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Fever I’m on fire!

Eis que nesta chuvosa noite de terça-feira, vejo-me com febre.

No meu quarto novo, na minha cama nova, na minha nova condição de vida, sozinha, com febre.

Meditando pra não perder o controle e chamar minha mãe.

Então, me socorre uma música – como tem sido sempre…

A voz brejeira de Peggy Lee cantando Fever! Já tinha citado isso num post anterior. Porque de fato essa canção está entre as minhas referências. Aí fui procurar pra ouvir e me distrair durante a tremedeira e encontrei este vídeo:

 

 

Ver o Elvis em modo sensualizante, não tem preço!

Espetacular, não? Essa eu tinha que dividir e tinha que ser aqui NESTE espaço… É uma mistura de Sidney Magal e Ney Matogrosso… sensacional.

Para além disso e de minha temperatura alta, a canção tem tudo a ver.

Então, deixo o vídeo para vosso deleite e também o link com a letra e a tradução:

 

http://letras.mus.br/elvis-presley/31427/traducao.html

 

Enjoy, it!

Se eu não voltar, era dengue… ou coisa pior! Porque trágica como eu sou, não havia de me contentar com um resfriadozinho básico…

Neste caso:  goodbye cruel world!

 

(mas essa já é uma outra canção…)


Pinball Wizard

 

Não sei o que um homem espera de uma mulher na hora do sexo.

Mas sei o que seria interessante para uma mulher na mesma hora.

Um bom jogador de pinball.

Saber aplicar força, criar efeitos, tocar em pontos exatos, acertar o alvo a partir do primeiro impulso, sem muitas estripulias, só assim, certeiro, macho.

 

That deaf, dumb, and blind kid

Sure plays a mean pinball

 


Milonga

     Então, era perto da meia noite de uma segunda-feira, na fria e chuvosa Buenos Aires. As ruas mais desertas que o comum. O chão úmido. Ventava o vento encanado e cortante das ruas longas e retas de Buenos Aires.

Condições propícias para uma alma como a minha.

Ficava lá. No lado mais obscuro  e antigo de San Telmo. Num de seus prédios baixos e mal conservados. Possivelmente o dia assistia a  grande borburinho naquele lugar. Mas não a essa hora, e nessas condições. Agora era frio e êrmo.

Mas era ali, naquela porta entreaberta, sem qualquer indicação. Apenas o número do sobrado: 571. Ninguém para recepcionar. O som abafado de um tango antigo. Uma escada de madeira com balaustrada de mármore. Dois lances. Ao longo do primeiro, cartões e cartazes com propagandas de aulas e indumentária de tango. Ao fim do segundo uma porta dupla. E a partir dali, no salão escuro, sobre o assoalho de madeira, havia, de modo concentrado, o que de melhor a cidade tem a oferecer: vigor e solenidade.

Um pequeno palco, e nele, uma orquestra típica. Um piano, um contrabaixo acústico, três violinos, três bandoneons e um cantor. Moças e rapazes. Todos com menos de 40 anos, alguns com menos de 30. Nove jovens empunhando com dignidade o sumo do orgulho porteño.

Silêncio: se vai tocar o tango. 

No salão, à frente, não menos jovens, casais compenetrados em cadenciados rodopios.

Sento. Ouço. Assisto. Deixo-me comover.

Era meu terceiro dia na cidade, e mesmo conhecendo-a tão bem, sempre me surpreendo com as coisas que ela me dá a observar sobre si. Buenos Aires desvela-se para mim, caprichosamente, em doses homeopáticas, há 14 anos. A cada vez é um pouco de si que me mostra. E eu, agradecida, assimilo.

Só agora notei, por exemplo, como Humphrey Bogart e Carlos Gardel tem tanto que ver um com o outro. Para além da escolha estética. Os personagens de Bogie, poderiam estar ouvindo um tango num fone de ouvido. E de repente faz sentido que haja tantas fotos dele espalhadas pela cidade.

