Arquivo da categoria: Recuerdos de Ypacaraí

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Ele disse que se lembrava.

Eu fingi que nem tanto.

Ele conta dos meus olhos virando.

Disso não lembrei mesmo…

Ele disse das minhas pernas, tão flexíveis quanto a minha vontade de dar.

Eu menciono o beijo atrás da porta.

Ele  diz das coisas pequenas, e acho bonito que se lembre delas.

Eu penso nos seus dedos finos, mas me parece comprometedor demais falar deles.

Dedos são coisas tão íntimas…

Ele falou da minha roupa.

Eu não pude recordar a dele.

Depois de lembrar do beijo, tive dificuldade em concatenar as idéias.

Meu reino por um beijo comme il faut.

Ele diz que vem em breve.

Eu não creio.

 

 


Hormônios & Canções

A verdade, meus amigos, doa a quem doer, é que Lulu Santos foi o meu tesão inaugural.

Falo da adolescência, porque se voltássemos à mais tenra infância eu ia ter que confessar minha fascinação balbuciante pelo rebolado do Sidney Magal e aí não havia reputação que desse conta.

Mas rapaz, era uma coisa séria.

Blasé demais para ser groupie, eu era, no mínimo, uma entusiasta. Com direito a presença cativa em shows, e a todos os álbuns –  parei a coleção no  Anticiclone Tropical, de 97, porque minha audição falou mais alto que minha lubrificação e daí tive que abrir mão, mas acho que de cada álbum posterior se pode pescar uma ou duas coisinhas bem audíveis.

É que o Lulu lá do início tinha uma energia muito legal, e aquele nariz que mexia com meus inexperientes instintos, noves fora, eu era gamada no cara.

Bom, acontece que no primeiro álbum,  Tempos Modernos, de 82, há uma canção bem pouco conhecida chamada Palestina. E nela, um clima, um acento, um balanço… o arranjo, o ritmo, a letra, e, sobretudo, com enorme ênfase, a voz dele nesta interpretação em particular, enfim, a música me inundava de uma sensação que eu não sabia definir, que me levantava as orelhas, crédula no perigo que ele anunciava, e me despertava um desejo insano de sair pela noite e beijar na boca… o popular fogo no rabo.

Recentemente, venho sentindo uma brisa e na brisa, sutil,  esta canção, lá do passado. E tornando a ouvi-la, senti enorme prazer e me regozijei da garota que eu era, porque entendi certinho. Meus olhos frios ainda se incendeiam lentamente. Mas hoje… ah…. hoje eu identifico com exatidão aquela sensação que me escapava. À qual me entrego com esmero.

É por isso que eu vou ali e volto já.

Enlouquecendo de desejo o inimigo
Ela se dá com tanta fúria que
Ele crê que tem nos braços a mulher de sua vida
Mas é a morte que ele abraça sem saber


Cinema Paradiso

Vinícius disse que a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida.

É possível que eu esteja levando a máxima um tantinho ao pé da letra.

Coisa com que não discuto é o Cronômetro Infalível. E eis que ele nos regalou com uma noite. Vida em conta de anos a pôr em dia e uma noite – atentem para as badaladas, mocinhos! – para nos passar a limpo.

Saber dele, contar de mim, conferir os cheiros, as mãos de pegada forte, a barba que não havia, a mulher que agora eu era.

Uma noite. Uma noite de verão. Uma ilha. Perto do mar, longe da cruz. Pintou o tempo exato do encontro. O reencontro. O desencontro da razão. Os planos desarvorados. Dois perdidos numa noite suja, as piores intenções do mundo, fertilidade, vontade. E talvez nem houvesse amanhã.

Quando menina, todas as razões inventei para ir ter com ele. Assuntos inadiáveis e de grande monta a tratar com cada um de seus irmãos tão amados. Desculpas que só uma adolescente sabe forjar. E ele disse, singelo, que queria ter me namorado. Ele não sabia que eu teria sido sua namorada. Os meninos nunca sabem. Assim, fomos nos pegando pela vida. Cachorros vadios.

Falar com ele sempre foi um prazer quase sexual. O tom macio, a boca morena. O olhar ansioso sobre mim. A língua discretamente presa. A prolixidade incomum. Meu nome que ele sempre chamou no diminutivo.

