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Desgoverno

Aquele momento em que sexo não dá conta do desejo.

E você quer mais. Mais a não mais poder. Mais a não mais saber.

O que nunca se tentou. O que jamais foi dito. O que já se rachaçou.

Talvez machucar, quiçá agredir.

Dizer coisas sórdidas, pedir o escatológico. Ouvir o absurdo.

E querer.

Gemer de acordar o monstro que mora nas entranhas do mundo.

Minha boca nas coisas mais sujas. Mais sujas que as palavras que arranco de você.

Nada me pode classificar.

Arrancar seus intestinos com minha mandíbula nervosa e disto obter prazer.

Ressoar um tapa que faça arder todos os meus dedos em sua cara.

E não bastará.

Tomada por uma inquietacão de quem não sabe. Mas precisa. Tanto.

O gozo dolorido de raiva.

O estupro impiedoso.

Todas as coisas que não se aprovam.

Dessas que te podem por presa, requerem os serviços de um advogado, e trazem vergonha.

Quero cobrir-me de vergonha.

Quero todas as coisas contigo.


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pragmatismo

 

Então, truculentos, eles me algemaram e disseram:

Tudo o que disser pode e será usado contra você.

E eu, com um suspiro entusiamado, gritei:

JONNY DEEP!

 


Polaridade

 

A pele dela dá choque.

Eu que falo pelos cotovelos, e escrevo a não mais poder… eu que tenho e-mail, facebook, twiiter, dois blogues, e ainda me utilizo dos serviços do correio… eu que deixo mensagens na areia, e envio outras em garrafas… eu que sou perita em mímica, e decodificação de olhares, aprendi LIBRAS e BRAILLE… eu que uso meus próprios olhos para dizer o mundo… eu… que sou um ser comunicante, significante… eu… justo eu… não sabia que existia mesmo essa forma de dizer: com a pele.

E como sou nova nisso, não sei se entendo certo, se digo certo.

Só sei que ela vem, se encosta e me devora pra dentro dela. E sei que quando ela se afasta, leva muito de mim em seus poros.

Só sei que qualquer dia desses, morro eletrocutada.

 

 

 


Ascella

 

Eu gosto de axila.

E tudo o que a envolve. Seus arredores, aquela polpinha entre o peito e o suvaco propriamente dito. Tem umas que tem uma carninha, boas de morder. Outras que são quase negativas, boas de lamber.

Gosto da textura, do tom da pele, das dobrinhas, dos pelos, do tônus,  do cheiro.

É uma parte do corpo que me desconcentra. Talvez a única, com esse poder.

Se estou vendo um comercial de TV – é impressionante como o pessoal paga suvaquinho nos comerciais de TV, reparem – um filme, ou falando com alguém, e a pessoa inadvertidamente levanta o braço, expondo a pele nua de uma axila, eu simplesmente esqueço o que estou dizendo, perco o prumo, a linha e o assunto e tenho que me recompor, e retomar o raciocínio, não sem antes fazer uma certa cara aparvalhada.

É uma preferência quase subversiva. Quase um tabu.

Quis o destino que poucos, entre os corpos que tive o prazer de envolver com meu corpo, suportassem meu estranho gosto, porque ele vem acompanhado de uma necessidade de contemplação, toque e, para ficar redondo, uma cafungada arrematada por um beijinho.

É um carinho para os fortes.

E eles são raros.



Então

 

Como eu dizia….

 


Moto contínuo

Dá pra mim?

Dá, vem…

Dá?

Deixa eu te comer?

Deixa…

Dá pra mim?

Dá?

Agora eu vou te comer.

Abre pra mim.

Dá.


Modus Operandis

Ele trepa como quem mata.

Meticuloso, premeditado, minucioso. Prepara a cena de seu crime.

Esquadrinha. Calcula.  Circula.

Gentil, abocanha a presa pela garganta.

Submete.

É preciso ficar tudo claro desde logo.

Ronda a vítima, relaxado, porém grave. A ela, não lhe concede palavra.

Um bisturi visual, é o que há naqueles olhos negros e pequeninos, que carregam em si toda a ternura do mundo.

Um tapa.

Ela lá, em franca agonia, lânguida, aberta.

Mas ele não quer assim, quer assado.

Acaricia o próprio pau, acalmando-se.

Dimensiona.

Um beijo que não  é um presente. Beija para tomar o butim que lhe crê devido.

Mete.

Ela, a desfalecer.

Afasta-se. Circula. Avalia.

Arruma os braços para cima a fim de que não lhes restrinjam os atos, sempre sórdidos.

Acaricia a barriga. Aperta com força o quadril. Corrige-lhe a curvatura.

Como quem cria uma cena a ser desenhada.

Despeja impropérios:  para um psicopata, a culpa é sempre da vítima.

Abre as pernas dela. Testa-lhe a buceta com os dedos. Calmo, manso, inexorável.

Medindo, segundo sua conveniência, ajusta a altura dos quadris.

Coloca-se naquele regaço que preparou para si.

E então é assolado de novo, pelo reconhecimento de que aquele é o seu lugar.

E trepa como quem morre.

 


Ok, admito.

 

É tara.

 


A cor púpura

Os atletas poderão dar-te
O amor próximo das sevícias…
Só eu possuo a ingênua arte
Das indefiníveis carícias…

(Pierrot Místico, Manoel Bandeira)

A pele regenera. O desejo, não…