Eu, como todos, também já observara o quão bonitos são os porteños. Isso só ressalta o quanto as porteñas não o são. Eu não me considero uma brasileira típica, e não sou mesmo. Mas elas são tão diferentes de nós, que é preciso esforço e boa-vontade para compreende-las. Sua deselegância nem sempre discreta, a maquiagem, as intervenções na pele, o bronzeamento artificial, a tinta de predileção, as roupas algo entre perua e esculhambada, a aparência geral de quem está prestes a fazer malabares no sinal. É preciso uma inclinação para o pitoresco para admirar adequadamente uma porteña, até mesmo para o burlesco.

Mas ali, na penumbra daquele salão, foram outras, as mulheres que vi.

Vindas de cantos remotos de la ciudad, de suas casas, seus trabalhos, seus abandonos, elas chegam. É lunes, e hay milonga. A milonga da Calle Peru. Imagino-as pensando nisso, de manhã, sonolentas em suas casas, preparando-se para o dia cinza, e colocando em bolsas seus sapatos para bailar. Há algo que me emociona em mulheres que, numa segunda-feira chuvosa, num país espoliado, levam nas bolsas os seus sapatos de dançar. Promessas.

Ao chegar, sentam-se silenciosas e trocam por delicados sapatos de salto alto, seus tênis rotos, que quedam-se sob as cadeiras. Poemas de se calçar. Pudesse eu, roubava para mim, um deles. Se você olhar bem, verá, ali, saindo de uma meia, largada ao lado de scarpins grosseiros, as personalidades cotidianas daquelas mulheres tão esquisitas. Ali, sob a luz difusa do salão, não há o botox, nem se vê todos os grampos a segurar seus coques desmantelados. Não importam a base nem o rímel. Ali recuperam sua altivez e dignidade, os cabelos compridos presos no alto da cabeça, lindas covinhas em costas expostas, desconsertantes axilas à mostra. Tão elegantes. Seus pés de unhas vermelhas deixam claro ao que vieram. A latinidade que me perdoe, mas é preciso ser porteño para dar conta delas.

No ar, o aviso velado, para que forasteiros não se metam. A dança requer  a soberba inigualável que eles ostentam. Como a inflexão, é preciso aprender desde pequeno. É preciso ter a voz rouca, amar El Libertador com devoção e ser capaz de ouvir, compungido, um tango, para conduzir adequadamente aquelas damas.

Se ser brasileiro requer aptidão para a galhofa e irreverência, ser porteño requer solenidade e arrogância.

Eles se abraçam de igual para igual, eventualmente as mãos delas ficam na mesma altura que as deles. Há um que de tourada. Olhos fechados, respiração próxima. É difícil ser um homem quando a dança é um tango.  A ele cabe o cálculo do espaço por onde conduzirá seu par. A ele cabem as decisões. Através da dor na voz do cantor, ele conduz a mulher em seus braços. Seu movimento é contido, e a um desavisado parece descompassado em relação ao ritmo. Seus passos são feitos de pausas.  Ele avança para ela. A mão é leve, porém segura. A tensão é tangível. Olhe para os pés daqueles homens: um que vai, decidido, e outro que vem, a seguir, milonguero, lento, insubmisso, até unir-se ao primeiro. Poucas vezes se vê tanta empáfia quanto a que destilam os pés de um dançarino de tango.

Mas é também difícil ser a mulher, porque na evolução daqueles passos, sempre há um pé deixado em seu caminho, como um desafio. Tem um que de tourada, o tango. O desafio delas está em, entregues porém soberanas, transpor o pé, e até a perna inteira de seu par. Aos meus olhos, aquela dança, em termos de movimento, é a expressão da maneira como o homem se faz obstáculo e o modo como ela lida com ele. E tão mais gracioso e engenhoso seja este modo, mais bonito será o resultado. Tem um que de tourada, o tango.

Silêncio e espaço. Solenes, os casais rodam, como num carrossel. Esta roda tem uma etiqueta. Como o estatuto de nossas gafieiras. Em média a cada quatro tangos, a música muda abruptamente. É o ensejo para que, sem constrangimento, os dançarinos mudem, sem quiserem, de par. Entre um tango e outro há um intervalo de cerca de meio minuto, e nele os pares podem entabular uma conversa, armar uma paquera, sempre respeitosa. A música recomeça, então se tocam, e sentem o ritmo, antes de decidir os primeiros passos. É bonita, a roda de tango numa jovem milonga porteña.

