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À Point

Atala

 

Quero crer que aquilo seja um snorkel. Oremos.

 


guloseimas

Esse pessoal da área de gastronomia é de uma criatividade… tsc.


Amuse Bouche

Não me lembro de relações realmente convincentes entre o fazer culinário e a sexualidade.

Há associações grosseiras entre alimentos e o formato genital. Exemplo disto é o alho que aqui vem sendo chamado poró. Na igreja católica os sacerdotes, para aspergir água benta nos fiéis, usam um objeto oblongo, em geral de prata, com alguns furos. A este objeto milenar chama-se porro. E é com ele que o padre ESPORRA água benta nos fiéis, ou ainda, dá-lhes uma PORRADA. Obviamente da mesma origem vem a expressão PORRA, sendo esta, aquilo que provém do PORRO. E por associação de formato, convencionou-se chamar o alho, de porro. As demais associações, não necessitam ser nesta postagem explicitadas, creio. No Brasil, primeiro por pudicícia, e depois por ignorância, passou-se a chamar o legume de alho poró.

Há também as atribuições de poderes mágicos e afrodisíacos a este ou aquele alimento. Por mais que eu lide com comida – e creiam, eu lido – jamais comprovei nenhuma delas. E a coisa mais afrodisíaca que posso dizer sobre uma refeição é: se for trepar, não coma. Digestão não combina com sexo. Sob esta ótica, eu diria que uma salada leve e saborosa e um espumante, de preferência um demi-sec rosè, são altamente afrodisíacos, mas não porque induzam ao sexo, e sim porque não atrapalham.

Há ainda as comparações entre o fazer culinário e o sexo, as induções de um ao outro. Há vários e soberbos exemplos literários e cinematográficos, que não carecem ser citados aqui.

Era de se supor após este longo epílogo, que eu nada tivesse a dizer sobre o tema. Mas a esta altura dos fatos vocês já sabem que eu sempre tenho qualquer coisa a dizer sobre qualquer assunto, nem que seja uma abobrinha, neste caso, com trocadilho.

Talvez eu deva inserir minhas considerações neste último grupo, o das abstrações comparando sexo e cozinha. Mas não penso no assunto propriamente no registro da fantasia. Creio que haja uma relação muito objetiva entre o ato de cozinhar e o da conquista sexual.

Refiro-me ao cozinhar que não se inscreve no cotidiano, na obrigação, que não tem por objetivo único o nobre ato de nutrir. De manter, dar subsídio e combustível a uma família.

A minha reflexão é sobre o ato de cozinhar como intenção de enredar o outro. A comida como teia. Como construção. O cozinhar cerebral que requer adrede preparação, infinito amor, intenção de sedução e enorme vaidade. Sendo, portanto, estratégia.

Proponho o ato deliberado de inebriar e preencher todos os sentidos do outro. Cuidar do conforto do seu corpo ao sentar-se, e dar-lhe às mãos os objetos necessários ao prazer cirúrgico que você vai proporcionar a ele. E que estes objetos sejam agradáveis ao toque, e que esta cena seja bela aos olhos. E que esta beleza tenha luz adequada e música que acaricie a audição em volume e qualidade, que ela excite o corpo subliminarmente sem como isso, desviar a atenção.

Cozinhar é proporcionar cheiros instigantes, coisa que requer especial cuidado. Facilmente o efeito pode ser inverso. Cheiro de café quando a comida tem alho, cheiro de alho, quando ela é doce, cheiro de incenso à refeição, odor de perfume, quando o alimento é o destaque.

Cozinhar é planejar, e optar pelo mais simples.

Cozinhar é seduzir a boca do outro, determinando o que aquela língua irá experienciar. Com precisão. Sem erros. Ser exato na sequência. Prometer com sabores quase insípidos, confortar com maciez, emocionar com o tenro, quebrar a monotonia com o crocante, assustar com o apimentado, refrescar para não saturar e reintroduzir ácidos, salgados, doces, amargos, picantes. Dar o veneno e o antídoto. Vinho, sorbet, pequenos truques.

Cozinhar é dominar o outro através do controle absoluto de suas sensações. É servir o outro com sua doação e destreza.

Cozinhar é render. É dar-se a deglutir. É agir deliberadamente na intenção de provocar em alguém que se elege para tanto, uma experiência única, perfeita, e – fundamental – proporcionada por você, só por você. Parece-me que isto é exatamente o que se espera de uma relação sexual. Não?

Cozinhar é imprimir-se no outro de modo inequívoco, é tatuar-se em sua memória, naquela que é a mais confiável memória humana: a olfativa, a do paladar. É ter o ardil de se confundir com essa memória. Cozinhar é ser ardiloso. É impor-se para sempre ao incauto que sentou–se à sua mesa, através de uma experiência completa de prazer sensorial, não importando o que veio antes, o que virá depois, a despeito de toda a dor e confusão que dois seres humanos podem causar um ao outro.

Cozinhar não é pouco não.

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p.s: Enquanto finalizava este post recebi um e-mail de um amigo que compartilha comigo o amor pela Toscana, e me confessa “ (…) mas sabe que o que mais me marcou em Siena foi um coq-au-vin acompanhado de um Brunelo de Montalcino que estava de comer e beber rezando. A esta altura já deve ter dado para perceber que um dos meus pontos fracos é a boca, né?!”.

Cozinhar é tocar no ponto fraco.