O desejo persistente a cada encontro, inusitados encontros, e olhos que diziam um ao outro desse desejo, sob o testemunho de tantos quantos houvesse. Ah, nossos olhos e suas conversas inevitáveis.

Eu prometi que deitaria no peito dele. E deitei. E aquele corpo era meu, uma vez mais. Vezes sem conta. Conta de mentiroso.

Não me lembrava bem daquele pau delicioso. Descobri o tesão aflito e urgente que ele sente nos mamilos. Deixei que ele fizesse como queria.

Ele, generoso, me ofereceu tudo, e disse, desafiante e grave, sob meus quadris: vem pegar.

E eu fui.


Mixirica

Eu não tenho uma filha. Mas se tivesse, ela estava terminantemente proibida de ter uma “melhor amiga”.

Essa figura é que põe tudo a perder na vida de uma adolescente decente e cumpridora dos seus deveres.

Ah, as coisas que eu nunca teria sabido se não fosse a minha melhor amiga.

Mas não. Nada podia passar inocentemente por mim sem que a dita, do alto de seu posto de melhor amiga, me chamasse a atenção para o coeficiente safardânico em toda e qualquer obra humana.

Sem ela, jamais teria me ocorrido enfiar a calcinha na bunda “pra marca ficar mais bonitinha na calça de cotton” antes de começar o meu périplo de inúmeras voltas pelo quarteirão na tentativa de cruzar com aquele menino da rua ao lado.

Sem ela, eu jamais nessa vida teria maldado uma canção do Roupa Nova. Gente, o que pode ser mais enfadonho do que uma canção do Roupa Nova? Mas não. Ela tinha que me encafifar até uma coisa louca sair do meu olhar e eu cismar de saber onde era esse lugar que alguém tinha tanta pressa de chegar e outro alguém sabia o jeito e o lugar.

Sem ela eu JAMAIS teria pensado em fazer uma dobradura especial no absorvente de modo que ele não marcasse a calcinha (sim, ela tinha uma certa obsessão com o modo como a bunda de uma garota devia parecer, quesito no qual eu era uma enorme decepção, aliás).

A melhor amiga é uma pessoa que, tendo rigorosamente a sua idade (a minha era quatro dias mais nova que eu!) está sempre um passo à sua frente e sabe de coisas de que você nem suspeita.

A melhor amiga é a versão moderna da serpente do Éden.

Eu não tenho uma filha. Mas se um dia tiver, dou um Tamagoshi pra ela.


E já que Chico está na pauta…

Aos dezessete anos, como soe acontecer, sofri grave desilusão de amor.

Interrompia-se um namoro que durara eternos 3 anos. Eu não sabia, então, que tão eternas quanto o namoro seriam as recaídas.

Os dias eram cinzentos, e eu flanava por eles com minha cacharél bordeaux e as mãos nos bolsos do jeans. Carrego pela vida a estranha noção de que desilusões amorosas requerem caminhadas em blusas cacharél. Pensava na minha existência arruinada. Tomei a irreversível decisão de que não mais amaria. Recordo-me vagamente dos auto-falantes haverem entoado A time for us, versão instrumental, neste momento.

Ato contínuo, imaginando que talvez a decisão fosse um tanto radical, resolvi flexibilizar: dali por diante, só cederia à tentação se me deparasse com alguém que se parecesse com o Chico Buarque.

À noite, numa tentativa desesperada de arrancar-me daquele marasmo bolorento, meu irmão arrastou-me para uma festa na Ilha do Governador (não me perguntem que tipo de tentativa é essa!). Eu, apática e lacrimosa, cumprimentava os amigos quando vi, num canto, um rapaz dedilhando um violão, coisa que os rapazes fazem não por outra razão senão a consciência do quanto parecem irresistíveis às moças em tais circunstâncias. Inclinação que, como a cacharél, também trago comigo.

Aproximei-me.

Ele era mulato, embora claro. Foi só o que eu pude ver já que era com a cabeça baixa que ele tocava Sina. Acomodada no chão, em frente a ele, e também cabisbaixa, como convém a alguém que apenas viveu seu derradeiro amor, comecei a cantarolar. Quando o grito do prazer açoitar o ar, reveillon e tals e, finalmente, virtuose e intérprete se encaram e, por Deus! eram verdes os seus olhos, um verde aquoso e inesperado, e uma boca perfeitamente desenhada… e tocava violão… êpa! o cara era praticamente o Chico Buarque!

