Arquivo da categoria: uma ou duas coisas

quem lhe daria o condão?

Coração independente,
Coração que não comando:
Vive perdido entre a gente,
Teimosamente sangrando,
Coração independente.

(Estranha forma de vida, Amália Rodrigues)

 

peço a meu corpo que não espere

como numa oração, peço a ele que não espere

uso dos mais baixos golpes de oratória

apelo à alma que interceda, e convença este corpo

– estranha forma de vida –

a não esperar

que a espera é feita de desolação

e rezo

minhas mãos juntas em contrição

rogo

a meus seios

que esqueçam do peso da tua mão

e  à minha língua apelo, com fervor eucarístico

que deixe de sentir tuas

texturas

pregas

gostos

os pelos e o cheiro acre das tuas axilas

que minha língua lagarta apreendeu

peço a este corpo que não comando

que não espere

que entenda, como você, que é inadequado

um corpo querer outro outro corpo

assim

inteiro

e mais

 

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desgoverno

E aí que a porca torceu o rabo.

E eu noto que não tenho necessidade de mais ninguém.

Apenas queria muito.

Perde-se tanto tempo.

Tempo em que a minha boca poderia estar reconhecendo na sua, tudo que ela não tem competência para me dizer. Porque há uma hora, mes amis, em que é preciso abdicar de dizer:  já não faz diferença.

Entretanto,  o que se vê é um conglomerado de ações inúteis, em prol de objetivos forjados, e isso se espalha em ondas e nada faz sentido. Meio assim como essa prosa.

E acredito que sim, dentre as coisas que dão sentido à etérea existência, estão as placas de trânsito e a minha boca na sua.

O que, pelo visto, significa que seguiremos sem rumo.


Das poucas coisas que sei…

 

1. Eu não mereço um beijo partido;

2. Eu não gosto de quem me arruina em pedaços.

 

Não devo esquecer nunca das poucas coisas que sei. Razão pela qual registro-as, devidamente.

 

 

 


Lasciate ogni speranza, voi ch’entrate!

 

Deixai de fora toda a esperança, vós que entrais.

Com esta meiga sentença, escrita sobre o portão de seu inferno, Dante saúda os incautos em sua Divina Comédia.

Já que alguns tem me atribuído o cargo de porteira do inferno, e para deitar na cama, uma vez criada a fama, achei que cabia a citação…

 

 

 


Ontologia

 

A mim, me convém tudo e todas as coisas.

Todas as que eu puder sentir.

Coisas que me atravessem.

O que me cabe. O que me concedam.

O que escapulir dos mantos em que se embrulham os amores.

Eu sou o vento que perpassa a malha azul do suéter.

Eu quero um amor de Matrioshka.


Férias

 

Não é que seja uma saudade. Não é que eu não possa suportar. Não é um drama.

É só uma falta persistente.

Um singelo e repetitivo recordar, nas horas mais improváveis.

Da voz, da tirada espirituosa, da risada, da pessoa mais interessante que eu sou, quando com ela.

É dizer para os olhos e ouvidos vivazes que ela tem, de mim, dos meus, da banalidade dos dias.

É uma percepção do incompleto em que se tornou a minha pele, sem a possibilidade da pele dela.

Não é que doa.

Mas lateja.


O monstro de olhos verdes

 

Embora eu odeie citações descontextualizadas, tem umas coisas que não dá pra deixar passar. Deparei-me hoje com esta:

O ciúme é uma constrangida homenagem que a inferioridade presta ao mérito. (Mme Puisieux)

E a ela acrescento uma que sempre me ocorre, de Stendhal:

O que torna tão aguda a dor provocada pelo ciúme é que a vaidade não pode ajudar a suportá-lo.

Rapaz, essa coisa de ciúme parece que anda na minha pauta. O pior é que nem anda.

Em todo o caso…


Dueño

 

Ele tem abraço estreito

E um jeito de me apertar

Faz-me imensa falta

Sendo meu só por ser amor

Sendo eu, sua

Morena dos olhos d’água.


Polaridade

 

A pele dela dá choque.

Eu que falo pelos cotovelos, e escrevo a não mais poder… eu que tenho e-mail, facebook, twiiter, dois blogues, e ainda me utilizo dos serviços do correio… eu que deixo mensagens na areia, e envio outras em garrafas… eu que sou perita em mímica, e decodificação de olhares, aprendi LIBRAS e BRAILLE… eu que uso meus próprios olhos para dizer o mundo… eu… que sou um ser comunicante, significante… eu… justo eu… não sabia que existia mesmo essa forma de dizer: com a pele.

E como sou nova nisso, não sei se entendo certo, se digo certo.

Só sei que ela vem, se encosta e me devora pra dentro dela. E sei que quando ela se afasta, leva muito de mim em seus poros.

Só sei que qualquer dia desses, morro eletrocutada.

 

 

 


mesmo assim, escrevo

Disseram que é preciso manter a rotina.

A sensação de normalidade é imprescindível a quem está em situação de exceção.

Agradeço o conselho, mas declino.

É preciso contemplar o trágico.

Ora, direis: estou aqui pela sacanagem. Vamos a ela?

E eu argumentarei, profana, infantil, irritada:

–  Haverá maior sacanagem que ser fodida por Deus em pessoa?

E resolverás, horrorizado, que este não é um ambiente digno de ti.

E eu te direi: adeus.