Vou embora. Para os nômades, sempre é chegada a hora de ir embora. Mas vou tranqüila. Mesmo preocupada com o que encontrarei da próxima vez. Mesmo triste pelos quarenta e cinco centavos de real que valem um peso argentino, hoje. Mesmo que o Peixe Urbano pareça ter acabado com a cidade, que se voltou inteira para captar os reais que jorram aos borbotões, gerando uma oferta de comida já não tão ciosa de sua qualidade, visando às brasileiras fúteis que correm atrás de bolsas Louis Vuitton e cosméticos. Gente que pede bife de chorizo bem-passado. Turismo chinfrim e careta de shows de tango, Puerto Madero e Caminito. Constrangedor. Mesmo que a dureza de um cotidiano de crise esteja nitidamente tolhendo a efervescência cultural daquele povo bonito e criativo. Vou tranqüila.

Enquanto houver Milongas, vou tranqüila.

Onde houver o carrossel de casais, e sapatos cansados sob as cadeiras, ali estará Buenos Aires, que trago comigo sempre. E onde houver Buenos Aires, estarei comovida. E, dada a idade dos convivas, parece que haverá por muito tempo ainda.

Ao fim, todos já dançaram com todas, e voltam, se desejam, aos pares que mais lhes agradaram, livres, vigorosos.

Como devia ser também na vida.

 

p.s: se você acha que este post não tratou de sexo, sugiro uma ida à boate de striptease mais próxima, ali, certamente a prática será suficientemente explícita.

 

 


certas coisas não se sentem só com o coração

 

você é minha cadeia enjaulado fico preso no seu

 

C

O

R

P     Pra que fugir? Me entregar é a única saída

O     O  meu    c o r a ç ã o    o  meu   c o r a ç ã o

 

preso nessa sela abre as  PERNAS  da sua  paixão

 

Sou resto de uma idéia

de  uma  nova rebeldia

o  povo dessa  selva  se

balança  de  alegria  ve

jo  a tristeza de enchar

car    de   euforia  ! ! ! ! 

 

Bamba balança balança suas rédeas
querem o meu leite o suor das minhas tetas

 

Você me encontrou e fechou todas as portas bebe do meu leite do suor das minhas tetas.

 

(Enquanto feras estão soltas você me tortura a cada carência
                                                                                                  e a cada  violento
                                                                                                                 arranhão)
 
 

Se pensa que isso é paixão esqueça
Certas coisas não se sentem só no coração

 

Será que alguém entende o meu amor?

Você deve compreender o meu estranho jeito

De ser demente escravo do seu corpo

Ou também acha esse o meu maior defeito?

 

(A canção é dos Picassos Falsos. Foi lançada em 87 e, aos 12 anos, já me dava um certo frisson. Pouparei os amigos leitores da estética anos 80 do clipe original e postarei aqui esta outra versão, mais cool, do Toni Platão com a Zélia Duncan)

 

 


Hormônios & Canções

A verdade, meus amigos, doa a quem doer, é que Lulu Santos foi o meu tesão inaugural.

Falo da adolescência, porque se voltássemos à mais tenra infância eu ia ter que confessar minha fascinação balbuciante pelo rebolado do Sidney Magal e aí não havia reputação que desse conta.

Mas rapaz, era uma coisa séria.

Blasé demais para ser groupie, eu era, no mínimo, uma entusiasta. Com direito a presença cativa em shows, e a todos os álbuns –  parei a coleção no  Anticiclone Tropical, de 97, porque minha audição falou mais alto que minha lubrificação e daí tive que abrir mão, mas acho que de cada álbum posterior se pode pescar uma ou duas coisinhas bem audíveis.

É que o Lulu lá do início tinha uma energia muito legal, e aquele nariz que mexia com meus inexperientes instintos, noves fora, eu era gamada no cara.

Bom, acontece que no primeiro álbum,  Tempos Modernos, de 82, há uma canção bem pouco conhecida chamada Palestina. E nela, um clima, um acento, um balanço… o arranjo, o ritmo, a letra, e, sobretudo, com enorme ênfase, a voz dele nesta interpretação em particular, enfim, a música me inundava de uma sensação que eu não sabia definir, que me levantava as orelhas, crédula no perigo que ele anunciava, e me despertava um desejo insano de sair pela noite e beijar na boca… o popular fogo no rabo.