Senhores, ocorreu assim como vos relato, juro por Iemanjá! E eu não cometeria tal perjúrio no dia dois de fevereiro! Que mil raios me partam e minha geladeira amanheça repleta de iogurtes de morango se eu estiver mentindo!

Com um sorriso, o menestrel indagou se poderia tirar proveito de meu tom mais agudo para acabar de tirar uma canção, pois encontrava-se empacado em um trecho. Eu, solícita, prontifiquei-me. Era Azul, também do Djavan, e a parte para a qual eu fora especificamente requisitada era aquela “alga marinha vá na maresia buscar ali…” e eu fiz o melhor que pude, talvez por umas trinta e seis vezes consecutivas.

Não me lembro muitos detalhes daquela noite, o que é raro. Não me lembro do espaço, mal sei de quem era a casa. Mas lembro de ter considerado um aviso divino eu dar de cara com aquela aparição de olhos verdes adornados por uma boca de coração a locupletar-se com um violão, e todas as minhas lembranças concentram-se em eu ter feito algo que fugia à minha natureza: “fiquei” com o cara.

Como era de se imaginar, em se tratando de uma festa na Ilha, dormi por lá, no chão de tacos da sala, sem lençol, entre algumas almofadas de tapeçaria, atracada com o cavalheiro andante de olhos buarquianos que me salvou do destino certo de entrar para as carmelitas, e não me refiro ao bloco de carnaval.

Lembro-me que eu vestia um short envelope de viscose muito colorida, e que as mãos dele passearam entre o tecido e a minha pele. Lembro da ereção. Lembro do meu queixo ardido no dia seguinte. Mas não lembro do nome dele, o que é bizarro. Tenho a impressão de que era Ricardo, mas isso pode ser só porque eu acho o nome sexy…

Além do elemento mágico, místico e misterioso daquele encontro, a noite foi memorável porque foi uma das únicas circunstâncias, senão a única, em que olhei para um homem (ou quase), decidi claramente que ele seria meu (ou quase) e tomei todas as providências para isso.

Onde andará aquele moço?

Por onde andam as bocas que a gente beija pela vida afora? Sempre estranho que se as perca…


São Salvador

A ser utilizada para denotar fetiche, a palavra “exibicionismo” requer, ao que me parece, que do ato se obtenha prazer.

Isto pôsto, jamais me considerei exibicionista.

Entrementes, pensava hoje nos idos de minha transviada juventude a recordar de umas trepadas madrugadeiras que certamente me poderiam conferir a alcunha.

Noite alta. Eu, ele, uma mesa fria de granito, um terraço. No centro de uma área interna. Ao redor, algumas centenas de apartamentos. E um irrevogável travo de ousadia e medo no prazer que eu sentia a cada metida.

Certamente fomos vistos. Por sorte não surpreendidos. Por milagre não denunciados.

E foi bom.

Exibida.


O côncavo e o convexo

Como legítimo exemplar da classe média carioca, também eu passei muitas férias na Região dos Lagos.

Numa destas, no longínquo ano de 1980, atravessei a primeira prova de fogo de minha incipiente existência: um interminável verão em Araruama, na condição de caçula de um irmão e alguns primos, em companhia de mãe, duas tias e dois discos: um do Roberto Carlos e outro do Julio Iglesias.

As rodinhas de minha bicicleta faziam de mim um estorvo para as outras crianças que subiam e desciam, velozes, as ladeiras arenosas e escaldantes do próspero balneário, assim, a Mistakezinha era frequentemente deixada na companhia das Gréias e seus LPs infernais.

Depois de um mês de bullying familiar, Manuela, e muito “eu quero ser sua canção eu quero ser seu tom”, percebi, ainda na Rural saia e blusa de meu tio, ali pela ponte Rio-Niterói, que a recuperação – se houvesse uma – tardaria, e fui tomada por um súbito repúdio à lagoas e casuarinas.

Mas o tempo que sempre apaga o fogo de qualquer paixão, naquela altura passava preguiçosamente, de modo que no fim da década, na sexta série, o destino me pôs na mesma classe que R., e foi então que minha índole lânguida revelou-se.

