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Rain Man

 

Não há sofrimento que resista a um amigo gay.

Você está lá, compungida na sua dor de milênios, sofrendo, se descabelando. Para até de escrever, pra poder sofrer com mais propriedade.

Mas aí, chega o seu amigo gay. Chega no meio da noite, sorrateiro e saltitante como lhe é característico, e ainda da porta, declara:

 

– Hoje eu comi um autista!!!!

 

Aí eu pergunto: dá pra fazer a dilacerada?

 

p.s: ele, aqui ao lado, às gargalhadas, implora ao gentil leitor que não o denuncie à Pestalozzi.

 


Tutu-marambá

Ai, como essa moça é distraída
Sabe lá se está vestida
Ou se dorme transparente
Ela sabe muito bem que quando adormece
Está roubando
O sono de outra gente

A noiva da cidade, Chico Buarque

 

Dizia num  post anterior que sou uma pessoa que gosta de estar enrolada num paninho. Isso também é verdade para a hora de dormir.

Mas daí eu sei a origem da nóia.

Para horror de minha pobre mãe, saí desgarrada. Dessas criaturas ignóbeis que nascem nômades e têm o impulso de assentir a qualquer dedinho que lhes convide rumo ao deconhecido.

Mamãe, senhora honesta e sensata, nunca consentia com minhas súplicas de ir pernoitar na casa da fulaninha, da sicraninha.

Dizia-me sempre que eu não tinha modos. E admoestava-me. Se eu um dia fosse capaz de dormir e acordar coberta e não com o bumbum arreganhado para a nação – bem, ela nunca usou essas palavras até porque não creio que mamãe tenha jamais empregado o vocábulo “arreganhar” – ela então poderia pensar em permitir que eu dormisse em qualquer lugar que não fosse o meu quarto sob suas vistas zelosas.

Obviamente aprendi a dormir imóvel em tempo recorde. Não me valeu, uma vez que mamãe trapaceou e só me concedia dormir na casa de Camila, amiga pudica e de poucos irmãos.

Em todo o caso eu ficava imaginando qual seria a grande relevância imprópria de me descobrir durante a noite.

Certo dia, foram tantas as indagações, e foram tantos os pedidos, tão sinceros, tão sentidos , que ela dominou seu asco, e explicou, contrita, que se preocupava com a possibilidade dos pais de minhas amiguinhas me fazerem mal.

Mente piranha mirim ociosa, oficina do diabo.

Eu não parava de imaginar o mal a que estava exposta, e como isso poderia acontecer. Imaginava-me dormindo plácida e inocente em meu austero colchonete ao lado da cama de minha doce anfitriã, quando subitamente, mãos arredias me alisavam durante a noite, dado que eu não podia parar coberta, num convite a todo o tipo de mal feitor que por ventura habitasse a casa de minhas amigas.

Evidentemente hoje eu tenho ciência do quão plausível era a preocupação de minha mãe, especialmente se levarmos em conta que eu sempre fui imensa e aos 13 anos, aparentava uns 17. E sei também do quão terrível teria sido a realidade se os piores pesadelos dela tivessem se tornado realidade.

No entanto, isso aqui não é o programa da Oprah Winfrey e eu tenho toda a liberdade para dizer, em meu próprio blog, que meu desgarramento natural se acirrou muito mais quando eu comecei a vislumbrar as possibilidades que a situação oferecia. Imaginava desde os passos no corredor, a porta se abrindo com suavidade, no silêncio. Neste momento eu naturalmente arrebitaria o bumbum, e então as tais mãos indômitas me tocariam, sinuosas e leves. Eu, fingindo dormir, mudaria ligeiramente de posição de modo a dar mais acesso a elas, que não parariam nunca, jamais,  de me percorrer e explicar, de uma vez por todas o que é que era tão proibido sentir.

E assim se criam as perversões sexuais. Ou pelo menos algumas preferências. Sexo durante o “sono” certamente se tornou uma.

E taí também a causa primeira de eu acordar imediatamente sempre que por uma eventualidade a coberta, por menor e mais leve que seja, escorregue e me exponha as ancas. Porque você sai de dentro da sua mãe, é fato. Mas a sua mãe não sai de você.