Recentemente, venho sentindo uma brisa e na brisa, sutil,  esta canção, lá do passado. E tornando a ouvi-la, senti enorme prazer e me regozijei da garota que eu era, porque entendi certinho. Meus olhos frios ainda se incendeiam lentamente. Mas hoje… ah…. hoje eu identifico com exatidão aquela sensação que me escapava. À qual me entrego com esmero.

É por isso que eu vou ali e volto já.

Enlouquecendo de desejo o inimigo
Ela se dá com tanta fúria que
Ele crê que tem nos braços a mulher de sua vida
Mas é a morte que ele abraça sem saber


O ceifador de gozos

Semi-consciência.

A sensação de qualquer coisa muito maleável a envolve-la. Um movimento anti-gravitacional resulta em onírica ondulação e seu corpo submerge. Concentra-se. Parece couro. Talvez preto. Ou amarelo-gema. Suas pernas estarão dobradas, esticadas, abertas? Cada olho pesa cerca de doze quilos, e lhe faltam boas razões para empreender o esforço de abri-los. Seria, porém, conveniente, saber o estado de suas pernas já que há outras pessoas no local e ela está com seu vestido evasè. E sabe disso porque a pala de crochê em sua cintura sempre permeia aquela ventilação. Definir o estado de suas pernas se torna vital para saber quanto respeito ainda lhe resta, especialmente porque não consegue se lembrar se a calcinha é minimamente apresentavel. Decide que tem uma perna dobrada e outra esticada e que o braço direito lhe escorre pelo puff.

O estômago está um tanto agressivo. Ressente-se do absinto, talvez.

Gostaria de estar dançando. A canção, como um alívio, lhe preenche o raciocínio. Tom’s Dinner. Tchutchutchúru tchutchutchúru tchutchutchuru tchutchutchuru. Percebe que há pessoas fazendo isso, em silêncio. Quantas serão? Quem seriam? Não consegue se lembrar quem pode ser o feliz proprietário daquele confortável puff roxo.

Tem sede. Haxixe sempre lhe dá muita sede.

Quando menina, após um domingo inteiro no Tivoli Park, já banhada e deitada para dormir, ela sentia o corpo caindo em queda livre. Resultado de tanto tempo com os pés fora do chão, submetida a trancos, luppings e velocidades. E assim se sente agora. Afundando naquele couro que há de ser verde oliva. E isso é bom.

Abre discretamente os olhos. Escuro. Em frente a uma estante onde se destaca a luz azul do display do Cd player, umas seis ou sete pessoas dançam sinuosamente. Parecem bonitas. Uma calopsita parece tocar maracas em uma gaiola cromada. Há outra luz azul em algum lugar incidindo sobre a sala. É tudo muito bonito. E difícil de olhar. Há ainda coisas a descobrir em seu interior. Por exemplo, ela sente com perfeição o local onde está pousado o elástico do lado esquerdo de sua calcinha, seja ela qual for, e não é cômodo, ele belisca o grande lábio e repuxa discretamente seus pelos. Isso não é bom, mas parece tão difícil de resolver…

E imersa em tais conjecturas é surpreendida por uma mão que lhe ergue vagarosamente a nunca. A cabeça pende para trás e sente lábios em seu pescoço. Lábios que de certo canto daquela sala que paira sobre a lógica do mundo, deviam estar desejando-a muito, tal é sofreguidão com que lhe sugam a pele, bem na dobra do pescoço, segurando firme a nuca inerte. Toda a sua atenção acorre e concentra-se de naqueles lábios que chupam, lambem, e descem até seu colo, inteiramente descoberto, e ela sente vergonha de seu despudor.

