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quem lhe daria o condão?

Coração independente,
Coração que não comando:
Vive perdido entre a gente,
Teimosamente sangrando,
Coração independente.

(Estranha forma de vida, Amália Rodrigues)

 

peço a meu corpo que não espere

como numa oração, peço a ele que não espere

uso dos mais baixos golpes de oratória

apelo à alma que interceda, e convença este corpo

– estranha forma de vida –

a não esperar

que a espera é feita de desolação

e rezo

minhas mãos juntas em contrição

rogo

a meus seios

que esqueçam do peso da tua mão

e  à minha língua apelo, com fervor eucarístico

que deixe de sentir tuas

texturas

pregas

gostos

os pelos e o cheiro acre das tuas axilas

que minha língua lagarta apreendeu

peço a este corpo que não comando

que não espere

que entenda, como você, que é inadequado

um corpo querer outro outro corpo

assim

inteiro

e mais

 

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Quero um amor que exista.

Um corpo que pulse.

Uma coisa de verdade, em meio ao banal, ao cerebral, ao boçal.

Quero ser. À margem do que de mim, concluam.

Que me sintam, apenas.

E me tenham.

Clara, Ana e quem mais chegar.

 

 

 


Godot

Toda a espera é em si, um gozo.

A espera pela festa de aniversário.

Pela viagem para Muriqui.

Pela prova para a qual se estudou.

Pela boca, cuja proximidade a tudo arrepia.

Pela broca do dentista.

Pela mala.

Por ele que está por entrar, em minutos, por aquela porta.

Pelo dia marcado.

Pelo sexo que se anuncia.

Pelo puxão da depiladora.

Pelo tapa.

Pelo tempo de não mais pensar.

Por eles que um dia vieram, e eu fui tão mais que eu.

Pela chuva, pelo sol, pela neve, pelo natal.

Pelas mãos.

Pela nota onde finda a introdução e começa o canto.

Pelo pau que se aproxima.

Pelo gozo.

Por eles, que agora vêm, e eu me desfaço em mim.

 

A espera é o arrepio da alma.

 


causal

 

porque eu tinha o que dizer, disse

porque  eu tinha esse amor, amei

porque quis, dei

porque dei, persisto

por que não passa? não sei

 

 

 

 


Que venha o fúcsia!

 

É preciso admitir: já tive sextas-feiras melhores.

Sexta de arrumar o ninho, ficar junto e dormir tranquila, sem ligar para o que havia além de minha janela com contact.

Sexta de olhar a praia, e esperar as coisas que a vida ia trazer. O luxo da ingenuidade.

De comer gorgonzola com pão, no frio da noite estrelada.

Já senti a deliciosa aflição do porvir. E veio. Foi tão bom.

Já parei no pôsto e tomei um energético. A noite prometia. E cumpriu.

Já acendi velas e luminárias e me vesti com cuidadoso desleixo, a esperar. E tive.

Já morri de rir, chapada e feliz, antes do show, comendo um galeto.

Já tive certeza de que aquele era um ponto alto na minha vida.

Já tive sextas-feiras piores, também.

Mas não essa. Essa não é ruim. Só é cáqui.

Sem perspectiva alguma. Sem cheiro, ou textura.

Amor retrancado.

Tesão, seguro em minhas mãos firmes, comandadas por uma razão que faz de mim, estranha.

Essa sexta-feira com gosto de limonada, como a que a Baronesa Schraeder toma com Herr Detweiler, n’A Noviça Rebelde. Uma limonada que não era boa nem ruim, só muito…. rosa.

Sempre detestei rosa.

 


Ensinamento

 

Enquanto me sacode toda a angustia do mundo, eles dormem.

Em algum lugar, abraçados, eles dormem.

Certos de seu amor, fundidos em carne e gozo, eles dormem.

Com seu carro vistoriado, e sem tocar no cheque especial, dormem.

A benção e o atrevimento de dormir.

Desacredito no azar da minha sina

Tico tico de rapina

Ninguém leva o meu fubá.

Edu Lobo, Lero lero


Das poucas coisas que sei…

 

1. Eu não mereço um beijo partido;

2. Eu não gosto de quem me arruina em pedaços.

 

Não devo esquecer nunca das poucas coisas que sei. Razão pela qual registro-as, devidamente.

 

 

 


o que vale

 

 

 

 

 

 

 


Sujeito Oculto

 
 
Ele nunca consegue se lembrar do número do próprio telefone.
Seus óculos têm vontade própria.
Ela instala coisas no meu computador. Que eu não sei como se usa.
Seus rímeis secam, como os meus.
Reclama por eu baixar músicas fora dos álbuns de origem.
Ele diz que eu tô por fora da pornografia moderna.
Explica que a recente produção francocult sobre estupro é o que há.
Meu laptop sabe a senha do wifi deles.
E na geladeira tem o guaraná que eu gosto.
Ele olha para os meus peitos enquanto eu falo de coisas solenes.
Ele finge que o joelho não dói, para que eu possa gozar.
Diz, entre risos, que aquela maconha não deu onda.
Ela descreve as cores segundo suas denominações no pantone.
Ele sugere que eu deixe uma muda de roupa minha por lá.
E sempre esquece suas cuecas aqui.
Ele envia um SMS me mandando aparecer na janela no meio do dia triste.
Do carro, me sorri, e tenho vontade de me deixar cair.
Ela sempre tira os brincos quando tem vontade de trepar.
Ele me deixa livre. Ela simula ciúmes. Ele se derrama.
 
 
Eu fico muda de amor e desejo.
 
 
 

Sunken Eyes

Eu choro ouvindo Blackbird nos braços de um amor.

Eu quero que os domingos padeçam dores excruciantes.

E que as despedidas feneçam, sem serem notadas.

Eu quero uma saia colorida para andar pela tarde azul.

E mais nada.