Ai, ai….. ando tão confessional…

 


Posseiro

O terceiro me chegou como quem chega do nada

Ele não me trouxe nada, também nada perguntou

Não sei como ele se chama, mas entendo o que ele quer

Se deitou na minha cama, e me chama de mulher

Foi chegando sorrateiro e antes que eu dissesse não

Se instalou feito um posseiro, dentro do meu coração

Chico Buarque

Não era Paris e nem tocava um tango.

Subúrbio carioca, e para além da britadeira,  um funk e o jingle amador de um candidato a vereador que pedalava pela cidade com uma caixa de som, na esperança de angariar votos.

Os dias eram quentes e poeirentos e na falta de árvores para descabelar, a brisa também não se animava a dar os ares.

E era assim, inóspito, o amor deles. Se amor, fosse.

Da trincheira urbana, abaixo do asfalto, sob luvas e viseira, cercado por cavaletes, ele mirou o que havia sob a saia curta e rota. Quis.

Ela, envaidecida por despertar desejo em meio ao esgoto, cedeu.

Davam-se um ao outro na cama bolorenta de um motel nas cercanias da rodoviária, o tempo de esperar os trens esvaziarem. E para lá de Japeri havia suas existências tão áridas quanto os dias poeirentos do subúrbio carioca.

As mãos dele, trêmulas de penetrar o asfalto, só encontravam firmeza nos quadris dela.  Ela cheirava a sabão de côco. E ele jamais atinou que poderia dividir qualquer coisa com aquela mulher que devia se chamar Maria.  O único defeito que ele podia encontrar nela, era o nome.

Nunca trocaram palavra.

Acabou a obra.

Passou a comê-la por ideologia. Para resistir aos solavancos do trem e da britadeira. Para conseguir voltar aos esgotos, para conseguir olhar os filhos que jamais desejou. Passou a come-la por capricho. Passou a come-la para esperar a hora do trem.

Nunca soube por que razão ela vinha.

Não sabia que o gozo podia ser mútuo, e não teria feito diferença se tivesse notado que o gozo dela era o gozo dele desgovernado sobre ela. Sua pele de curtume.

Ela não precisava voltar, mas voltava sempre, não por nada. Apenas para ouvir, ao fim, a única coisa na vida que lhe trouxe pertencimento. Apenas para ouvir, já na saída, com a porra dele escorrendo entre suas pernas, que:

– Mulher minha eu quero bem comida.

 

 

 


Fértil

Trepavam daquele jeito frenético, que ela já conhecia. Era bonito de ver. Tentava não interferir. O sexo, como a arte, deve fluir.

Todavia, também como à arte, deve-se olhar,  e uma vez que se olhe, como não interferir?

As pernas lisas, morenas e macias entre as quais ele se movia, alavancado pelas próprias coxas – toras. Seus pelos, suas cores, a mistura que eles são. E de trás, mal se via o pau, que ela sabia tão bem o quão grosso estaria. Os  pés, delicados, rodando ritmadamente no ar. O quadril dele, glúteo, bunda, carne. Como não interferir? Como não correr dedos e língua por peles, mucosas e orifícios? Como não se orgulhar por ser parte do gozo? Sonoro, agudo.

Porém, enxarcada de beleza, fluidos e vontade, desejava. Ele, ela, e toda a sacanagem do mundo.

A outra, adivinhando o cio, tripudiou – pérfida. Esfregava-se nela e pintava sua coxa com a porra dele, que escorria, farta. No seu olhar, o desdém em conceder  a única porção que caberia a ela, e que já secava, efêmera, repuxando-lhe os pelos.

Ela, humilde, rogou: divide comigo? reparte comigo a porra do teu homem?

Veio. Sinuosa, quente, molhada, pulsante, e sentou-se sobre a boca sedenta e agradecida daquela mulher que olhava para o sexo, como quem vê um Cezanne.

E ele, coadjuvante, embevecido com a visão de si, assim, sorvido, compartilhado, pelas duas mulheres, tão suas, tão delas, esqueceu-se do gozo recém ejaculado e foi, uma vez mais, para dentro delas, para dentro dele, que ainda jorrava.


Assim na Terra, como no céu.

