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quem lhe daria o condão?

Coração independente,
Coração que não comando:
Vive perdido entre a gente,
Teimosamente sangrando,
Coração independente.

(Estranha forma de vida, Amália Rodrigues)

 

peço a meu corpo que não espere

como numa oração, peço a ele que não espere

uso dos mais baixos golpes de oratória

apelo à alma que interceda, e convença este corpo

– estranha forma de vida –

a não esperar

que a espera é feita de desolação

e rezo

minhas mãos juntas em contrição

rogo

a meus seios

que esqueçam do peso da tua mão

e  à minha língua apelo, com fervor eucarístico

que deixe de sentir tuas

texturas

pregas

gostos

os pelos e o cheiro acre das tuas axilas

que minha língua lagarta apreendeu

peço a este corpo que não comando

que não espere

que entenda, como você, que é inadequado

um corpo querer outro outro corpo

assim

inteiro

e mais

 


Geni

De tudo o que é nêgo torto, do mangue, do cais do pôrto, eu já foi namorada

E nem assim meu corpo entendeu

Que ele não é só seu

 


Tutu-marambá

Ai, como essa moça é distraída
Sabe lá se está vestida
Ou se dorme transparente
Ela sabe muito bem que quando adormece
Está roubando
O sono de outra gente

A noiva da cidade, Chico Buarque

 

Dizia num  post anterior que sou uma pessoa que gosta de estar enrolada num paninho. Isso também é verdade para a hora de dormir.

Mas daí eu sei a origem da nóia.

Para horror de minha pobre mãe, saí desgarrada. Dessas criaturas ignóbeis que nascem nômades e têm o impulso de assentir a qualquer dedinho que lhes convide rumo ao deconhecido.

Mamãe, senhora honesta e sensata, nunca consentia com minhas súplicas de ir pernoitar na casa da fulaninha, da sicraninha.

Dizia-me sempre que eu não tinha modos. E admoestava-me. Se eu um dia fosse capaz de dormir e acordar coberta e não com o bumbum arreganhado para a nação – bem, ela nunca usou essas palavras até porque não creio que mamãe tenha jamais empregado o vocábulo “arreganhar” – ela então poderia pensar em permitir que eu dormisse em qualquer lugar que não fosse o meu quarto sob suas vistas zelosas.

Obviamente aprendi a dormir imóvel em tempo recorde. Não me valeu, uma vez que mamãe trapaceou e só me concedia dormir na casa de Camila, amiga pudica e de poucos irmãos.

Em todo o caso eu ficava imaginando qual seria a grande relevância imprópria de me descobrir durante a noite.

Certo dia, foram tantas as indagações, e foram tantos os pedidos, tão sinceros, tão sentidos , que ela dominou seu asco, e explicou, contrita, que se preocupava com a possibilidade dos pais de minhas amiguinhas me fazerem mal.

Mente piranha mirim ociosa, oficina do diabo.

Eu não parava de imaginar o mal a que estava exposta, e como isso poderia acontecer. Imaginava-me dormindo plácida e inocente em meu austero colchonete ao lado da cama de minha doce anfitriã, quando subitamente, mãos arredias me alisavam durante a noite, dado que eu não podia parar coberta, num convite a todo o tipo de mal feitor que por ventura habitasse a casa de minhas amigas.

Evidentemente hoje eu tenho ciência do quão plausível era a preocupação de minha mãe, especialmente se levarmos em conta que eu sempre fui imensa e aos 13 anos, aparentava uns 17. E sei também do quão terrível teria sido a realidade se os piores pesadelos dela tivessem se tornado realidade.

No entanto, isso aqui não é o programa da Oprah Winfrey e eu tenho toda a liberdade para dizer, em meu próprio blog, que meu desgarramento natural se acirrou muito mais quando eu comecei a vislumbrar as possibilidades que a situação oferecia. Imaginava desde os passos no corredor, a porta se abrindo com suavidade, no silêncio. Neste momento eu naturalmente arrebitaria o bumbum, e então as tais mãos indômitas me tocariam, sinuosas e leves. Eu, fingindo dormir, mudaria ligeiramente de posição de modo a dar mais acesso a elas, que não parariam nunca, jamais,  de me percorrer e explicar, de uma vez por todas o que é que era tão proibido sentir.

E assim se criam as perversões sexuais. Ou pelo menos algumas preferências. Sexo durante o “sono” certamente se tornou uma.

E taí também a causa primeira de eu acordar imediatamente sempre que por uma eventualidade a coberta, por menor e mais leve que seja, escorregue e me exponha as ancas. Porque você sai de dentro da sua mãe, é fato. Mas a sua mãe não sai de você.

Ai, ai….. ando tão confessional…

 


Como no deserto uma flor

   Se acaso me quiseres, sou dessas mulheres que vivem enroladas num paninho.

É. Sinto muito.

Como sabem os que me são mais próximos, ando num momento de assumir minhas doideiras. Tipo, descobri, lá pras tantas na vida, que sou um monte de coisas que não gostaria de ser. Coisas que não admiro e não desejo para mim. Mas sou. Lutei contra elas até aqui, e de repente, não mais que de repente, resolvi sair do armário.

Algumas dessas coisas, quero crer que, olhando de frente, sem fingir que não existem, consigo reverter. Por exemplo: sou ciumenta.

Deixa que digam, que pensem, que falem.

Não é o ciúme banal do olhar para outros corpos, da admiração do outro pelo outro. Não é sequer o ciúme que impede trocas e toques. Não. É o ciúme doído que envolve controle e posse. Subjetivo e corrosivo.

Custa-me admitir: sou ciumenta.

Não queria ser. Isso não combina com as coisas mais profundas em que acredito. Passei a vida convencida de que não era uma pessoa ciumenta. De fato, desafio a alguém que me aponte durante os meus bem vividos 37 anos, um único ataque de ciúme. Mas agora, entendi qual era o mecanismo. Eu ia muito bem, aí de repente o cidadão me fazia sentir isso, que eu nem mesmo identificava como ciúme. O que eu fazia? Levantava o nariz, soprava um beijinho e seguia em frente. Sozinha. Por absoluta incapacidade de assumir e lidar com o sentimento. Abria mão de qualquer coisa para não ter que sentir algo que execrava. E execro.

Bom, o que mudou agora é que eu entendi os sinais do monstro de olhos verdes. Ainda não sei lidar com isso. Não sei se fecho a cara, se choro, se vou embora. Mas agora que sei o que estou sentindo, não consigo mais fingir que não existe. Uma hora vou entender o processo e saber o que fazer. Estou convicta, porém, que esta é uma daquelas coisas que descobri a meu respeito, e sobre as quais posso agir. Em breve serei a pessoa ponderada e libertária que sempre me acreditei.

Há, contudo, questões, que por mais que eu queira, não conseguirei flexibilizar. Por exemplo:  eu sou chegada num paninho.

Estou sempre mais confortável com uma faixinha na cabeça, uma meinha, uma canga, um body, uma camisolinha, uma calcinha, que seja. Sou até dada a um  friozinho inventado só pra me enrolar numa pashimina. Não é assim uma burka nem nada que comprometa os movimentos. É só o conforto de um paninho. É triste dizer que nunca serei uma Leila Diniz, uma Lady Godiva a galopar meus seios pela amplidão do planeta. Tsc. Não sei se o planeta poderá lidar com isso.

É triste.

Mas é assim, né?

Em minha defesa, só posso dizer que, se acaso me quiseres, sou dessas mulheres (envolta em rendas e atavios) que só dizem sim.