Numa noite fui flagrada, cantando sentida, a plenos pulmões: das lembranças que eu trago na vida você é a saudade que eu gosto de terrrrrrr….. só assim, sinto você bem perto de mim, outra vez!!!!!

E o vaticínio foi certeiro, ainda na porta, com a chave na mão:

– Ah meu Deus. Minha filha está apaixonada.

Não passei a gostar de Roberto Carlos a partir dali, até porque precisamente naquele momento ele dava início à pior fase de sua produção. Mas insidiosamente, a cada paixonite, meu coração apelava tão secretamente quanto possível – seria uma traição a meu irmão e primos se, de uma hora para outra, eu me esquecesse dos suplícios daquele verão – para a coleção de LPs que minha mãe tem até hoje.

Quanto a R., jamais encontrei palavras para dizer como era grande o meu amor por ele, que nunca ficou sabendo que eu tinha o amor maior do mundo.

Porém, foi por aquela época que o tempo, de preguiçoso passou a maratonista queniano, e a capciosa semente plantada pelo primeiro amor, resultou em que eu fosse elegendo canções do repertório de Roberto Carlos, e o pior, perdoai! dei para chorar, ouvindo o cara.

Que posso dizer? Sei que não devia estar contando isso, é possível que seja o golpe de misericórdia nos incautos que a este blog acorrem em busca de qualquer coisa interessante para ler, e me resignarei se julgarem que nada de interessante pode advir de uma criatura que chora ouvindo Roberto Carlos. Mas já que confessei tanto, devo fornecer elementos suficientes para a adequada penitência, e conto ainda que, na última sexta-feira, sob o pretexto de oferecer presente natalino à mãe e cunhada, fui com ambas ao Maracanãzinho, ver, pela primeira vez, o provecto senhor que mexe com a libido da Hebe Camargo.

Somente hoje, quando já vão longe as jovens tardes de domingo, e quando você não sabe, mas é que eu tenho cicatrizes que a vida fez, posso compreender melhor o fenômeno e até as minhas lágrimas.

Nas cadeiras numeradas, de posse de um Geneal, concentrada no que ele cantava, atenta à reação de milhares de pessoas ao meu redor e comovida com a paz do sorriso de minha mãe com seus binóculos (parte do presente), pus-me a lembrar dela, tão mais nova, de tomara-que-caia amarela e short jeans, com mais ou menos a idade que eu tenho hoje, tão bonita, sentada na areia, ouvindo seu disco querido, e quase posso ver o seu olhar, e queria tanto ter podido abraçar aquela mulher e explicar pra ela que nem o Roberto Carlos sabe de verdade dar e querer da mulher.

E ali, ao lado dela, tão sexualmente repressora, tão sexualmente reprimida, senti uma inédita compreensão de nós duas e de nossa condição feminina. Estávamos em rara comunhão. Porque não éramos mãe e filha, éramos mulheres.

Talvez seja esse o grande mérito do artista em questão, diferente do Chico, que traduz tão poeticamente o que as mulheres sentem, Roberto Carlos fala o que elas gostariam de ouvir. E se coloca na posição do homem que diz isso.

Sem dó:

Eu te proponho
Te dar meu corpo
Depois do amor
O meu conforto
E além de tudo
Depois de tudo
Te dar a minha paz
..”

Quero ser a coisa boa,
Liberada ou proibida,
Tudo em sua vida
.”

Eu como e bebo do melhor
E não tenho hora certa:
De manhã, de tarde,
À noite, não faço dieta
.”

E é bonito demais
Quando a gente se beija
Se ama e se esquece
Da vida lá fora
…”

Sem me importar se neste instante
Sou dominado ou se domino.
Vou me sentir como um gigante
Ou nada mais do que um menino
.”

E por aí vai…

É romântico sim, mas é sobretudo sexo.

Bem, à Araruama, nunca mais voltei, mas guardo lembranças ternas do lugar. Julio Iglesias seguiu sendo odiado.

Mas mesmo que os detalhes sumam na longa estrada do tempo que transforma todo o amor em quase nada, sei que um grande amor não vai morrer assim, por isso, tenho certeza, eu sempre lembrarei de Roberto Carlos.

E pressinto que vou chorar.