Certa feita fui à rua com o propósito de adquirir uma batedeira.
Voltei com uma luneta de longo alcance que se fazia acompanhar de muitas lentes e apetrechos, e requeria a obtenção de um mapa do céu.
Com ela, vi as luas de Urano, as Crateras Lunares, acenei para marcianos e concluí que Mercúrio parece assim, ao longe, um tanto inóspito.
Da minha casa, para onde quer que aponte minha luneta, só vejo árvores e galáxias.
Mas de que vale uma luneta à qual não é dado a ver o cotidiano de outrem?
Era preciso uma janela, de onde espiássemos um casal que come e brinda, dança e se estapeia, e se ama no chão, empregando objetos pouco usuais.
À falta de uma janela, fica lá, no canto da sala, aquela luneta em seu tripé, sempre macambúzia, fadada a ser menos do que é.
E como já se disse, a pessoa é para o que nasce. Regra que evidentemente aplica-se às lunetas que, como é sabido, nasceram para caçar ETs, procurar anéis em planetas longínquos, serem manejadas pelo James Stewart, e, sobretudo, para desvelar a vida dos que a creem secreta. O sexo dos que o fazem em silêncio e picardia.
Então, decidi levar minha luneta a passear. E juntas espiaremos fodas intergaláticas e os big bangs dos gozos do mundo.
Enquanto isso vejo estrelas, ato para o qual, felizmente, ainda posso prescindir dela.
Mas…….. watch out! Achtung! Sairei em expedição com minha luneta! E pode ser você em meu raio de visão.
Basta que alguns planetas se alinhem.


Malpighia Emarginata

O caso é que a coisa nunca é assim muito bem como se diz. Já não sendo, antes, o que se diz, muito condizente com o que sucedeu. E menos ainda o sucedido e dito logra ser compreendido tal como se deu. De maneira que por vezes, até a quem narrou o fato, cabe duvidar de sua acontecência.

E isto descreve com bem mais competência Suassuna, quando seu Chicó nos diz que “como é que foi, não sei… só sei que foi assim”.

E doutro modo – se nem ao menos disso soubéssemos (que foi assim!) – era caso de um niilismo tão flagrante que recomendava fortemente ao estimado leitor que desse cabo agora mesmo desta leitura inútil.

Isto pôsto, e contando com a compreensão do senhor, que há de levar em conta todas as relativizações antes mencionadas, considero que posso contar o causo.

Pois vá vendo que assim como há plantas que, em tocadas, dormem, aquelas há que, desfeiteadas, vingam-se. Pois creia, meu senhor, minha senhora.
Deste modo é o pé de acerola. Com aquele jeitão inofensivo fica ali, manso. Mas já era de se imaginar que um arbusto que dá frutos tantas vezes por ano, havia de querer qualquer coisa em troca. Nem que fosse trocejar com os incautos.

Eu, de meu lado, nunca simpatizei com a fruta. Acho que é muito caroço para pouco dulçor e sempre fiz pouco caso. Pois aquele pé, sabedor disso, aguardou a hora certa, como quem espera o bonde correto, para mostrar quem aqui é que é o azedo.

E o tal bonde deu de passar no fim de semana último.

Ocasião arrumada. Dúzia de 6 ou 7 amigos. Filharada e agregados da vizinhança. Como soe acontecer em fim de tarde chuvoso, num março até bem seco, faltou-nos a luz. Mas ninguém deu pelo caso, e a noite já ia alta, o pão de queijo, o lampião e a batida de côco bastando de sobejo. E não era só para mim que se lançavam uns olhares buliçosos. A quadrilha parecia armada.

E tudo teria transcorrido em calmo prosear não fosse a piazada que nos dias que correm, desaprendeu a brincar. Não lhes basta os companheiros nem o relento promissor. Sem seus laptops, wiis, play stations e afins, perdem o prumo. Se lhes falta a energia elétrica, ao invés de fugir dos adultos como do tinhoso, põem-se ao redor deles a indagar do que brincar, como brincar, e o pior, a pedir companhia para os folguedos.

Vendo que o caso era sério, concedemos uma partida de pique-esconde para fins demonstrativos.

Tenho por princípio não correr, atividade que sempre me pareceu um tanto eqüina (tanto quanto comer de pé, em balcão), então minha vantagem fica na astúcia em escolher bom econderijo. O que não era difícil, conhecendo o terreno e me valendo do escuro da noite sem luz e sem lua.

Encaminhei-me para os fundos do mato, onde mora o escuro do mundo e aonde criança alguma teria peito de estar.

Agachei-me, muito certa de minha superioridade, atrás de um pé de cacau. E pus-me a esperar.

