maldita em um dia louco de bebop. Zum, zum, ducupaque, pra paque, pra paque, tum dum.

Olhos negros, grandes, arredondados. Ah e os lábios, putaquepariu, que boca perfeita que me presenteou com momentos sublimes, dionisíacos, presentes em minha alma chorosa.”

Kerouac


Ai, esses beatniks….

Sleep late, have fun, get wild, drink whiskey and drive fast on empty streets with nothing in mind except falling in love and not getting arrest…

Hunter S. Thompson

via http://josoylobon.tumblr.com