Outra mão lhe toca o joelho. E o vestido evasè não lhe faz resistência, de modo que em minutos a mão acaricia livremente o interior de sua coxa. Ela tem vergonha. Sempre tem vergonha de suas pernas. Não gosta da celulite que herdou de circunstâncias nada alvissareiras. Um arroubo de desagradável consciência lhe invade e ela tenta fechar as pernas, mas encontra a resistência decidida de duas mãos a mante-las abertas. E finalmente compreende que deve estar sendo atacada por um polvo. Conta três mãos em seu corpo e, se sua conta estiver correta, em breve haverá surpresas.

De quem será aquele puff fúcsia?

O polvo tem também duas bocas, e uma delas parece não dar a mínima para as suas celulites, já que aplica o mesmo tratamento de ventosas um palmo acima de seu joelho dobrado, que tudo indica ser o esquerdo. E então ela surge. A mão que falta. Ei-la a afastar o débil decote até que uma língua lhe toca, fugidia, o mamilo direito. E um choque de pudicícia e tesão lhe fazem abrir os olhos, o que adianta muito pouco, já que sua cabeça é mantida tombada para trás, o que lhe agrava a tonteira e torna a situação inelutável. Em especial porque as pessoas ao redor parecem nada notar enquanto dançam conforme a música.

Ademais ela está úmida e lânguida, sente aquela característica pressão na entrada da vulva, de modo que tudo parece muito certo.

Ainda mais agora que a mão de baixo lhe faz o gentil obséquio de, tirando-lhe a calcinha, libertar seu grande lábio comprimido e repuxado, pelo que ela suspira, agradecida.

As mãos de baixo são mais ásperas e têm como que uma calosidade que arranha um pouco, mas são igualmente pragmáticas e abrem suas pernas o suficiente para encaixar entre elas um corpo inteiro. Aquele é um polvo capaz de sentar-se. Ele levanta o vestido evasè acima de sua cintura e definitivamente ela está com vergonha, todas as suas gordurinhas meticulosamente guardadas e contidas a cada respiração estão expostas, não percebe?? Sim, vê, e parece gostar, o que mostra que o mundo conspira para nos deixar confusos, razão porque um pouco de haxixe com absinto são ocasionalmente muito benvindos.

Pelo que parecem horas, tem a virilha explorada, cheirada, lambida, acariciada. Os lábios são abertos com uma sensação untuosa. Uma ponta de dedo úmido lhe pressiona o clítóris e passeia de cima para baixo.

A mão que se ocupa da nuca parece querer que ela se vire de lado, a boca beija suas costas enquanto outra mão ainda segura firmemente seu seio, beliscando o mamilo um tanto mais do que o necessário. E a dor lhe lembra de emitir um gemido que é a deixa para que a coisa tome ares descontrolados.

De algum modo, para o qual certamente concorreu sua boa vontade, ela está virada de bruços sobre o puff. Da cintura para cima seu corpo pende para baixo, a cabeça de lado, com aquela grande mão firme em sua nuca. Seus quadris, inteiramente desnudos, suspensos no ar, e os joelhos, afastados, mal tocam o chão. Ela escorre. Pulsa.

Uma das mãos se esgueira por entre o puff e o corpo, erguendo-lhe o abdome com facilidade e ela pensa que aquele deve ser um polvo gigante. Uma outra mão se apóia em sua lombar de modo a que ela seja agora, para todos os efeitos, um quadril empinado, exposto, desejoso, desejável. E duas outras mãos lhe seguram, suadas e firmes, as ancas.

Nada acontece por minutos e ela está como os fios tensos da pauta de metal, onde as andorinhas gritam por falta de uma clave de sol.

As mãos mantém seus quadris imóveis – como se ela pretendesse ir a algum lugar… – e lhe abrem como a uma flor, e ela pode sentir os olhos. E então a língua. A outra mão se afunda ainda mais em sua lombar e finalmente uma voz, grossa, gutural:

– Chupa. Extrai a alma dela. Chupa até ela se abrir para quem quiser entrar.

E a língua, obediente, entra-se-lhe pelo cu e por entranhas insuspeitadas e de novo ela estava em algum brinquedo desses que giram muito forte, e nossos órgãos não podem acompanhar de modo que uma incongruência se estabelece em sua existência posto que criam-se dimensões inéditas já que a consciência, a sensação corporal e o corpo, de fato, parecem ocupar diferentes lugares no espaço, mas todos eles são invadidos por uma língua despudorada, que não conhece nenhum senso entre os vários que lhe poderiam impedir aquele ato e daí que ela está inteira lambuzada, incluindo o id, o ego, e desconfia-se que um pedaço de sua massa encefálica também. E por causa disso é inevitável que se lhe remexam os quadris e isso não teria fim se a voz de novo, não esclarecesse, traindo um tremor:

-Sai, eu preciso. Agora.