Mas eis que um barulho anuncia a chegada de outro. Reverberando clara ainda a contagem do pobre guri que não havia saído a procurar, mantive a boca fechada e o corpo imóvel.

Um, dois, três e já! e lá veio ele, procurando aqui e acolá, longe léguas, até que insinua vir na direção do fundo do terreno. Foi quando aquele que chegou depois, se arrasta para o meu lado, tomando um susto ao notar minha presença. E mesmo mal discernindo seus olhos, percebi que era ele – oh destino inexorável – o dos olhos cobiçosos. O único a quem eu ainda não conhecia antes desta ocasião.

Um sinal cúmplice de silêncio e permanecemos de cócoras, quietos, observando as crianças que voltavam do meio do caminho, desencorajadas pelo breu.

E não se passou meio minuto até eu sentir uma mão em minha cintura e um pau bastante rijo comprimindo-se em mim. Um beijo molhado em meu pescoço. Um arrepio generalizado, um arfar.

Levo muito a sério essa coisa de sacanagem. E se é para fazer, que seja direito. Por isso puxei o moço pela mão para a moita mais próxima.

E qual era a moita mais próxima?
O pé de acerola, convidativo, reluzente mesmo no escuro, com suas frutas detestáveis, carregadinho, maléfico.
Quem já viu um diabo de um pé de acerola, de boa idade, em solo adequado, sabe que ele é feito para o pecado, baixo, frondoso, com uma copa que se fecha em torno do tronco, deixando um oco. Praticamente um motel silvestre. E como a hora não era para considerações botânicas, em minutos estávamos ali, protegidos por milhões de galhos, frutas insossas e suas folhas assassinas.

E tudo em que consegui pensar foi tirar a canga da cintura, estendê-la no chão onde o rapaz, esperto, sentou-se, esmagando dezenas de acerolas inúteis, já com a sunga afastada. A mim, restou afastar meu próprio biquini e iniciar os trabalhos. Mesmo eu não sendo baixa, mesmo ele sendo ainda maior que eu, mesmo sentada sobre ele, mesmo rebolando sobre ele, mesmo gemendo sobre ele, mesmo ele agarrando meu cabelo e meus quadris, mesmo assim, tenho certeza, se alguém olhou de fora, não viu uma folha movimentar-se.

É incrível como em situações de pressão, tudo o que se consegue pensar é: por que eu não posso ter esse pau por horas em uma ocasião normal? Por que logo com ESSE pau vai ter que ser assim??? Por que para cada cem trepadas mais ou menos tediosas rola uma assim em que tudo dentro de mim parece se contorcer e justo essa tem que ser à jato?

Mas àquela altura, não era possível que faltasse tanta gente a ser encontrada e nesse caso estaríamos somente os dois sumidos e depois de um dos gozos mais fantásticos do último milênio, nos arrastamos pra fora da moita, sem nem trocar telefones e fomos um para cada lado para bater o “comigo não tá!”.

Fui andando devagar, investigando o caminho, dando tempo para ele chegar antes e… comecei a me coçar. Muito. Alucinadamente.

Sabe quando você acha que está atingindo o lugar que crê que esteja originando a coceira, mas por mais que lacere sua própria pele, nada sacia o prurido e então a gente nota que o que está conçando é algo ali entre a alma e o perispírito? Pois é, foi isso. Pior que coçar dentro do gesso com a régua. Pior que coçar o ouvido enfiando um cotonete na garganta. Pior que morrer! Eu já não conseguia andar, curvada, me coçando, vermelha, desesperada, quando uma simpática criança me viu, correu para a pilastra e com três batidinhas anunciou aos berros: UM DOIS TRÊS JÁ TE VI FUCKING IDIOT MISTAKE GIRL!

E já sob a luz do lampião, contorcida em coceira, tentei localizar meu companheiro de moita, e, meus amigos, é como sempre digo: não há nada ruim o suficiente que não possa piorar. Avisto – horrorizada – o cujo, dentro da piscina, em movimentos toscos, que denunciavam uma crise epilética ou um ataque de urticária.

Como todos acompanharam o meu olhar, parei imediatamente de me coçar, e senti uma lágrima escorrendo, ou talvez fosse minha massa encefálica, depois de eu ter perfurado meu crânio, me coçando.

