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Descarrêgo

Hoje fui acometida por uma cólica renal.

Como soe acontecer às pessoas que adoecem, em especial se isso acontece nas casas de suas mães, estive o dia a assistir televisão.

Aberta.

Há na Rede Globo uns flashes com pequenos depoimentos de pessoas de várias religiões – porque é chique, hoje, almejar-se um ecumenismo – aos quais a emissora chama: Sagrado.

Pois foi numa dessas inserções que ouvi uma senhora, que ali representava a Umbanda, explicar, muy didaticamente que aquela religião considera o sexo uma força da natureza, não tendo quanto a ele quaisquer restrições. Fez apenas uma ressalva: que mais de um parceiro era promiscuidade e que a pessoa que fosse promíscua faria acompanhar-se por espíritos obsessores.

Neste momento, não sei se foi a corrente de ar entrando pela fresta aberta da janela neste gélido inverno carioca, ou se foi um aviso do cosmos, percorreu-me a espinha um leve calafrio e uma pontada no rim esquerdo.

À noite, assistíamos a novela – como se sabe, sou noveleira – e minha mãe, muito indignada com as circunstâncias poligâmicas de um determinado núcleo do folhetim, advertiu: veja você o que a Globo estimula agora! Isto porque aqui em casa – se é pra falar de novela –  a Globo é uma espécie de Rita do mundo, e a ela cabem metade das culpas da galáxia, o que de modo algum faz com que se deixe de assisti-la. A título de curiosidade, a outra metade das culpas, cabe, naturalmente, ao meu pai. Ato contínuo, completou, minha amada genitora: se essa moda pega, daqui a pouco não haverá espírito obsessor que dê conta de tanta gente.

E da mesma janela veio a brisa incômoda.

Saí para comprar sal grosso.

E camisinhas.


Moto contínuo

Dá pra mim?

Dá, vem…

Dá?

Deixa eu te comer?

Deixa…

Dá pra mim?

Dá?

Agora eu vou te comer.

Abre pra mim.

Dá.


Pronomes

Hoje eu vi a tua mulher.

Cheguei esbaforida para ver nossos filhos que, juntos, no palco escolar, entoavam a canção de uma parada cívica qualquer, ou enalteciam um coelhinho qualquer, ou talvez versassem sobre a beleza de ser mãe. Não me lembro de que é dia hoje. Haverá feriado? É dia de santo? Conseguiremos nos ver?

Eu olhava o sorriso dela, e sua porra ainda ardia em minha boca.

Quem é a tua mulher?

A quem você marca com ferro em brasa, em manhãs de calmo desespero?


Vox Populi

Por uma eternidade, tive um namorado.
Rapaz de boa família, visual alternativo, estudante de letras, alto, gordinho, barbinha sempre por fazer, uns olhos lindos. Tocava violão clássico. Delícia.
Apresentou-me The doors e Echo and the Bunnyman.
Juntos poderíamos cantar em dueto toda a obra do Chico Buarque, e ele tinha o talento notável de decorar as letras mais impossíveis como Corrente e O que será. Cantava até O quereres, coisa de que, desconfio, nem Caetano é capaz.
Tinha adoração pelo Theatro Municipal do Rio de Janeiro.
Não gostava de praia e nem de multidões.
Adorava escritores rusos e falava francês.
Grande figura.

Reza a lenda que de vez em quando trafega por aqui.

Seis anos, e uma de nossas melhores trepadas foi dias antes de terminarmos.
Corria o ano da graça de 1999 e o sucesso pegajoso do momento era o dodecassílabo “Pimpolho”, com o Art Popular Ensemble.
Estavámos sozinhos no ateliê da mãe dele, do qual roubamos a chave, e ali não havia nada senão um rádio.
Eu havia fumado um. Coisa que não era meu hábito. Pra resumir: chapacrazy.
E o rádio mandou o “Pimpolho”. Maluco, a pessoa perdeu a linha.
Nem em churrasco na laje se viu uma criatura sacudir tanto ao som de um pagode.
E ele, com suas poucas palavras e gestos contidos, sentado, olhava meio ávido aquela cena que, convenhamos, não fosse o nível de THC, devia estar bizarra.
A música acabou, e eu estava à beira de um ataque asmático quando ele levantou, com uma cara de maníaco do parque nunca dantes vista, me jogou no chão e me comeu como se pretendesse cometer um assassinato com o próprio pau.

Juro que esse relato tem tudo a ver com uma caraminhola que pretendo desenvolver em breve. Por ora, porém, apenas guardem esta história para posterior avaliação, à luz de meu raciocínio indefectível.

Por hoje, após os acontecimentos da noite, apenas uma questão ecoa:

Senhores, FAZ SENTIDO????