Eva

Você aí, que me lê. Quando se apercebeu de que havia no mundo tal coisa como sexo?

Vocês sabem como sou dada a reminiscências… essa remonta aos meus cinco anos. Brincava com um menino um pouquinho mais velho, que morava no meu prédio. Os mais velhos, além de nos rejeitarem, como é comum acontecer, ainda diziam: a Mistakezinha é namoradinha do fulaninho!

Bom, um dia, eu e o fulaninho estávamos no quarto brincando e eis que ele, em sua loirice sardenta, me pergunta assim, na lata: e aí? vamos fuder?

TCHARAM!

A pobre da Mistakezinha que ainda não era uma rematada sacana, ficou atônita diante desta putaria inaugural. Eu não tinha a menor idéia do que pudesse ser aquilo, mas na hora soube que era alguma coisa muito séria, entendi inequivocamente, aos cinco anos, que a partir de então estava expulsa do paraíso.

Diante da minha cara, o fulaninho, disse: ah vai! você não sabe o que é fuder? como acha que nasceu? o seu pai ficou em cima da sua mãe e eles fuderam, né? Aí o menino me pôs deitada e se deitou sobre mim e ficou tendo uma coisa parecida com um ataque epilético.

Foi demais pra mim. Comecei a chorar e acho que ele, com medo das repercussões do caso, fingiu que nada tinha acontecido e foi jogar Genius com os garotos no outro quarto. Eu fiquei ali, chorando, desconsolada, sentindo aos cinco anos, o peso de saber que não poderia mais brincar no Éden. Toda errada essa menina.

Dali a poucos meses eu fazia 6 anos. A pessoa nascer em junho é uma espécie de maldição porque durante a sua infância inteira vão fazer festas juninas no seu aniversário e mesmo depois de adulta, sempre vai ter um infeliz pra sugerir uma.

Pois é, nos meus 6 anos houve uma festa junina. Com casamento. E quem eram os noivos? Quem, quem, quem??? Mistakezinha e o fulaninho sardento, claro. Tudo pronto. Barraquinhas, vestido caipira, pescaria, lanternas coloridas e o povo começou a chegar e dizer: aííííí heinnnnn….. vai casar!

E a noivinha aqui começou a ficar cabreira. E lá pras tantas já chorava a plenos pulmões em franco desespero, agarrada à perna da mãe.

Sinto ainda, muito vívidamente, o meu desespero. Minha mãe, angustiada com minha choradeira, que a impedia inclusive de receber as pessoas, sentou comigo e perguntou o que é que estava havendo, e eu, totalmente desolada disse: eu não quero casar e ir morar longe de você e ter que fuder o fulaninho.

TCHARAM TCHARAM TCHUDOM PAPARAPÁPÁ!!!!!!!!!

É preciso explicar que a minha mãe é daquelas que crê que os filhos sempre foram, são e serão virgens, e qualquer coisa que aponte para o contrário disso pode trazer graves conseqüências ao seu frágil psiquismo. Ela não é exatamente moderna. E a admiro mais ainda pelo esforço que ela deve ter feito para não ter um ataque histérico e bater com a cabeça do menino na parede. Possivelmente se concentrou na filha apavorada.

Depois das perguntas de praxe (quem te disse isso? que história é essa? nunca mais diga essa palavra!) ela me explicou que era um casamento de mentirinha e que eu só ia casar depois de mocinha e que os nenéns não apareciam assim, que o que acontecia, na verdade, era que depois que as pessoas grandes se casavam, elas se gostavam muito e o papai colocava uma sementinha na barriga da mamãe e aí nascia o neném.

Ah tá. Por via das dúvidas preferi não casar. E por via das mesmas dúvidas, fui proibida de sequer descer no mesmo elevador que o sardentinho.

E depois disso, toda a semente que achava dentro de casa, de mamão, uva, e afins, eu dava um jeito de pôr dentro da calça da minha mãe, na esperança de ter mais um irmão. Não rolou.

O caso é que tais episódios me deram ciência de que existia sexo. E esse conceito nasceu atrelado à sensação de perigo, pecado, e de indesejabilidade. E também, entendi que sexo requeria outro ser. Fosse o menino loiro e sardento, fosse o marido que eu teria quando grande.