Tive a sensação de que o olhar da mulher dele penetrou minha alma, esbarrando inclusive com a folha de acerola no perispirito (que foi quando ela deve ter entendido tudo), e de mim olhava para ele, que subitamente pôs-se a nadar de um lado a outro passando minutos intermináveis sem nem tomar ar, o que arrancou de todos expressões de confusão e admiração!

Durante alguns minutos consegui me manter ereta, com um sorriso cândido e as mãos delicadamente pousadas na cintura, de onde pendia uma canga adornada por milhões de acerolas esmigalhadas. E tudo escorria de mim, sangue, suor, lágrimas, massa encefálica e certamente um pouco de xixi, também.

E talvez nada tivesse tido maiores consequências se uma daquelas crianças hodiernas não tivesse inquirido, com a maior boca sem dentes que eu já tive o desprazer de ver: TIA! O QUE É AQUILO NO SEU BRAÇO?!?!?! Apontando, com seu dedinho subdesenvolvido, roído, imundo, hipernutrido, torto e melequento, os sulcos que minhas próprias unhas haviam feito por todo o meu braço.

O desdobrar da história não cabe a este espaço, pois já vai longe a narrativa. E mesmo isso que conto, o faço somente no intuito de satisfazer a mórbida curiosidade do amável leitor.

Mas como toda a história deve ter uma moral, repito aqui aquela – de interesse público – com a qual já lhes havia advertido. E à moda de Mestre Sapo, ao fim d’A Festa do Céu, já esborrachado, volto a lhes avisar:

Trepar sob o pé de acerola, amiguinhos? Escutem bem: Está errado!!!

Quanto ao mais. Ok.


O ceifador de gozos

Semi-consciência.

A sensação de qualquer coisa muito maleável a envolve-la. Um movimento anti-gravitacional resulta em onírica ondulação e seu corpo submerge. Concentra-se. Parece couro. Talvez preto. Ou amarelo-gema. Suas pernas estarão dobradas, esticadas, abertas? Cada olho pesa cerca de doze quilos, e lhe faltam boas razões para empreender o esforço de abri-los. Seria, porém, conveniente, saber o estado de suas pernas já que há outras pessoas no local e ela está com seu vestido evasè. E sabe disso porque a pala de crochê em sua cintura sempre permeia aquela ventilação. Definir o estado de suas pernas se torna vital para saber quanto respeito ainda lhe resta, especialmente porque não consegue se lembrar se a calcinha é minimamente apresentavel. Decide que tem uma perna dobrada e outra esticada e que o braço direito lhe escorre pelo puff.

O estômago está um tanto agressivo. Ressente-se do absinto, talvez.

Gostaria de estar dançando. A canção, como um alívio, lhe preenche o raciocínio. Tom’s Dinner. Tchutchutchúru tchutchutchúru tchutchutchuru tchutchutchuru. Percebe que há pessoas fazendo isso, em silêncio. Quantas serão? Quem seriam? Não consegue se lembrar quem pode ser o feliz proprietário daquele confortável puff roxo.

Tem sede. Haxixe sempre lhe dá muita sede.

Quando menina, após um domingo inteiro no Tivoli Park, já banhada e deitada para dormir, ela sentia o corpo caindo em queda livre. Resultado de tanto tempo com os pés fora do chão, submetida a trancos, luppings e velocidades. E assim se sente agora. Afundando naquele couro que há de ser verde oliva. E isso é bom.

Abre discretamente os olhos. Escuro. Em frente a uma estante onde se destaca a luz azul do display do Cd player, umas seis ou sete pessoas dançam sinuosamente. Parecem bonitas. Uma calopsita parece tocar maracas em uma gaiola cromada. Há outra luz azul em algum lugar incidindo sobre a sala. É tudo muito bonito. E difícil de olhar. Há ainda coisas a descobrir em seu interior. Por exemplo, ela sente com perfeição o local onde está pousado o elástico do lado esquerdo de sua calcinha, seja ela qual for, e não é cômodo, ele belisca o grande lábio e repuxa discretamente seus pelos. Isso não é bom, mas parece tão difícil de resolver…

E imersa em tais conjecturas é surpreendida por uma mão que lhe ergue vagarosamente a nunca. A cabeça pende para trás e sente lábios em seu pescoço. Lábios que de certo canto daquela sala que paira sobre a lógica do mundo, deviam estar desejando-a muito, tal é sofreguidão com que lhe sugam a pele, bem na dobra do pescoço, segurando firme a nuca inerte. Toda a sua atenção acorre e concentra-se de naqueles lábios que chupam, lambem, e descem até seu colo, inteiramente descoberto, e ela sente vergonha de seu despudor.