E por segundos que teriam sido fundamentais se ela pretendesse uma fuga, seu corpo ficou livre de mãos e línguas, e como não houvesse nenhuma menção ou movimento de sua parte, aquelas mãos, as autoritárias, as maléficas, lhe seguraram a cintura para que um pau rígido e de pouca conversa lhe invadisse a buceta sem se importar muito com o mais. E ela gritou. Porque não era possível uma coisa tão gostosa. Porque não era certo. Porque ainda podia ver que pessoas dançavam, alheias, porque ouvia a voz do Morrisey e isso tornava tudo mais surreal.

Mas o pau não parava. E suas pernas abandonaram o último resquício de tensão e seu corpo sacudia-se, frenético, contra aquele outro corpo que se chovaca violentamente contra o dela, a ponto de causar-lhe dor no colo do útero, uma dor de onde nascia uma sensação crescente de gozo.

Outra mão, delicada mas ansiosa, levantou seu queixo, e uma língua, aquela, segura e desavergonhada, lhe beijou a boca e ela se agarrou àquele beijo como se ele desse algum sentido ao que estava acontecendo e foi um beijo nervoso, interrompido e subsituído por um pau. Que não era grande mas cheirava a macho e possuía a espessura exata para lhe emprestar algum consolo, e ela pos-se a chupa-lo em agradecimento por ele estar ali, e ela não estar sozinha. Seus cabelos eram puxados para trás, para receber aquele homem que teve a gentileza de lhe dar seu pau e ela o chupava no mesmo crescente lento e certo com que sentia o gozo chegar. E chegaria, não houvesse então sentido o pau que lhe comia bombeando, e ouvido os gemidos que ele tentava conter. E ele tirou dela, impiedoso, e num protesto desolado ela parou de chupar e sentiu toda a solidão do mundo.

E eles puseram-se a rir. Demônios. Riram, e lhe beijaram. Vários beijinhos ternos e estalados pelo corpo. Como uma hidromassagem, e aquele a quem ela chupava declarou que teria o seu quinhão. E teve. E enquanto ele metia seu pau não tão grande, mas espesso, ergonômico, acupando cada espaço da sua buceta, criando um vácuo no seu ir e vir calmo e uniforme, os beijos continuaram pelas costas, nuca, testa, e a voz mais doce do mundo lhe disse:

– Olha pra mim.

E ela olhou.

E eram olhos escuros e lúcidos, como os olhos de um bandido. E a cada vez que ela era impulsionada para frente, por aquele pau diligente que a comia, ele fazia que sim, com a cabeça, olhando-a firme. E com aponta da língua provocou seus lábios, e ajoelhado, lhe deu seus mamilos a beijar e em seu ouvido, sussurrou:

– É ele quem está te comendo, mas o seu gozo é pra mim. Quero os seus olhos abertos, quero nuvens neles. Quero um beijo desesperado, quero tremor e lágrimas. Pra mim. Porque fui eu que te tomei. E você se entregou. Pra mim. Entendeu?

Si, si! Como no??

Como resistir a um homem que sabia que ela, mulher, era, naturalmente, dele?

E olhando naqueles olhos, e beijada por aquele homem, gozou um gozo de mil eras. Um gozo de valsa de Strauss. Um gozo em ondas. O corpo em espasmos. Os olhos nele, para ele. E o gozo era dele, também.

Enquanto as pessoas dançavam ao som de Sad Songs and Waltzes.

E então, inerte, palpitante, ela foi delicadamente limpa por algo úmido e agradável. Recomposta. Um sono necessário, curto, adveio e por todo ele foi velada. E depois levada para o local seguro de onde, no início daquela noite, havia partido para aquela festa num apartamento em Santa Teresa dentro do qual havia um puff mostarda.