Não muito tempo depois, descobri a duchinha do bidê. E acho que não entendi imediatamente que as coisas tinham a ver uma com a outra. O chuveirinho era prazer. E era prazer solitário. Se sexo precisava de alguém, prazer não precisava não!

Mas então, como eu já estava longe do paraíso, percebi que essa era uma maçã a se saborear escondida.

E daí pra cá foi um pulinho.


Breviário

Tu te lembras daquela feita em que fostes ter comigo e ao inclinar-me para assinar um documento deixei à mostra um seio que a cambraia não pôde cobrir?

Lembras de pedires indicação sobre o caminho da volta e encostares o braço neste mesmo seio? Eu vi teus dedos tremerem e esforçarem-se por segurar o papel, que metestes então, atabalhoado, à carteira.

Lembras de teres saído da casa? Lembra dos passos que destes para a rua, vacilante?

Um doce pelos teus pensamentos naquele instante.

Que pensaste? Com que indícios voltaste, já sem hesitação, sobre teus passos e abriste a porta recém fechada para olhar-me com toda aquela certeza?

Com que audácia viestes até mim e sem palavra me tiraste a cambraia e o pudor?

Que direito te concedestes para me segurares a um tempo seios e quadris e meteres em mim tão fundo, que a dor aguda me fez gritar na tarde parada e quente?

Que ardil te fez parares dentro de mim, por minutos eternos, até que eu duvidasse se havia de fato alguém ali, para em seguida mostrares, sem espaço para questionamentos, que sim, havia de fato alguém em mim, e que este alguém era algoz e apaixonado e tudo isto fizeste-me saber com teu pau que me contava do desejo que a despeito de toda a amizade, sentias, e havia tempo.

Com que insanidade apertei-te tão forte dentro mim, que serpente me anelou os movimentos, que súcubo terá segurado meus braços sobre aquela mesa?

Com que malícia segurastes meu pescoço e dissestes com tua voz grave, que eu era tua na hora em que quisesses, mas que não mais quereria, porque desta vez me levavas tudo, e de fato foi assim.

Com que desídia nos olhamos hoje entre os nossos, como se as tuas e as minhas entranhas já não tivessem se pertencido.

Por quais estrelas ecoam ainda os nossos gritos?

Um doce por aquele pensamento que te fez voltar.


Hoje achei, anonimamente, no facebook, um carinha por quem eu arrastava um avião na minha adolescência. Era um mistério para todas as minhas amigas aquela obsessão.

Ele era descomunalmente alto, era excessivamente sardento, sofria de acne, era desengonçado, usava uns óculos estranhos, tinha os ombros muito estreitos, sua timidez era tal que o impedia olhar as pessoas nos olhos. Era muito inteligente. Para minha delícia, jogava basquete, e eu passava o recreio comendo mabel com mineirinho e observando de um modo que eu julgava discreto o deslocamento daquele menino enorme pela quadra da escola.

Eu procurava justificar minha paixonite exaltando as coisas que achava lindas e que podiam receber adesão do senso comum. Como se “amigas adolescentes” tivessem algo parecido com isso… as mãos dele são lindas! ele é tão inteligente! tem lábios grossos… tão bonitinho o jeitinho tímido dele… olha, reparou que os olhos dele são meio esverdeados, peraí, quando ele tirar os óculos pra secar o rosto você vê! Reparem, ele tem pernas grossas… é que os jeans são muito largos, não dá pra ver bem, espera, quando ele abaixar pra preparar o lançamento, vai ficar mais justo, aí vocês vêem.

Não adiantava.

Nunca quis nada comigo. Ou, como eu, não teve coragem de me fazer notar que talvez quisesse. Se bem que meus olhares eram bem reveladores, estou certa.

O fato é que aquele menino foi o primeiro de uma série de homens estranhos que me atraíram ao longo da vida.

Carrego comigo até hoje essa ternura por figuras desconformes, altas, com elementos que desequilibrem o conjunto.

Pensando nisso, fiquei repassando os homens em evidência na mídia, os quais considero deliciosos, e você, que me lê, possivelmente vai ficar tão perplexo quanto minhas amigas da escola ao conhecer minha seleção.

Procurando imagens desses homens, achei outros homens que me causaram reações diversas, o que me deu uma idéia, compor posts nos quais vou mexendo conforme me lembre de novas figuras.

Adoooro novos projetos…