Outra mão lhe toca o joelho. E o vestido evasè não lhe faz resistência, de modo que em minutos a mão acaricia livremente o interior de sua coxa. Ela tem vergonha. Sempre tem vergonha de suas pernas. Não gosta da celulite que herdou de circunstâncias nada alvissareiras. Um arroubo de desagradável consciência lhe invade e ela tenta fechar as pernas, mas encontra a resistência decidida de duas mãos a mante-las abertas. E finalmente compreende que deve estar sendo atacada por um polvo. Conta três mãos em seu corpo e, se sua conta estiver correta, em breve haverá surpresas.

De quem será aquele puff fúcsia?

O polvo tem também duas bocas, e uma delas parece não dar a mínima para as suas celulites, já que aplica o mesmo tratamento de ventosas um palmo acima de seu joelho dobrado, que tudo indica ser o esquerdo. E então ela surge. A mão que falta. Ei-la a afastar o débil decote até que uma língua lhe toca, fugidia, o mamilo direito. E um choque de pudicícia e tesão lhe fazem abrir os olhos, o que adianta muito pouco, já que sua cabeça é mantida tombada para trás, o que lhe agrava a tonteira e torna a situação inelutável. Em especial porque as pessoas ao redor parecem nada notar enquanto dançam conforme a música.

Ademais ela está úmida e lânguida, sente aquela característica pressão na entrada da vulva, de modo que tudo parece muito certo.

Ainda mais agora que a mão de baixo lhe faz o gentil obséquio de, tirando-lhe a calcinha, libertar seu grande lábio comprimido e repuxado, pelo que ela suspira, agradecida.

As mãos de baixo são mais ásperas e têm como que uma calosidade que arranha um pouco, mas são igualmente pragmáticas e abrem suas pernas o suficiente para encaixar entre elas um corpo inteiro. Aquele é um polvo capaz de sentar-se. Ele levanta o vestido evasè acima de sua cintura e definitivamente ela está com vergonha, todas as suas gordurinhas meticulosamente guardadas e contidas a cada respiração estão expostas, não percebe?? Sim, vê, e parece gostar, o que mostra que o mundo conspira para nos deixar confusos, razão porque um pouco de haxixe com absinto são ocasionalmente muito benvindos.

Pelo que parecem horas, tem a virilha explorada, cheirada, lambida, acariciada. Os lábios são abertos com uma sensação untuosa. Uma ponta de dedo úmido lhe pressiona o clítóris e passeia de cima para baixo.

A mão que se ocupa da nuca parece querer que ela se vire de lado, a boca beija suas costas enquanto outra mão ainda segura firmemente seu seio, beliscando o mamilo um tanto mais do que o necessário. E a dor lhe lembra de emitir um gemido que é a deixa para que a coisa tome ares descontrolados.

De algum modo, para o qual certamente concorreu sua boa vontade, ela está virada de bruços sobre o puff. Da cintura para cima seu corpo pende para baixo, a cabeça de lado, com aquela grande mão firme em sua nuca. Seus quadris, inteiramente desnudos, suspensos no ar, e os joelhos, afastados, mal tocam o chão. Ela escorre. Pulsa.

Uma das mãos se esgueira por entre o puff e o corpo, erguendo-lhe o abdome com facilidade e ela pensa que aquele deve ser um polvo gigante. Uma outra mão se apóia em sua lombar de modo a que ela seja agora, para todos os efeitos, um quadril empinado, exposto, desejoso, desejável. E duas outras mãos lhe seguram, suadas e firmes, as ancas.

Nada acontece por minutos e ela está como os fios tensos da pauta de metal, onde as andorinhas gritam por falta de uma clave de sol.

As mãos mantém seus quadris imóveis – como se ela pretendesse ir a algum lugar… – e lhe abrem como a uma flor, e ela pode sentir os olhos. E então a língua. A outra mão se afunda ainda mais em sua lombar e finalmente uma voz, grossa, gutural:

– Chupa. Extrai a alma dela. Chupa até ela se abrir para quem quiser entrar.