Foi despida e acomodada em uma cama familiar. Ganhou um beijo suave. Porque aquele era um Homem.

Quando acordou, lhe doíam o corpo, a nuca, as pernas, a buceta, a virilha, a cabeça.

Manchas. Fluidos.

E de tudo, a sensação mais vívida era a daquele último beijo.

E seu corpo inteiro pedia por mais.


rural

Entre os poucos inconvenientes de uma vida campestre, figura um que já foi antes abordado:

as liberdades que os bichos tomam

Como o Discovery Channel já demonstrou, não há nada de bucólico na natureza. É cada um por si. A rapaziada além de levemente cruel é de uma promiscuidade impressionante. O bicho pega. Literalmente.

Preocupada com o efeito de toda aquela agitação ao meu redor – das mariposas às preguiças, passando pelos cavalos dos pastos alheios, que esperam a minha passagem para cobrirem suas fêmeas – socorri-me do Houaiss para conferir a abrangência do vocábulo “Zoofilia”.

E foi tranqüilizada por ver que a apreciação da arte não me inclui no ofício (já chega de pecados!), que dei-me ao desfrute de vir aqui mencionar o assunto.

Em verdade não é por nada disso que escrevo, senão porque dia desses vítima da têmpera sacana destes bichos despudorados, me veio à mente uma canção. Seria ela uma “Fuck Music”?

Segundo parâmetros de minha lavra e por mim mesma instituídos, uma fuck music se caracterizaria conforme sua inclusão em rígidos critérios tais como se os lê lá na segunda postagem deste blog, a saber: uma ambiência sexual, um ensejo.

De fato não é o caso.

Mas que tem borogodó, tem.

    Arreio de Prata

    (Alceu Valença)

    O meu cavalo dos arreios prateados
    E a namorada, muito amada, agarrada na garupa
    Me protegendo dos malefícios da vida
    E agarrada, muito amada, na garupa do cavalo

    Iê, iê… arreio de prata, uou, uou eu todo prateado
    Muita boiada, muita cerca colocada
    E as meninas proibidas de fazer amor mais cedo
    E o meu cavalo e a sua égua malhada
    Fazendo amor no terreiro da morada das meninas

    E relinchavam, pois gozavam liberdade
    E as meninas não podiam nem gozar da vaidade
    E as meninas até sonhavam com a cidade
    E com os rapazes que por ventura encontrassem
    E olhavam tanto para o meu cavalo |
    se imaginavam éguas e eu todo prateado
    e olhavam tanto tanto para meu cavalo se imaginavam éguas e eu todo prateado.


Eu olho sorrindo, lindo…

Fuck, fuck, fuuuuuck music!

Primeiro, o Lobão é falastrão. O Lobão às vezes é chato. Mas ai, coisa bem boa, se todo o chato o fosse assim, como o Lobão.

Segundo, o Lobão é um tesão, a voz do Lobão é um tesão, a esquisitice do Lobão é um tesão, a altura do Lobão é um tesão, a gengiva do Lobão é um tesão, a mão do Lobão é um tesão, o cabelo do Lobão é um tesão e eu dava fááácil pro Lobão. Desde gata garota…

Aliás, muitas vezes ouvia essa canção e ficava me perguntando qual parte do “eu estou te convidando, menina quer brincar de amar”, o marmanjo não estava entendendo. Será que o ronronar devia ser assim uma coisa mais literal?

Às favas com os marmanjos. Beócios. Bernard Shaw já dizia que a juventude é uma coisa boa demais para ser desperdiçada com jovens.


Baby can’t be blessed

Então rapaz! Essa noite eu tive um sonho! (Eu o Martin Lutherking temos esse hábito)

Não era propriamente um sonho erótico, mas tinha muita sedução envolvida, ainda que acabasse não dando em nada. Aquela coisa de sonho sabe? que fica num bla bla bla a vida toda.

Mas o importante é que meu sonho tinha uma trilha sonora. Tocava, repetidamente Just like a woman, do Dylan. Mas não com o Dylan, com a Charlotte Gainsbourg. O mais curioso, e prova dessa doideira que são os sonhos é que eu nem mesmo sabia que ela tinha gravado essa canção, embora agora, pensando no assunto, pareça tão obvio que gravasse!

Acordei e estava lá, no youtube, que tudo sabe e tudo vê, a moça sussurrando that she aches like a woman… eu obviamente devo tê-la ouvido em algum momento sem prestar muita atenção e veio à tona no sonho.

E tudo isso me lembrou de um tempo atrás, quando eu tinha precisamente 23 anos e ficava andando por aí cantarolando essa música baixinho e me sentindo o maior mulherão das paradas. Ainda que breaking just like a little girl

A voz que ia na minha cabeça, porém, era a do Dylan, que eu havia descoberto há pouco, e me tomado de amores, após um show que ele fez com o Clapton na Apoteose, ao qual meu irmão me levou sob o pretexto de que cabe aos irmãos a formação musical das irmãs e no meu caso isto foi bem verdade. Para o bem e para o mal… por exemplo, é culpa dele eu gostar de Replicantes, Garoto Podres e Ratos do Porão, mas isso é outra história.

Enfim, para mim essa é uma fuck music também, o caso é escolher qual das duas versões figurará aqui, e, como era de se esperar em se tratando de uma pessoa obsessiva, porei as duas, a primeira para ser fiel ao sonho, a segunda para ser fiel a mim…

Infelizmente não achei nenhum vídeo real com o Zimmerman ou a Charlote cantando, e pra priorar o dele ainda tem um anúncio do Tropa de Elite no inicio (como assim???) mas dá pra pular… o que vale é a canção, a linda canção…

Enjoy!


Let’s do it!

Essa não é uma fuck music. É uma Cole Porter’s song, uma categoria à parte nas canções do mundo.

Só um cara tão travado quanto maravilhoso poderia fazer uma música tão insinuante, cuja interpretação requer um tom maroto para conferir à letra o significado que ela tem, e ainda assim, a canção como harmonia, embora magnífica, não é propriamente sensual. Se alguém discordar, por favor, me conte.

É como se ele mordesse e assoprasse.

Mas aí, eu estava procurando um vídeo pra postar aqui, com a música em questão e encontrei uma interpretação da Kim Bassinger no filme “Uma loira em minha vida (The Marrying man, Jerry Rees, 1991), e talvez possamos considerar que ‘Let’s do it’ seja uma fuck music no sentido de que ela é um convite… bom, ao menos se cantada pela Kim Bassinger…

Mas eu, particularmente ainda prefiro com Ella, e é por fidelidade que posto também essa versão.

Let’s Do It
Cole Porter

When the little bluebird
Who has never said a word
Starts to sing Spring
When the little bluebell
At the bottom of the dell
Starts to ring Ding dong Ding dong
When the little blue clerk
In the middle of his work
Starts a tune to the moon up above
It is nature that is all
Simply telling us to fall in love

And that’s why birds do it, bees do it
Even educated fleas do it
Let’s do it, let’s fall in love
Cold Cape Cod clams, ‘gainst their wish, do it
Even lazy jellyfish do it
Let’s do it, let’s fall in love
I’ve heard that lizards and frogs do it
Layin’ on a rock
They say that roosters do it
With a doodle and cock
Some Argentines, without means do it
I hear even Boston beans do it
Let’s do it, let’s fall in love
When the little bluebird
Who has never said a word
starts to sing Spring spring spring
When the little bluebell
At the bottom of the dell
Starts to ring Ding ding ding
When the little blue clerk
In the middle of his work
Starts a tune
The most refined lady bugs do it
When a gentleman calls
Moths in your rugs they do it
What’s the use of moth balls
The chimpanzees in the zoos do it,
Some courageous kangaroos do it
Let’s do it, let’s fall in love
I’m sure sometimes on the sly you do it
Maybe even you and I might do it
Let’s do it, let’s fall in love

Ah, sim! Para o caso de você ter reconhecido, o Chico fez uma versão que ele canta com a Elza Soares que é bem legal, um primor de adaptação e com um videoclipe muito bacana, mas igualmente desprovida de sex appeal, o que não é um defeito, apenas uma constatação de que, salvo pela boca da Kim, Let’s do it não é uma fuck music…

Let’s do it… let’s fall in love…