E a língua, obediente, entra-se-lhe pelo cu e por entranhas insuspeitadas e de novo ela estava em algum brinquedo desses que giram muito forte, e nossos órgãos não podem acompanhar de modo que uma incongruência se estabelece em sua existência posto que criam-se dimensões inéditas já que a consciência, a sensação corporal e o corpo, de fato, parecem ocupar diferentes lugares no espaço, mas todos eles são invadidos por uma língua despudorada, que não conhece nenhum senso entre os vários que lhe poderiam impedir aquele ato e daí que ela está inteira lambuzada, incluindo o id, o ego, e desconfia-se que um pedaço de sua massa encefálica também. E por causa disso é inevitável que se lhe remexam os quadris e isso não teria fim se a voz de novo, não esclarecesse, traindo um tremor:

-Sai, eu preciso. Agora.

E por segundos que teriam sido fundamentais se ela pretendesse uma fuga, seu corpo ficou livre de mãos e línguas, e como não houvesse nenhuma menção ou movimento de sua parte, aquelas mãos, as autoritárias, as maléficas, lhe seguraram a cintura para que um pau rígido e de pouca conversa lhe invadisse a buceta sem se importar muito com o mais. E ela gritou. Porque não era possível uma coisa tão gostosa. Porque não era certo. Porque ainda podia ver que pessoas dançavam, alheias, porque ouvia a voz do Morrisey e isso tornava tudo mais surreal.

Mas o pau não parava. E suas pernas abandonaram o último resquício de tensão e seu corpo sacudia-se, frenético, contra aquele outro corpo que se chovaca violentamente contra o dela, a ponto de causar-lhe dor no colo do útero, uma dor de onde nascia uma sensação crescente de gozo.

Outra mão, delicada mas ansiosa, levantou seu queixo, e uma língua, aquela, segura e desavergonhada, lhe beijou a boca e ela se agarrou àquele beijo como se ele desse algum sentido ao que estava acontecendo e foi um beijo nervoso, interrompido e subsituído por um pau. Que não era grande mas cheirava a macho e possuía a espessura exata para lhe emprestar algum consolo, e ela pos-se a chupa-lo em agradecimento por ele estar ali, e ela não estar sozinha. Seus cabelos eram puxados para trás, para receber aquele homem que teve a gentileza de lhe dar seu pau e ela o chupava no mesmo crescente lento e certo com que sentia o gozo chegar. E chegaria, não houvesse então sentido o pau que lhe comia bombeando, e ouvido os gemidos que ele tentava conter. E ele tirou dela, impiedoso, e num protesto desolado ela parou de chupar e sentiu toda a solidão do mundo.

E eles puseram-se a rir. Demônios. Riram, e lhe beijaram. Vários beijinhos ternos e estalados pelo corpo. Como uma hidromassagem, e aquele a quem ela chupava declarou que teria o seu quinhão. E teve. E enquanto ele metia seu pau não tão grande, mas espesso, ergonômico, acupando cada espaço da sua buceta, criando um vácuo no seu ir e vir calmo e uniforme, os beijos continuaram pelas costas, nuca, testa, e a voz mais doce do mundo lhe disse:

– Olha pra mim.

E ela olhou.

E eram olhos escuros e lúcidos, como os olhos de um bandido. E a cada vez que ela era impulsionada para frente, por aquele pau diligente que a comia, ele fazia que sim, com a cabeça, olhando-a firme. E com aponta da língua provocou seus lábios, e ajoelhado, lhe deu seus mamilos a beijar e em seu ouvido, sussurrou:

– É ele quem está te comendo, mas o seu gozo é pra mim. Quero os seus olhos abertos, quero nuvens neles. Quero um beijo desesperado, quero tremor e lágrimas. Pra mim. Porque fui eu que te tomei. E você se entregou. Pra mim. Entendeu?

Si, si! Como no??

Como resistir a um homem que sabia que ela, mulher, era, naturalmente, dele?

E olhando naqueles olhos, e beijada por aquele homem, gozou um gozo de mil eras. Um gozo de valsa de Strauss. Um gozo em ondas. O corpo em espasmos. Os olhos nele, para ele. E o gozo era dele, também.

Enquanto as pessoas dançavam ao som de Sad Songs and Waltzes.

E então, inerte, palpitante, ela foi delicadamente limpa por algo úmido e agradável. Recomposta. Um sono necessário, curto, adveio e por todo ele foi velada. E depois levada para o local seguro de onde, no início daquela noite, havia partido para aquela festa num apartamento em Santa Teresa dentro do qual havia um puff mostarda.

Foi despida e acomodada em uma cama familiar. Ganhou um beijo suave. Porque aquele era um Homem.

Quando acordou, lhe doíam o corpo, a nuca, as pernas, a buceta, a virilha, a cabeça.

Manchas. Fluidos.

E de tudo, a sensação mais vívida era a daquele último beijo.

E seu corpo inteiro pedia por mais.


كتاب ألف ليلة وليلة

Um amigo, em grande desespero de causa, vasectomizou-se.

Confidenciou-me hoje que encontra-se na difícil situação de ter que ejacular vinte e cinco vezes antes de saber, com segurança, que não mais disseminará a espécie.

Que não saiba o meu amigo, mas o caso rendeu-me tratos à bola.

São as minhas, as mais fraternais intenções: ajudar o valoroso amigo a livrar-se de toda aquela porra que ele carrega dentro de si.

Sendo o rapaz casado e pai extremoso, não seria apropriado colaborar empiricamente com as ditas ejaculações.

Imagino, contudo, que mal não faria se, neste tempo em que tempo não há, eu lhe contasse uma história que durasse não mil, mas umas tantas noites quantas necessárias fossem.

É de se objetar, porém, que a última a usar um tal ardil, no curso das travessuras das noites eternas, deu à luz três filhos do rei.

E isso seria contraproducente se mantivermos o objetivo inicial em mente.

Uma lástima. Histórias não me faltam.


Valhei-me Câmara Cascudo

Cai aqui uma chuva de que cântaros já não dão conta.

Uma chuva morna e barulhenta que dá umas vontades estranhas.

Traz histórias distantes, do Boitatá e da Mula-sem-cabeça.

Vontade de sair por aí e encontrar o Curupira. E fazer com ele um filhinho que daria por batismo à Mãe d’água e ao Negrinho do Pastoreio.

Sou muito solidária com este Negrinho.

Também a mim, mil formigas devoram.


Perdidos na Selva

Meu avô, que ouviu do pai dele, dizia sempre ao meu pai, que a mim, repete à miúde: “não fique à toa. Ande à toa. Você pode achar um dinheiro, um rumo…”

Filha obediente, com o fim de tirar do diabo a serventia de oficina em que anda convertida minha mente, depois de mais uma noite insone, saí pelo alvorecer à toa à mó di trocá uma energia com as árvores, uma parada super zen a nível de interação telúrica, enquanto ser humano muito terra que sou, manja? Altos prótons…

Íamos eu e o IPod, naquela sinergia, aquela descontração, trilha adentro, Jagger esguelando seus Wild Horses, e o mundo quase parecia bom e justo quando um movimento na beira do mato ressaltou meus aguçados instintos de Jane das selvas.

Pronta para me defender a golpes de gatorade da suçuarana com quem esperava ter de me haver, sentindo-me o Chuck Norris, dirigi meu olhar sagaz para a moita que se movera e eis que avisto um turista, desses bem brancos, de boné e óculos escuros e todo estragado por um sol que certamente não pegou aqui, nesse meu pé de serra úmido e mais esquecido pela primavera-verão que a féchion uíque de janeiro.

Era um desses gringos middleage, com uma cara aparvalhada, nitidamente indeciso se minha presença era ou não era caso de interromper a mal-disfarçada punheta.

Nos encaramos uns segundos por trás de nossas lentes escuras, e eu me dei conta da vulnerabilidade de minha posição o que me fez acelerar o passo, ao mesmo tempo que, encorajado pela minha fuga, o homem mudou de posição decidido a se exibir, mas felizmente meus olhos foram poupados, pois que já miravam, seguros, o tortuoso caminho de volta.

Agora você repare, meu amigo. Se um sujeito despenca lá das entranhas do Iowa (improvável, mas fica bem, no texto) para se masturbar às sete e meia da manhã na floresta atrás da minha casa nos grotões mais molhados do estado do Rio de Janeiro, como é que eu, euzinha, não vou encontrar o meu tesão?

Nem que seja para que haja justiça no mundo.

Acho que não era bem isso que meu bisavô, meu avô, e meu pai, tinham em mente, mas, por bizarro que tenha sido, sempre rompe a inércia…